A receita de Bush para os vizinhos

A propósito das atuais relações promíscuas dos EUA com a Colômbia uribista, vale a pena voltar ao que o presidente Bush espera do chamado “sistema inter-americano”. Em janeiro de 2005 ele prometeu apoio a grupos em luta contra governos não submissos a Washington, na esperança de livrar-se de líderes incômodos como o venezuelano Hugo Chávez, para não falar do haitiano Jean Bertrand Aristide, que o governo Bush tirou do poder em Porto Príncipe e levou à força para a África (a trama dos EUA foi citada AQUI, numa análise do COHA, Council on Hemispheric Affairs).

Na reunião da OEA em Fort Lauderdale, há quase três anos, os EUA tentaram até ditar um pacote de normas para outros cumprirem no continente, a pretexto de democracia. Foi quando apresentaram a proposta criando mecanismo destinado a “monitorar as democracias” na região e foram derrotados pelo resto dos países, liderados pelo Brasil. O chanceler Celso Amorim denunciou os “mecanismos intrusivos” e a idéia foi enterrada sem choro nem vela (leia AQUI a cobertura do site da CNN na época, destacando o papel de Amorim).

No episódio grotesco de Fort Lauderdale, o subalterno Roger Noriega lançou o balão de ensaio (Bush e a fiel escudeira Condoleezza Rice só chegaram depois, fingindo não saber de nada). Foi repudiado com indignação até pelos “Amigos da Carta Democrática Inter-Americana”, grupo patrocinado pelo Centro Carter. O governo Bush deixara deliberadamente de definir as coisas direito, mantendo aberta a porta para a ingerência ostensiva dos EUA nos negócios internos de outros países.

A democracia e os terroristas

O clima daquela reunião da OEA (haveria palco mais apropriado para aquilo do que a Flórida?) estava longe de ser exemplo democrático. Os manifestantes eram mantidos à distância para não serem notados pelas delegações e, menos ainda, pela mídia. A cidade vivia ambiente de guerra, com “check points” em toda parte. Haitianos protestavam na rua, longe dos jornalistas, exigindo a volta do presidente que elegeram e os EUA derrubaram.

Havia protestos visíveis para a mídia – contra Cuba e Fidel Castro. Afinal, estávamos no estado americano com a maior concentração de exilados cubanos no mundo. Mas o personagem que acabou por passar ao primeiro plano não foi Fidel e sim o terrorista Luis Posada Carriles, que os cubanos de Miami e adjacências consideram herói, juntamente com outro terrorista, Orlando Bosch. Essa dupla explodiu em 1976 um avião cubano de passageiros, assassinando 73 civis inocentes.

Posada e Bosch fizeram terrorismo a vida inteira. Hoje vivem aposentadoria de luxo em Miami, sob a proteção do governo Bush. Em entrevista ao New York Times em 1998, Posada relatou com orgulho à jornalista Ann Louise Bardach suas façanhas terroristas. As últimas foram ataques a hotéis em Cuba, um dos quais matou um turista italiano (conheça os detalhes AQUI, contados por Bardach ao programa “Democracy Now!”, de Amy Goodman). De volta aos EUA em 2005, deu entrevistas e foi preso de mentirinha. Libertado depois, já circula agora livremente, apesar da extradição dos dois ser reclamada por Venezuela e Cuba. É o perfeito retrato da guerra imaginária de Bush ao terrorismo.

Um passado que condena

A OEA sempre pareceu perfeita para as tramas dos EUA contra países do continente. No passado recente foi instrumento rotineiro da política externa dos EUA. Criada em 1948 na Colômbia, à sombra do Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca (TIAR), firmado em 1947 no Rio de Janeiro como parte do realinhamento decorrente da guerra fria, servia para respaldar posições dos EUA, à base do suborno de ditadores corruptos e da intimidação de governos fracos.

A organização assistiu, passiva, a invasões americanas de países do continente (Guatemala, Cuba, República Dominicana, Granada, Panamá) e golpes militares instigados de Washington, abertamente ou não. O pretexto era então a “ameaça comunista”, mas até especialistas dos EUA em América Latina, como o ex-embaixador William D. Rogers, chegaram a sugerir que o melhor seria por fim em definitivo à manipulação indecente de Washington e deixar a OEA ser só dos latino-americanos (leia AQUI, na nota 44 da página 14 deste documento a opinião inequívoca de Rogers).

Quando a OEA se reuniu no Brasil, meses depois do golpe militar de 1964 (apoiado pelos EUA), o escritor Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento, brasileiro por adoção, ofereceu uma definição adequada da organização: “é uma reunião de 20 aleijados e um atleta”. Desde então os aleijados ficaram mais numerosos. São 33, agora menos submissos ao atleta, cuja prepotência não mudou. E com Bush os EUA se arvoram ainda em juiz de democracias.

Fora a democracia bushista

Resta saber até onde países-membros da OEA, cujo perfil tornou-se diferente, ainda aceitam prestar-se ao papel melancólico do passado, quando se submeteram à expulsão de Cuba imposta pelos EUA. E quais ousam desafiar o vizinho prepotente. Hoje há um aliado de Cuba, que denuncia o governo Bush, e um punhado de países fartos dos abusos do “Irmão Grande”. Países com peso no continente, entre eles o Brasil, repudiam a ingerência passada.

Ainda no seu tempo de assessora de Segurança Nacional, antes de virar secretária de Estado, Condoleezza Rice disse – em seguida ao fracassado golpe (encorajado pelos EUA) contra Chávez na Venezuela – que não basta um presidente ser eleito pela maioria da população para o governo ser considerado democrático. Depois disso, Chávez foi de novo eleito, reeleito e ratificado por referendos, mas Bush, beneficiário de eleição fraudada grosseiramente na Flórida, não se impressiona com isso.

Aparentemente Rice e Bush têm sua própria definição de democracia: é um regime que se submete aos EUA. Daí a proposta de “fortalecimento democrático” feita à OEA, criando os mecanismos intrusivos. Caso ela tivesse sido aprovada, supõe-se que mesmo se alguém fosse eleito num país do continente (em eleição de verdade e não como a de Bush na Flórida em 2000) só poderia continuar no poder se organizações não-governamentais controladas por Washington ratificassem a votação.

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Published in: on abril 19, 2008 at 10:39 am  Comments (1)  

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  1. Olá Argemiro, muito bom saber que temos agora um blog com conteúdo de qualidade e sem rabo preso com a mídia corporativa e seus interesses contrários à informação honesta e isenta.
    Abraços.


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