Hillary no ataque: Obama é “elitista”

A última jogada de esperteza da senadora Hillary Clinton, no desespero para manter viva sua candidatura presidencial, é o esforço para torcer declarações do rival Barack Obama, fazendo-o parecer um “elitista e arrogante” que se considera superior ao americano comum. E, como antes, o republicano John McCain aderiu prontamente ao ataque dela e passou a repetir a mesma coisa. (Clique AQUI para ler no New York Times detalhes da acusação, a repercussão e a resposta de Obama).

Fica claro que não há limite para os desvios de Hillary – ou os do marido Bill Clinton. Pois o ataque inicial do casal a Obama, amplamente repudiado pelos eleitores democratas, era precisamente o contrário: quando o senador ganhou por maioria esmagadora as primárias da Carolina do Sul, a 19 de janeiro, os Clinton sugeriram que ele não tinha estatura, não passava de um novo Jesse Jackson.

Agora inverteram o raciocínio: o problema já não é ser negro e modesto demais para ambicionar a Casa Branca e sim o contrário – ser um elitista que subestima as pessoas humildes. A inversão reflete o desespero. Hillary e os aliados dela na mídia (em especial a Fox News do magnata conservador Rupert Murdoch) passaram o sábado e o domingo a repetir o ataque – junto com McCain.

Hard hats e blue collar

O fato de estarem todos juntos na mesma jogada – os Clinton, McCain e a mídia mais reacionária – indica, em primeiro lugar, o temor generalizado dos que se opõem a Obama nos dois partidos. Mas vale voltar às declarações dele, pinçadas na gravação de um discurso feito dias antes, numa reunião fechada, e “ressuscitado” apenas para servir aos adversários apavorados com o vigor de sua campanha.

Alegaram Hillary e McCain nos sucessivos pronunciamentos das últimas horas, repetidos dia e noite pela Fox News, que na tal gravação Obama parece criticar a revolta de trabalhadores (os chamados blue collar, em especial brancos do Meio-Oeste) que, inconformados com o desemprego, voltam-se para a religião, porte de armas e ataques aos imigrantes. (Veja na FOXNEWS a ironia de Obama ante a súbita conversão dela ao lobby de armas)

A fala do senador, na verdade, pode ter sido uma avaliação muito precisa – algo que políticos em campanha nunca ousam dizer explicitamente. A situação retratada por ele é semelhante à reação dos hard hats na década de 1960, quando esses trabalhadores da construção condenavam os protestos dos jovens contra a guerra do Vietnã, inclusive a queima da bandeira e de cartões de recrutamento.

As verdades inconvenientes

O problema a que se referiu Obama é real. No quadro atual o grande impulso à sua candidatura veio espontaneamente de jovens universitários. A Pensilvânia – onde se dará, dia 22, a principal das primárias que restam – tem um contigente de eleitores blue collar capaz de deter a tendência atual de crescimento de Obama e declínio de Hillary, caso ela consiga envenená-los, como tenta fazer.

Mas há um detalhe. Como em outras situações parecidas, há um imediatismo perigoso no raciocínio da campanha de Hillary. A inclinação do eleitorado blue collar poderia até favorecê-la agora, contra Obama, mas não na fase final da campanha (setembro-outubro), quando os que se refugiam em igrejas evangélicas, compram armas e hostilizam imigrantes tendem a preferir o republicano McCain.

Na gravação, feita numa reunião em San Francisco com colaboradores que levantam recursos para a campanha, Obama não chegou a dizer que esse eleitorado atingido pela perda maciça de empregos é quase sempre branco e hostiliza também os negros. Essas pessoas estão em pequenas cidades da Pensilvânia e, principalmente, num grande número de pequenas cidades do Meio-Oeste, que há 25 anos perdeu empregos que nunca voltaram.

O desabafo de Obama pareceu racional. “Não chega a ser surpresa que estejam revoltados”, afirmou. “Eles reagem agarrando-se às armas, ou à religião, ou à antipatia pelas pessoas que não são como eles, ou ao sentimento anti-imigrante ou anti-livre comércio, como uma maneira de explicar as frustrações deles”. Tudo verdade, claro. Mas será boa política dizer verdades incômodas numa campanha?

Os novos valores de Hillary

Menos recomendável ainda é dizê-lo quando diminui cada dia mais a vantagem de sua adversária na Pensilvânia, que caiu de confortáveis dois dígitos e já estava reduzida, antes do barulho criado pelo ataque conjunto de Hillary-McCain-FoxNews, a apenas 4%. Segundo a mais recente pesquisa Zogby, revelada dia 11, Hillary tinha então 47% e Obama 43%. (Clique AQUI para ver a pesquisa).

A acusação de Hillary (mais McCain e FoxNews) é de que Obama está fora de sintonia com “os valores” das pequenas cidades golpeadas economicamente. Ele não pediu desculpas pelo que disse, apenas admitiu não ter se expressado bem, acha que devia ter falado de outra maneira. O problema é que a rival, inferiorizada na votação popular no país, no número de delegados e com menos da metade de vitórias nos estados, acha que pode tirar partido do escorregão.

Deixando de lado a coerência, Hillary acusa Obama de ver a religião, a caça (e direito às armas) e a preocupação com a imigração como “respostas emocionais a dificuldades econômicas, não como valores profundos”. Mas até há pouco ela própria denunciava de forma candente o lobby das armas, fugia da exploração política da religião e cortejava os votos dos imigrantes.

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Published in: on abril 14, 2008 at 1:07 pm  Deixe um comentário  

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