Uma ousadia da mídia, há 63 anos

A submissão da mídia brasileira aos poderosos do momento é uma verdade histórica que pode ser comprovada até em seus raros atos de coragem como foi o da publicação da célebre entrevista de José Américo, que pôs fim à censura do Estado Novo. Lamentavelmente, os que se propõem relatar tais episódios nem sempre mostram-se à altura da tarefa.

Vejam o caso do livro Um Jornal Assassinado, no qual o autor, Jefferson de Andrade, pretendeu contar essa e outras proezas da história do Correio da Manhã, além do que foi sua “última batalha”, a do confronto com o regime militar de 1964, que levou ao desaparecimento do jornal. Largos trechos da reportagem foram reproduzidos no livro, com pompa e circunstância.

 

Mas Andrade, amparando-se em palavras que atribuiu ao escritor Edmundo Moniz, sequer registrou que a entrevista foi feita por Carlos Lacerda. Insolitamente, preferiu transferir a autoria a “três pessoas” que nem se deu ao trabalho de identificar. Que credibilidade pode ter uma retificação histórica tão frágil a ponto de deixar de lado detalhe dessa relevância?

Luís Camilo de Oliveira Neto

A duvidosa retificação foi completada ainda com a versão fantasiosa de que as tais “três pessoas” levaram o texto ao então poderoso redator-chefe Costa Rego e ficaram no bar da esquina até 10 ou 11 horas da noite, à espera da autorização que ele deveria obter, pelo telefone, com o dono do jornal, Paulo Bittencourt, então no exterior.

Se os fatos tivessem mesmo acontecido dessa forma, por que os três misteriosos personagens nunca vieram a público reivindicar a proeza? O livro não esclareceu. Mesmo porque não consta que qualquer pessoa tenha alguma vez questionado a autoria de Lacerda e o relato que ele mesmo fez de todo o episódio. (Saiba mais sobre Lacerda AQUI nesta síntese biográfica do projeto “A trajetória política de João Goulart”, do CPDOC).

A espera pela autorização de Bittencourt, aliás, não fora de apenas algumas horas, ao contrário do que escreveu Andrade. Levara dias e semanas, segundo a versão minuciosa que se encontra em Depoimento, o volume editado em 1977, pela Nova Fronteira, a partir de gravações feitas pelo ex-governador pouco antes de morrer.

Nesse livro-depoimento, o ex-governador da Guanabara não expõe a versão como bravata – o que empresta ainda mais credibilidade ao relato dele. Tanto que destaca o papel, no episódio, de personagem-chave, relativamente obscuro: Luís Camilo de Oliveira Neto. Coube a ele o mérito de convencer José Américo a dar a entrevista e, depois, de pedir ao jornalista que o procurasse.

A coragem que faltou aos outros

Ao entrevistá-lo, atendendo a Oliveira Neto, Lacerda não estava vinculado à redação do Correio. Fazia colaborações (como free lancer) tanto para o Correio como para o Diário Carioca. Mas primeiro procurou Orlando Dantas, pois seu Diário de Notícias era o jornal que mais lutava contra a censura. Dantas respondeu que só publicaria se os outros também publicassem, no mesmo dia.

A posição mais pitoresca – certamente coerente com a postura futura de O Globo, zeloso na censura e na autocensura – foi a de Roberto Marinho. Confirmando o que já se presumia sobre sua coragem cívica (ou falta dela), ele respondeu que concordaria em publicar a entrevista desde que fossem amenizados determinados trechos – certamente aqueles que eram a própria razão da entrevista. José Américo, claro, rejeitou a condição imposta.

No Diário Carioca, Horácio de Carvalho até admitiu comprometer-se, mas Macedo Soares o demoveu, a pretexto de que a matéria poderia ser interpretada como provocação (pelo fato de já estar o general Goes Monteiro, àquela altura, conspirando contra Vargas). Essas explicações são do próprio Carlos Lacerda, no Depoimento publicado pela Nova Fronteira (página 31).

Só então o Correio entraria em cena. Segundo Lacerda, antes de viajar para o exterior Paulo Bittencourt, com quem tinha conversado, deixara instruções específicas para Costa Rego publicar o texto – o que de fato ocorreu, mas somente uns 15 dias depois (a 22 de fevereiro de 1945). Não havia assinatura do entrevistador e o título era discretíssimo: “A situação nacional – entrevista do ministro José Américo de Almeida”.

Da coluna nasce um jornal

Assim, a bravura cívica para bancar o desafio à ditadura foi apenas de Paulo Bittencourt. Vários donos de jornais tiveram a oportunidade – foram procurados para isso. Nenhum outro ousou. Quanto à tentativa de Andrade, em Um Jornal Assassinado, de cassar a autoria pelo fato de duas décadas mais tarde Lacerda ter ficado contra o Correio, foi mesquinha – para dizer o mínimo.

O próprio Antônio Callado, rigorosamente insuspeito por não morrer de amores por Lacerda, testemunhou uma vez que este tivera “um período gigantesco dentro do Correio da Manhã. Ali ele realmente se transformou no vulcão que foi”. Tanto assim que o jornal mais tarde criado por Lacerda nasceria quase como filhote do Correio – um episódio menos conhecido. 

O nome Tribuna da Imprensa era praticamente o mesmo (“Da Tribuna da Imprensa”) da coluna que Lacerda assinava no Correio e que tinha deixado de fazer quando Bittencourt censurou uma crítica feita ali à entrega das refinarias a Peixoto de Castro e Soares Sampaio. “Não posso deixar sair uma paulada dessas nos meus amigos”, argumentara ele, conforme também está no Depoimento (páginas 74-75).

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Published in: on abril 16, 2008 at 6:56 pm  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Caro senhor,

    Parabéns pelo formato do blog.

    Tomei conhecimento do conteúdo do vídeo abaixo e, como não vi repercussão na nossa imprensa, gostaria de informações e comentários do senhor sobre esse novo escândalo da era Bush.

    ABC News: Bush advisers approved torture

    • O celular espião serve para você monitorar as ligações de um telefone celular.
      A gravação de ligações de celular pode ser muito útil para você e toda sua família.
      Você pode utilizar para saber que tipos de amizades seus filhos possuem e tomar atitudes preventivas.
      Você pode armazenar as gravações no seu e-mail e depois revê-las a hora que quiser. Muito prático, moderno e útil.
      Se você utiliza o celular espião, você depois pode rever a gravação e fazer as suas anotações.

  2. Argemiro Ferreira: Só hoje, 10 de abril de 2009, tomo conhecimento de seu comentário a respeito de meu livro Um jornal assassinado – A última batalha do “Correio da Manhã”, que escrevi com a colaboração de Joel Silveira. Você escreveu: “Quanta à tentativa de Andrade, em Um jornal assassinado, de cassar a autoria pelo fato de duas décadas mais tarde Lacerda ter ficado contra o Correio, foi mesquinha, para dizer o mínimo.”
    Pela leitura de seu texto, sugere-se que o autor do livro fez mesquinha vingança contra Lacerda. Repudio veementemente o comentário.
    Está explícito no capítulo a que se refere a entrevista de José Américo que o depoimento é de Edmundo Moniz. Se ele disse que eram três jornalistas, não os identificou, pergunto agora por quê? Se essa pergunta me ocorre agora, por que não me ocorreria na época? Não me lembro de detalhes, afinal são passados quase vinte anos. Como a entrevista saiu no jornal sem a identificação de autor, talvez eu não soubesse na época que se tratava de Lacerda o único ou um dos três entrevistadores de José Américo. O certo é que a omissão não foi porque Lacerda se tornou inimigo do jornal, pois enfim eu nada tinha com isso. Não virei fã de carteirinha do Correio para distorcer história.
    Para apenas mais um esclarecimento, revelo que comecei a escrever o livro sobre o Correio da Manhã por sugestão de Joel Silveira, mas o enfoque principal seria a atuação de dona Niomar Moniz Sodré Bittencourt contra a ditadura no país, implantada pelos militares com o golpe de Primeiro de Abril de 1964. Encontrava-me com ela exatamente no apartamento de Joel Silveira, em Copacabana. O trabalho encontrava-se adiantado, como também depoimentos de Edmundo Moniz, quando dona Niomar foi nomeada pelo governador Brizola para membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Ela se encontrou com Brizola, ficaram amigos. Então ela ordenou que eu tirasse do livro em preparo sobre ela, os editoriais “Basta” e “Fora” do Correio da Manhã. Argumentei que era impossível tratar a história do Correio da Manhã deixando de fora os editoriais. Afinal, escrevia sobre ela e também o jornal. A história ficaria imperfeita. Mas ela reafirmou que tinha de publicar o livro sem nenhuma alusão a Brizola – na década de 60, muito criticado pelo jornal. Não aceitei escamotear a história. Dona Niomar, autoritária como era, mandou que parasse de escrever o livro sobre ela. Com isso, Edmundo Moniz ficou numa situação difícil. Pois ela não queria que ele me passasse mais informações. Ela era assim. Autoritária ao extremo. Talvez isso é que a tenha feito tão corajosa para enfrentar os generais que a prendiam.
    Combinei então com o Joel que faria outro livro, destacando principalmente o próprio jornal, Edmundo e Paulo Bittencourt. E assim foi feito. Minhas fontes principais passaram a ser o próprio jornal, lido nos arquivos da Biblioteca Nacional. No capítulo em questão, o enfoque era destacar a atuação de Paulo Bittencourt. O autor da entrevista com José Américo era agora mero detalhe. O livro tem 400 páginas, inúmeras informações em cada capítulo. Optei por entrevistar apenas os quatro ex-redatores-chefes que ainda viviam na época, pois se fosse ouvir vários jornalistas que escreveram no Correio, estaria até hoje escrevendo o livro.
    Os depoimentos de Niomar e Edmundo ficaram no meio. Certamente, o capítulo em que apareceria Lacerda, conforme foi contado por Edmundo Moniz, ficou sem a devida precisão, por conta dos contratempos que tive ao redigir o livro. Havia também o prazo a cumprir, imposto pelo contrato com a editora José Olympio.
    São quase 20 anos passados, lógico que não consigo me lembrar com detalhes de certas partes do livro. Assim, não sei dizer se sabia ou não da autoria da famosa entrevista de José Américo feita por Lacerda na época. E nem sei explicar a razão de ter Edmundo dito que foram três jornalistas os autores, sem identificá-los. Afinal, questiono: o autor da entrevista foi só Lacerda ou ele teve dois colaboradores?

    • Recebo o comentário de Jeferson de Andrade, que não me lembro de ter conhecido pessoalmente, como uma contribuição histórica. Ele traz informações relevantes sobre o livro e o Correio da Manhã. E me força a retificar algo que afirmei no post. Havia o projeto do livro, que também teve a colaboração de Joel Silveira, de quem fui amigo (e colega durante alguns anos na revista Manchete), mas os dois autores, aparentemente com razões de sobra, não queriam limitar o esforço deles a um livro apenas sobre Niomar Moniz Sodré Bittencourt (dando a ela o direito de impor vetos), cujo temperamento explosivo era bem conhecido. Preferiam fazer um livro sobre o jornal, incluindo o período dela. Assim, decidiram escrevê-lo sem a colaboração dela. Com isso, ficaram privados de mais informações que Edmundo Moniz (além de parente, muito ligado a ela) poderia dar. Entre elas, o que se referia à entrevista de José Américo que derrubou a censura do Estado Novo. Obviamente, entendo a explicação de Jeferson de Andrade – de que não pode ser atribuído a ato mesquinho da parte dele negar a autoria de Carlos Lacerda. Concordo e até acho, já que estamos em abril de 2009 e o post é de quase um ano atrás, que o assunto merece ser revisitado em um novo post, que prometo para breve.


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