A festa republicana de Hillary Clinton

Porque os republicanos festejam, desde terça-feira à noite, a vitória da senadora democrata Hillary Clinton na Pensilvânia? Antes da votação, segundo a rede Fox News (do magnata bushista Rupert Murdoch), assessores do senador republicano John McCain confessaram que torciam entusiasticamente pela vitória dela. E o conspícuo Rush Limbaugh, apresentador de talk shows de rádio, foi mais longe (veja AQUI como o site dele comemorou o sucesso de sua Operação Caos).

Como Limbaugh é pouco conhecido fora dos EUA, uma vez tentei entrevistá-lo. Ouvi então, de sua secretária, que se recusava a falar à imprensa estrangeira. A influência dele no país continua a ser grande, em especial no Meio-Oeste e no Sul, mesmo depois de ter sido pilhado num escândalo de drogas (painkillers) compradas com receitas falsificadas (alegando estar viciado, submeteu-se a tratamento médico especial).

Os livros de Limbaugh são best sellers, como também alguns dos que expoem as bobagens e disparates ditos por ele – como o do humorista Al Franken, “Rush Limbaugh é um gordão idiota” (saiba mais AQUI sobre o livro de Franken). A audiência de seu programa diário em centenas de emissoras de rádio do país batia recordes e em 1994 o Partido Republicano atribuiu a ele a vitória histórica que lhe deu o controle da Câmara e do Senado.

Entre o patriotismo e o racismo

Em 2008 Limbaugh, desapontado com um McCain sem afinidade com a direita evangélica, abraça Hillary momentaneamente – contra Barack Obama, que costuma chamar de “Hussein”. Meteu-se na disputa dos democratas e recomenda a republicanos que se registrem no partido rival, votem em Hillary e depois voltem (veja AQUI a explicação dele à Fox sobre o voto em Hillary). A grande façanha dela, segundo diz, é ter colocado Osama bin Laden em seus comerciais.

O estrategista Karl Rove, que dirigiu as campanhas de Bush em 2000 e 2004, disse ontem à Fox News que aquela ajuda de Limbaugh pode ter sido decisiva na Pensilvânia, pois ela teve forte votação nos distritos que deram a vitória a Bush nesse estado contra Kerry. Assim, o segredo de Hillary, para ganhar, pode ter sido o ataque macarthista a Obama, retratado como antipatriota e aliado de Bin Laden.

Escrevi antes que nos dois meses finais da campanha (setembro-outubro) o risco é ele ser derrotado pelo racismo ou ela pela misoginia. As primárias da Pensilvânia podem ser vistas nesse contexto. Hillary caiu na armadilha: em desespero aderiu à tática do medo, a mesma de Bush e Joe McCarthy, ligando-o até a Bin Laden. E o eleitor branco fica à vontade: finge ter votado por patriotismo e não por racismo. E na eleição de novembro McCain ganha.

O terrorismo e a política do medo

A Fox News e a CNN explicaram, na cobertura, terem evitado fazer projeções precipitadas do resultado com base nas pesquisas à saída da votação. No passado elas eram confiáveis, agora não. Isso porque muitos eleitores brancos, com medo de serem vistos como racistas, dizem ter votado em Obama – mesmo tendo votado contra ele. Outro detalhe: a Fox News foi a primeira a declarar Hillary vencedora.

A CNN só confirmou sua projeção 20 minutos depois, apesar de saber que o atraso prejudicaria sua imagem (a concorrente Fox News fez piada ao transmitir do QG de Hillary: “Não há comemoração ainda, talvez por terem sintonizado o canal errado”, disse o apresentador). Em Nova York tanto a Fox como o New York Post deram apoio a ela, que ainda recebeu doação em dinheiro de Murdoch, dono dos dois (na disputa republicana, claro, apoiaram McCain).

Estará a ex-primeira-dama exagerando na aposta macarthista? Talvez seja só o que lhe resta. Antes do empurrão de Rush Limbaugh ela também já seguira um conselho público dado na mesma Fox por Bill Kristol, notório neoconservador e primeiro a exigir, na capa da revista Weekly Standard (veja ao lado uma capa bem típica), a invasão do Iraque. Dissera ele, antes das primárias de Ohio e Texas: “Recomendo a Hillary a política do medo. Tem de dizer que Obama está despreparado para combater o terrorismo”.

Foi o que ela fez. Desde então insiste na política do medo, gerada pelo 11/9, como meio de provar que é patriota e durona como Bush, embora mulher. Daí ter ido tantas vezes ao Afeganistão e ao Iraque. Limbaugh, por sua vez, encantou-se com a ameaça dela de “obliterar” o Irã se Israel for atacado (leia AQUI a notícia no jornal israelense Haaretz sobre a declaração dela). E ainda pelo fato de ter ela incluído Bin Laden num comercial de TV – a primeira vez que um candidato democrata recorreu a isso.

Aquela culpa por associação

Mas os ataques a Obama, na linha patrioteira pos-11/9 do governo Bush, tornaram-se sistemáticos – e contam com a ajuda da mídia. No mais recente debate democrata, na rede ABC (e tendo como anfitrião George Stephanoupolos, porta-voz da Casa Branca no governo Clinton), ele foi intimado a explicar por que não usava a bandeira na lapela (leia o que o marqueteiro bushista KARL ROVE disse sobre a exploração disso na campanha) e a dar explicações sobre pessoas que o apóiam.

Recorre-se à culpa por associação, expediente macarthista do período da caça às bruxas. Obama tem de responder por coisas ditas pelo ex-pastor da igreja que freqüenta. Pedem a ele satisfação pela presença na Venezuela, ao lado de Hugo Chávez, do cantor negro Harry Belafonte. E exigem que se distancie do vizinho Bill Ayers, que integrou o grupo radical Weather Underground na década de 1960.

Os desvios dos Clinton são estranhos se for lembrado que na campanha de 1992 o candidato Bill Clinton minimizou questionamentos parecidos – sobre sua fuga ao serviço militar e protestos de que participara contra a guerra do Vietnã. Mas o casal sempre buscou empurrar os democratas para a direita. E foi essa uma das razões que levaram gente como Ralph Nader a deixar o partido, parecido demais com o republicano.

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Published in: on abril 24, 2008 at 1:33 pm  Deixe um comentário  

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