John McCain e sua causa – a guerra

Beneficiário dos múltiplos tropeços dos demais candidatos potenciais republicanos, o senador John McCain era dado como fora do páreo antes de agosto do ano passado. Ele conhece bem a máquina republicana de destruição de reputações. Foi alvo dela depois de bater Bush nas primárias de New Hampshire em 2000, quando sofreu ataques impiedosos, marcados pela difamação e pelo baixo nível. Mas agora ela trabalha a favor dele. 

Ao contrário de Bush, esse ex-piloto da Marinha lutou numa guerra – a do Vietnã (veja AQUI imagens dele como prisioneiro de guerra, num filme da campanha). Seu avião foi derrubado ao bombardear alvo civil (uma usina termelétrica de Hanói), capital norte-vietnamita. Filho e neto de almirantes de quatro estrelas, só não foi libertado por ter rejeitado o privilégio (“outros esperavam há mais tempo”, disse). Saiu cinco anos e meio depois, sofrendo torturas e até assinando uma confissão, usada na guerra da propaganda.

Em 22 anos como oficial da Marinha, McCain recebeu as mais altas condecorações – Silver Star, Bronze Star, Purple Heart, Distinguished Flying Cross, Legion of Merit. Na política desde 1982 (deputado e depois senador), construiu reputação de reformista independente. Mas na atual campanha só superou os rivais no partido por causa da estratégia do reforço (o surge) de tropas no Iraque.

Atrelado à guerra de Bush

A aposta dele, como a declaração de que as tropas dos EUA devem ficar 100 anos no Iraque, atrelou sua candidatura aos desdobramentos da guerra: McCain depende deles. Eventos traumáticos, ou o descumprimento pelas autoridades iraquianas do calendário de marcos fixados em Washington, na busca da chamada “estabilização”, poderão ser riscos de efeito imprevisível para sua campanha.

Ele conta, no entanto, com ampla simpatia na mídia corporativa. A conduta, os discursos e os escorregões – passados e presentes – de Barack Obama e Hillary Clinton sofrem escrutínio rigoroso nos jornais e na TV, mas os de McCain, tido como cruzado e reformista, são encarados com complacência ou mesmo ignorados. Ao contrário dos dois democratas, é retratado como honesto, coerente e de posições firmes.

A exceção foi a reportagem do New York Times a 21 de fevereiro (leia AQUI e observe a foto da lobista loura e exuberante), referindo-se não só a possíveis impropriedades nas relações dele com lobistas – e uma em especial, com a qual sugeria-se um romance extraconjugal – mas ainda ao fato de ter sido, há 20 anos, um dos “Cinco de Keating”, os senadores acusados de corrupção e ligações com o banqueiro falido e corruptor Charles Keating Jr.

Sobre esse caso (parte do escândalo S&L, poupança e empréstimo, cujo buraco superou US$ 1 trilhão), McCain fez mea culpa (conheça este e outros esqueletos no armário de McCain clicando AQUI), mas hoje “ajusta” e muda posições como os acusados de flip-flops pela mídia, que prefere poupá-lo: condenava os gastos de campanha e o papel dos “interesses especiais”, mas desistiu do financiamento público que defendia. Votou contra os cortes de impostos de Bush; agora é a favor.

Extremismo acima de tudo

Ele é vulnerável no fundamento de sua campanha. “Os extremistas islâmicos radicais são o desafio transcendente do século 21”, diz. “Extremismo”, para ele, está acima de tudo – do novo papel da China e Índia, da resistência à influência americana na Europa, declínio da posição econômica global dos EUA, alienação de partes significativas da América Latina, distúrbios e pobreza na África.

Ao fazer análise nesse sentido, o colunista E. J. Dionne Jr, do Washington Post, observou que McCain ainda terá de explicar o que realmente quer dizer com “desafio transcendente” (leia o artigo AQUI). Significa que em 2100 os americanos vão olhar para trás e afirmar que tudo o mais que aconteceu no século é menor, em comparação com a guerra ao terrorismo declarada por George W. Bush?

Soa mais como ponto frágil do candidato. Mesmo tendo sido crítico freqüente de Bush – em especial das falhas do Pentágono no planejamento da invasão do Iraque -, McCain opta agora por fazer da guerra sua causa maior. Talvez tenha ido mais ao Iraque do que qualquer parlamentar, enaltecendo a dedicação e o sacrifício das tropas, sem repetir as restrições que fazia antes aos erros das autoridades civis da Defesa.

Espaço amplo a ser ocupado

Figurões conspícuos da aventura criticados por McCain – o secretário Donald Rumsfeld, seu adjunto Paul Wolfowitz, o ex-subsecretário Douglas Feith, o ex-chefe de gabinete do vice-presidente, Lewis “Scooter” Libby – deixaram o palco enquanto a guerra derrubava os índices de aprovação do governo, punido na eleição de 2006 com a perda da maioria nas duas casas do Congresso.

Mas a causa de McCain – a pretexto de “desafio transcendente do século 21” – passou a ser a guerra. Os militares do Exército, Marinha e Força Aérea preferiam o candidato Ron Paul, único republicano contrário à guerra. Segundo o Center for Responsive Politics (conheça AQUI o site do CRP), de Washington, Paul recebeu US$ 212 mil em contribuições deles; o segundo na preferência foi Obama (US$ 94 mil). McCain ficou apenas em 3º lugar.

Se os militares, que lutam a guerra, preferem os que se opõem a ela e defendem a retirada de tropas, o candidato republicano já praticamente indicado, sem qualquer apetite para os dados da economia, não tem outra bandeira além da guerra – e quer as tropas 100 anos no Iraque. Esse é o espaço amplo a ser ocupado pela oposição democrata depois de vencidas as escaramuças Obama-Hillary.

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Published in: on abril 18, 2008 at 3:46 pm  Deixe um comentário  

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