O neomacarthismo de Hillary Clinton

A senadora Hillary Clinton já prometeu que, qualquer que seja o resultado das primárias de amanhã (na Pensilvânia) e do dia 6 (na Carolina do Norte e Indiana), continuará a pentelhar até a convenção nacional de 28 de agosto, mesmo estando inferiorizada na votação popular, no número de vitórias nos estados (ganhou menos da metade) e no número de delegados já comprometidos com candidatos.

Se meia dúzia de cálculos matemáticos mostram ser praticamente impossível ela inverter o rumo e derrotar o rival e se até o presidente do partido, Howard Dean, já alertou contra o desgaste que os democratas sofrem por causa do atual impasse, porque ela insiste? Como tenho repetido desde sua derrota esmagadora na Super Terça-Feira (5 de fevereiro), no fundo é tentativa desesperada de virar a mesa e ganhar no tapetão.

Quinta-feira, 18, Dean repetiu a advertência na CNN. “Não podemos abrir mão de dois ou três meses de campanha ativa e tempo para curar as feridas”, disse ele a Wolf Blitzer. “Temos de saber quem é o nosso candidato”. (veja AQUI, no blog Political Ticker da CNN).Mas os Clinton costumam pensar apenas nos próprios interesses. Preferem dar uma banana ao partido – como em 1994-96, quando Bill ganhou a Casa Branca e o partido perdeu as duas casas do Congresso.

O rumo do senador McCarthy

Hillary parece convencida de que se insistir na sua batalha pessoal para difamar e desconstruir Barack Obama, ainda que para tanto recorra ao jogo habitual dos truques sujos dos adversários republicanos, conseguirá dobrar certo número de superdelegados – aqueles dirigentes e figurões do partido que não estão obrigados a acompanhar a tendência do eleitorado democrata, podendo até invertê-la.

Obstina-se a senadora em golpear o rival com acusações de impatriota (por não usar bandeirinha na lapela, como Bush), subversivo simpático aos terroristas (pelo tom emocional do ex-pastor de sua Igreja, na denúncia das malfeitorias dos EUA pelo mundo) e até elitista (por lamentar os que, frustrados ante o desemprego, odeiam imigrantes, abraçam o fanatismo religioso e adotam o culto às armas).

Diferentes estereótipos a que sempre recorreram republicanos destemperados, como o senador Joe McCarthy, para difamar liberais democratas e às vezes ir ao extremo da caça às bruxas, tornaram-se instrumentos de Hillary na obsessão de manter sua campanha até a convenção. Antes, paradoxalmente, ela era hostil ao lobby das armas , rejeitava os excessos evangélicos e defendia os imigrantes.

Hillary parece acreditar que ao baixar o nível em ataques desse tipo ao rival (ou seja, com os mesmos truques sujos dos republicanos) será capaz de convencer superdelegados – que podem mudar o voto se e quando assim o desejarem – de que Obama seria vulnerável, em setembro e outubro, a ataques iguais do partido adversário. Mas o tiro dela pode estar saindo pela culatra.

Perdendo votos para Obama

Exemplo eloquente é o do conspícuo governador (do Novo México) Bill Richardson. Ele serviu em vários postos (inclusive o de embaixador na ONU) nos dois mandatos do presidente Clinton mas decidiu mudar para Obama o voto que antes tinha prometido à senadora Hillary. Outros superdelegados mais ou menos notórios estão fazendo a mesma coisa.

O assunto mereceu ontem (domingo) uma reportagem assinada por Mark Leibovich no New York Times (leia AQUI). O autor cita ainda outros ex-integrantes do governo Clinton, entre eles o economista Robert Reich, professor da Universidade de Harvard que serviu como secretário do Trabalho. Apesar de comprometido anteriormente com Hillary, na última sexta-feira ele mudou seu voto de superdelegado para Obama.

Também tinha sido prometido a Hillary mas migrou agora para Obama o voto do advogado Greg Craig, um dos defensores de Clinton na saga do impeachment; e ainda o de Anthony Lake, ex-conselheiro de segurança nacional na Casa Branca de Clinton. E Hillary trabalhou muito para ter os votos de dois novos senadores, Bob Casey (da Pensilvânia) e Amy Klobuchar (Minnesotta), mas ambos afinal definiram-se por Obama.

O veterano senador John D. Rockefeller IV (Virgínia Ocidental) e a menos conhecida Claire McCaskill (Missouri) também ficaram com Obama. McCaskill recebera apoio dos Clinton em esforço de arrecadação de fundos para sua própria campanha; em 2006 ela deixara Hillary irritada ao explicar na TV que achava Bill Clinton um grande líder mas preferia “não ver minha filha perto dele”.

Os esqueletos no armário

O advogado Craig, ex-colega de faculdade de Hillary, chegou a dizer a Jonathan Alter, da Newsweek, que “se a campanha de Hillary não consegue manter Bill sob controle, como a Casa Branca de Hillary poderia conseguí-lo?” Ainda segundo o Times, os Clintons estão especialmente desapontados com a deserção também de superdelegados menos conhecidos, que deviam favores ao casal.

Depois dessa debandada de superdelegados, o que ainda poderia salvar Hillary? Não acho impossível nesse quadro uma escalada no neomacarthismo dela. No último debate na ABC, por exemplo, a senadora deitou e rolou ao lado dos apresentadores (Charles Gibson e o ex-secretário de imprensa de Clinton, George Stephanopoulos) que questionaram durante 45 minutos o patriotismo de Obama (veja AQUI como o Daily Telegraph de Londres considerou o debate “hostil a Obama”).

Essa é a linha que Hillary já vinha adotando, ao sugerir que havia “esqueletos no armário” de Obama. Um exemplo é o casal Bill Ayers-Bernardine Dohrn, ativistas do grupo radical Weather Underground na década de 1960 (conheça a história dos dois NESTA REPORTAGEM do Washington Post). Vizinhos de Obama, eles trabalham hoje em reforma educacional e justiça juvenil – um esforço meritório, elogiado até por conservadores. Mas para golpear o rival Hillary tenta reviver o radicalismo deles.

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Published in: on abril 21, 2008 at 2:49 pm  Comments (1)  

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  1. Eu me pergunto se não há aí um tanto de proconceito da parte da Sra. Clinton, pois na tradição daquele país um candidato se retira da disputa tão logo perceba a inviabilidade de sua candidatura, passando a apoiar o outro postulante justamente pela unidade do partido. Será que esta moça acha que está acima deste procedimento pelo fato do Sr. Obama ser negro?


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