Nem jogo sujo esvazia Obama

Embora difícil de acreditar, foi o que aconteceu: a senadora Hillary Clinton apostou tudo na sua nova esperteza contra Barack Obama e foi acompanhada pelo próprio candidato republicano John McCain, mas os eleitores democratas ainda preferem acreditar no senador negro como mais “elegível”, ou seja, o mais capaz de ganhar a Casa Branca para o partido da oposição em novembro.

Segundo o resultado da nova pesquisa da rede ABC com o jornal Washington Post, anunciado ontem, Obama é favorecido numa margem de 2 por 1: 65% o acham mais elegível, só 31% acham Hillary (veja AQUI a análise no website da ABC). A mudança é dramática, pois a vantagem em elegibilidade era dela até fevereiro – então de apenas cinco pontos percentuais, depois de ter sido esmagadora até novembro do ano passado.

Outro detalhe surpreendente na pesquisa ABC-Post também é problema grave para a campanha dela, talvez resultante dos ataques crescentes de Hillary a Obama: entre todos os americanos, 58% agora a vêem com desconfiança e suspeitam de sua honestidade. É um aumento de 16 pontos percentuais sobre o número de dois anos atrás. Nessa questão Obama está 23 pontos percentuais melhor do que ela.

Bravatas prejudicam Hillary

A impressão que os números deixam é de que a agressividade de Hillary contra o rival, em vez de melhorar as chances dela, parece tornar cada vez mais difícil uma recuperação da preferência do eleitorado. O efeito do último episódio explorado pela campanha dela (as declarações de Obama sobre a frustração dos trabalhadores do Meio-Oeste) já se reflete na pesquisa, pois a sondagem incluiu quinta-feira, sexta, sábado e domingo, quando já estavam no ar os ataques dela em comerciais da TV.

Conforme destacou o Washington Post (leia a análise do jornal AQUI), ela claramente perdeu confiança da maioria dos eleitores, que passou a  vê-la como desonesta. Os esforços dos marqueteiros de Hillary, que a convenceram a reconhecer erros e fazer piadas autodepreciativas, não estão conseguindo reabilitar sua imagem. Apenas 39% dos americanos a julgam honesta e confiável (em maio de 2006 a percentagem era 52%).

Provavelmente também contribuiu para isso o relato de Hillary, na campanha, sobre a visita à Bósnia em 1996, no qual sugeriu – tentando retratar-se como corajosa e destemida – ter desembarcado em meio a balas disparadas por franco atiradores (as imagens reapareceram depois nesta SÁTIRA disseminada pelo You Tube). Assim, só restou à candidata reconhecer publicamente ter cometido um erro e que as coisas na realidade não aconteceram da forma como descrevera antes.

Abandono dos grandes temas

No total, o número de americanos com opinião desfavorável sobre Hillary eleva-se agora a 54% – 14 pontos percentuais mais do que em janeiro. A percentagem de Obama também subiu, mas apenas 9 pontos, para 39%. Essa aferição é considerada a mais básica na avaliação da popularidade de qualquer homem público, político ou celebridade.

Há indícios preocupantes de que o prolongamento da campanha democrata desgasta os dois candidatos. Em geral considera-se o problema grave quando as opiniões desfavoráveis superam as favoráveis. Isso já acontece com Hillary. O número de eleitores democratas (ou independentes inclinados para o partido da oposição) que acham negativo o tom da disputa subiu de 27% (janeiro) para 41% – um aumento de 14 pontos.

Entre os que pensam assim, segundo os analistas da rede ABC, 52% culpam Hillary; apenas 14% acusam Obama (a margem é de 4 por 1). Mas há ainda 25% que culpam os dois da mesma forma. Outra crítica, esta feita pela metade dos eleitores democratas, é de que os candidatos estão discutindo coisas pouco relevantes, em vez de enfrentar os grandes temas, as questões reais.

Na verdade, as posições dos candidatos sobre problemas relevantes, como a economia, a guerra no Iraque, o comércio internacional e o terrorismo, são muito semelhantes. De certa forma isso explica a busca de temas menos importantes, como a exploração pela campanha de Hillary dos controvertidos sermões do ex-pastor da igreja frequentada por Obama, Jeremiah Wright.

Ele derrotaria McCain, ela não

Apesar do ataque de Hillary na questão, 59% das pessoas ouvidas e 72% dos simpáticos ao Partido Democrata aprovaram a maneira como Obama distanciou-se de Wright. Metade dos democratas, mesmo assim, preocupa-se com o que os republicanos ainda farão – em setembro e outubro, fase final da campanha – para explorar o episódio de forma prejudicial ao senador negro.

Já o problema mais recente do desabafo de Obama (sobre os trabalhadores que perderam empregos há 25 anos no Meio-Oeste e continuam revoltados ou frustrados) não teve reflexo significativo no eleitorado. Mesmo assim continua a ser explorado obsessivamente pela campanha de Hillary, o que leva estrategistas do republicano McCain a fazer a mesma coisa.

O problema maior para ela é que 51% dos democratas desejam que Obama ganhe a indicação do partido. Apenas 41% a querem como a indicada. A diferença de 10 pontos percentuais é a maior registrada até hoje. Quanto à fase final, em novembro, a pesquisa indica que será uma eleição apertada. Obama teria 5 pontos de vantagem sobre McCain (49% a 44%, bem abaixo do 52-40 do mês passado). E Hillary perderia por 3 (45% contra 48%), apesar da vantagem que teve em março (50-44).

 

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Published in: on abril 17, 2008 at 12:55 pm  Deixe um comentário  

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