As quatro vidas de Howard Koch

Para o resto do mundo, a cidadezinha de Woodstock é o lugar de um célebre concerto de rock na década de 1960. Para Howard Koch, autor de roteiros de filmes e peças de teatro, foi bem mais do que isso: apesar de nascido na turbulenta Nova York do início do século, ele passou a infância naquela área pacata do estado e para ali voltou depois dos 60 anos, semi-aposentado.

Premiado em 1943 com o Oscar da Academia de Hollywood como um dos autores (com Julius e Philip Epstein) do roteiro de Casablanca (saiba mais AQUI sobre este filme), Koch morreu em agosto de 1995, aos 93 anos. Três anos antes ele me recebera na sua Woodstock. Apesar da idade, estava no volante de seu carro ao me encontrar perto do ponto do ônibus que chegava de Manhattan, para o que pode ter sido uma de suas últimas entrevistas (publicada à época na “Ilustrada” da Folha de S.Paulo).

Lúcido e ativo, preparava-se para festejar, um par de semanas depois, o 90º aniversário. Do centro de Woodstock, levou-me ao seu rancho, conversando enquanto dirigia o carro. Foi o início de um diálogo que durou várias horas – não interrompido nem quando saimos para caminhar entre as árvores, nas margens do riacho, naquele dia extremamente colorido de outono.

Welles, Houseman e o pânico de 38

Eventualmente, sua mulher Anne Green Koch, colaboradora em alguns de seus roteiros, o socorria acrescentando detalhes aos relatos. Ele a conheceu após Anne ser contratada pela Warner Brothers para trabalhar como sua secretária na elaboração de um roteiro em 1943. Os dois viajaram, de trem, de Hollywood para Nova York, e desde então viveram juntos – mais de 50 anos.

Koch contou-me estar convencido de que vivera quatro vidas. Confuso sobre a própria vocação depois dos 30 anos de idade, desistiu da advocacia ao descobrir o talento de escritor trabalhando a US$ 75 por semana no Mercury Theatre de Orson Welles e John Houseman (conheça AQUI essa célebre série de rádio e ouça alguns dos programas), aos quais se juntou para semear o pânico no país a 30 de outubro de 1938, com a adaptação de A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, sobre uma invasão da Terra pelos marcianos.

Foi a primeira vida. Atraído depois a Hollywood em razão do pânico (como também ocorreu com Welles e Houseman), consagrou-se na segunda vida com a contribuição dada ao roteiro do filme que parece ganhar mais adeptos à medida que fica mais velho – Casablanca (dirigido por Michael Curtiz), cujos 50 anos foram comemorados com pompa e circunstância naquele final de 1992.

Em compensação, um outro filme – Missão em Moscou, que escreveu logo depois de Casablanca – condenou Koch ao desemprego e ao exílio da terceira vida, a de perseguido político em meio à caça às bruxas. A quarta vida começou com seu retorno da Europa a uma pátria amadurecida pela tragédia do Vietnã. Saiu da lista negra e voltou a escrever, mas em outro ritmo, sem as antigas pressões.

O tempo do “politicamente correto”

Koch contou-me na entrevista como sempre fora atropelado pelos fatos marcantes de sua vida – pelo pânico de A Guerra dos Mundos, pelo sucesso de Casablanca, pelo escândalo de Missão em Moscou. Simplesmente “aconteceram”, caíram no seu colo. Ele também trabalhou com outros grandes cineastas – seu amigo John Huston (In This Our Life), Howard Hawks (Sargeant York), William Wyler (The Letter), Joseph Losey (A Finger of Guilt”), Max Ophuls (Letter From an Unknown Woman”).

Depois de ter a carreira interrompida na década de 1950, voltou-se mais para o teatro e os livros. Publicou as memórias (com o título da canção que Casablanca popularizou, As Time Goes By) e tentou explicar a lenda, reproduzindo o roteiro do filme de Curtiz, em Casablanca: Script and Legend. Em The Panic Broadcast: Portrait of an Event, outro livro (adaptado para a TV em 1975), recordou toda a história do pânico gerado pelo programa A guerra dos mundos. (Veja abaixo a manchete do New York Times no dia seguinte.)

Koch sempre foi liberal progressista e “politicamente correto” – algo que há muito saíra de moda em Hollywood. Contou-me que nunca pertencera ao Partido Comunista, como outros escritores do cinema, mas que foi ativista em várias organizações consideradas pelo governo “fachadas” do partido. “Estava em todas elas”, disse rindo. “E fui presidente de uma das mais atuantes”. (Leia AQUI o obituário dele publicado pelo New York Times em 1995.) 

Palavras que o vento não levou

O diálogo de Casablanca popularizou frases que hoje se repetem até em títulos de outros filmes – como Play It Again, Sam, de Herbert Ross e Woody Allen (1972), e The Usual Suspects, de Bryan Singer (1995). Durante aquela entrevista há 16 anos, perguntei a Koch se era capaz de identificar no roteiro o que tinha sido escrito por ele e o que era dos outros dois colaboradores, os gêmeos Epstein, Julius e Philip.

“As pessoas costumam perguntar isso, mas como posso lembrar, 50 anos depois? O que eu me lembro bem é que o diretor, Michael Curtiz, preferia uma ênfase no lado romântico da história, enquanto eu forçava o lado político”. Algumas frases do filme:

“Toque, Sam. Toque ‘As Time Goes By'” (de Ingrid Bergman, Ilsa, para o pianista Dooley Wilson, Sam). “Prendam os suspeitos de sempre” (de Claude Rains, o capitão Renault). “Nós sempre teremos Paris” (de Humphrey Bogart para Bergman). “Acho que isso é o começo de uma bela amizade” (de Bogart para Rains, no final).

“Atire logo, você vai me fazer um favor” (de Bogart para Bergman, que tem um revólver na mão). “Com tanto boteco pelo mundo, e ela vai entrar logo no meu!” (de Bogart para Wilson). E o diálogo entre o capitão Renault (Rains) e Rick (Bogart): “Que diabo, por que você veio para Casablanca?” “Problema de saúde. Vim por causa da água.” “Que água? Estamos no deserto.” “Fui mal informado.” (Veja AQUI toda a filmografia de Koch, inclusive os filmes assinados com pseudônimos durante a lista negra)

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Published in: on abril 26, 2008 at 1:33 pm  Deixe um comentário  

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