O governo Bush e a herança unilateralista

A tendência unilateralista dos EUA, mesmo tendo sido extremada nos últimos sete anos, começou a nascer bem antes de George W. Bush chegar à Casa Branca. Coube a Ronald Reagan, em plena Guerra Fria, assumir no início da década de 1980 (e da era Reagan-Bush) as opções conservadoras e direitistas hostis ao sistema da ONU e discutidas em templos de reflexão política como o American Enterprise Institute (AEI) e a Heritage Foundation.

Na política continental, por exemplo, foi notória a mudança de rumo. A defesa ostensiva dos direitos humanos no período do democrata Jimmy Carter foi trocada pelo apoio ostensivo a ditaduras sanguinárias do Cone Sul (como Argentina e Chile, para não citar a do Brasil, que teve divergências com os EUA a partir de 1975) e, em especial, da América Central e Caribe (onde a matança na Guatemala, El Salvador e Honduras ganhou novo alento).

A linha do governo Reagan nas Nações Unidas – a princípio a cargo de Jeane Kirkpatrick, dos quadros da AEI (e que no governo Bush II chefiaria a delegação dos EUA na Comissão de Direitos Humanos em Genebra) – passou a hostilizar a ONU como controlada por “tirania da maioria” (referência ao Terceiro Mundo). Kirkpatrick até fabricou desculpa para o fato de condenar violações de direitos humanos em países hostilizados pelos EUA e não as de outros, às vezes sustentados pelos EUA.

Cortejando ditadores sanguinários

Os ditadores amigos, dizia ela, eram apenas “autoritários” (tão inofensivos como o sanguinário Suharto da Indonésia, que chegou ao poder após massacrar mais de 700 mil opositores). Os outros, “totalitários” (fossem comunistas, esquerdistas ou apenas céticos sobre as boas intenções de Washington).

A primeira decisão relevante de Reagan na política externa, adotada logo depois da posse, foi a demissão sumária de um embaixador: aos olhos da nova equipe da Casa Branca esse diplomata, Robert White, cometera em El Salvador o pecado supremo de criticar abusos praticados pelos militares salvadorenhos (que, como na Colômbia hoje, recebiam ajuda em armas e dinheiro dos EUA para combater as guerrilhas) e esquadrões da morte de extrema direita, apêndice paramilitar do regime, responsáveis pelo assassinato do arcebispo Oscar Romero e de quatro missionárias americanas que trabalhavam junto aos pobres do país (saiba mais, AQUI, na revista católica Commonweal, sobre o trabalho de White em El Salvador).

Tal decisão do governo Reagan definiu para o mundo à época a mudança de rumo da política externa continental, em favor das ditaduras militares. E houve mais indícios de unilateralismo: a decisão de retirar os EUA do Tratado do Direito do Mar (Law of the Sea), negociado durante mais de uma década por quatro governos americanos (dois deles republicanos); a saída da UNESCO (Organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura, sediada em Paris); e a recusa em cumprir a decisão da Corte Internacional de Haia contra a ação terrorista dos EUA ao minar portos da Nicarágua sandinista (leia o ARTIGO de Adam Liptak no New York Times sobre os EUA e a Corte de Haia). 

Como Clinton aceitou o jogo

O governo Reagan, além disso, iniciou os atrasos sistemáticos no pagamento das contribuições à ONU – chantagem para ampliar o controle da organização pelos EUA. A nova postura hostil ao sistema multilateral agravou-se no governo seguinte, do primeiro Bush – que, no entanto, percebeu a conveniência de recorrer à ONU para usar a força e tirar os invasores iraquianos do Kuwait. E não houve recuo nos dois mandatos seguintes, do presidente democrata Bill Clinton.

O fosso entre Washington e os próprios aliados da OTAN, conforme fica claro num estudo de especialistas, também foi revelador: passou dramaticamente de 13 pontos (em 1980) para 36 (em 1992). Ou seja, além de se distanciar da maioria dos países, os EUA ainda ficaram cada vez mais sem o respaldo de aliados, o que explica episódios posteriores nos quais, depois de exercerem o poder de veto contra resoluções no Conselho de Segurança condenando Israel, viam texto idêntico ser aprovado pela maioria esmagadora do mundo na Assembléia Geral, contra apenas dois ou três votos (de delegações tão expressivas como Micronésia, Palao e ilhas Marshall).

O governo Clinton, acuado pela maioria republicana nas duas casas do Congresso, sequer ousou restabelecer a presença na UNESCO. Mas coube ao segundo Bush, que o fez, levar o unilateralismo ao extremo: ignorou a ONU e, indiferente à opinião pública mundial, invadiu o Iraque sem sequer esperar que se concluísse o processo de inspeções internacionais de armas, como preferiam até antigos aliados dos EUA na OTAN, como França e Alemanha.

Rompendo a tradição de 55 anos

O que fez diferença maior, claro, foi a proclamação arrogante da doutrina da guerra preventiva, até então não assumida ostensivamente por nenhum presidente dos EUA. Bush declarou sua doutrina estratégica num discurso sobre política externa feito em junho de 2002 na Academia de West Point (conheça AQUI, no site da Casa Branca, a Estratégia de Segurança Nacional). No mês seguinte o ex-embaixador Richard Holbrooke, que chefiara a missão na ONU, considerou a nova estratégia “rompimento radical de uma tradição bipartidária de 55 anos” na política externa dos EUA.

O pior é que a essência daquela doutrina fora repudiada 10 anos antes até pelo então presidente, George Bush pai. Ela tinha ido formulada às escondidas no Pentágono por Paul Wolfowitz – por encomenda do secretário da Defesa na época, Dick Cheney. Vazada à imprensa, causou controvérsia tão grande que o velho Bush acabaria por mandar Cheney mudar tudo. “É receita literal para uma Pax Americana”, horrorizara-se antes o senador democrata Joe Biden, apoiado por vozes moderadas da política externa (veja AQUI como foi feita a revelação, em 1992, pelo New York Times.)

A falta de sintonia dos neocons (Cheney, Wolfowitz e o resto da turma) com a corrente central, bipartidária, da política externa do país foi ignorada solenemente pelo segundo Bush. Nem Reagan tinha ido tão longe. Com o pretexto do 11/9 os neocons impuseram a receita, indiferentes ao resto do país e ao resto do mundo. Sem respaldo, inventaram a bobagem da “coalition of the willing”, que incluía Palao. Bush nunca pediu desculpas pelas trapalhadas; ao contrário, ainda acha que o mundo tem de aceitar sua lambança no Iraque.

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Published in: on abril 15, 2008 at 2:31 pm  Deixe um comentário  

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