Bush, Uribe e os “generais de redação” na mídia

O presidente Bush fugiu a qualquer negociação com a bancada democrata, que desde janeiro do ano passado controla as duas casas do Congresso, e tentou impor no grito a via rápida para aprovar o tratado de livre comércio com a Colômbia (do seu afilhado Álvaro Uribe). Resultado: votos até de republicanos obrigaram o pato manco da Casa Branca a engolir a própria arrogância.

O paradoxo é que no Brasil a grande mídia em geral e o jornal O Globo em particular – com seus desinformados “generais de redação”, como o colunista Merval Pereira – teimam em apostar na aventura bélica sul-americana de Bush e Uribe, obcecados em fabricar uma nova guerra bushista. (Leia AQUI post anterior, sobre o incitamento do jornal à guerra contra a Venezuela). Não sei exatamente o que ganhariam com isso, até porque há três anos perdem todas as batalhas na campanha deles pelo impeachment de Lula.

Nosso presidente não só continua à frente do governo como o apoio a ele no país nunca foi tão esmagador. O tratado de livre comércio Bush-Uribe seria o prêmio da Casa Branca à submissão da Colômbia – único aliado incondicional que o bushismo tem na região. Mas nem o austero Richard Lugar, republicano de mais alta hierarquia na comissão de Relações Exteriores do Senado, consegue digerir o recorde de violações dos direitos humanos na Colômbia. 

As preocupações de um senador

A Colômbia de Uribe é considerada hoje o país, em todo o mundo, onde líderes sindicais são mais perseguidos e assassinados. O senador Lugar, até agora, nunca viu um tratado de livre comércio pelo qual deixasse de se apaixonar. O lobby de Bush, por isso mesmo, foi atrás desse senador na esperança de garantir seu voto, até por seus antecedentes amplamente favoráveis a tais acordos.

Mas como registrou o analista político de esquerda John Nichols, um dos jornalistas mais atentos às violações aos direitos humanos na Colômbia, Lugar reagiu: “Esse acordo enfrenta oposição dura porque muitos no Congresso acham que o governo daquele país não toma medidas para garantir a segurança dos trabalhadores”. Pergunta o jornalista: “Será irracional essa convicção de Lugar?” (Clique NICHOLS para o blog dele no site da revista The Nation). 

Na ótica do senador, de nenhuma forma. O próprio Lugar explicou seu papel: “Pedi ao presidente Bush para trabalhar junto com o governo colombiano a fim de mostrar progressos convincentes em relação às práticas trabalhistas naquele país. Sem haver provas claras sobre isso os significativos benefícios econômicos e políticos de um tratado de livre comércio com a Colômbia estariam ameaçados”.

Tratado errado na hora errada

A manifestação de Lugar foi extremamente moderada. Ele evitou qualquer ataque mais violento ao intolerável autoritarismo do regime de Uribe, obstinado hoje em se perpetuar no poder com um terceiro mandato. Na Câmara, outros parlamentares republicanos acham a mesma coisa e vão mais longe no repúdio aos donos do poder em Bogotá, determinados a fazer a guerra exigida por Bush – em troca dos US$ 8,4 bilhões já recebidos dos EUA.

Foram nada menos de seis os republicanos da Câmara que se distanciaram da linha partidária – e da própria Casa Branca – para não se envolverem na promiscuidade Bush-Uribe. Isso seria fechar os olhos não só aos prejuízos sofridos pelos trabalhadores do país mas ainda às denúncias de organizações de direitos humanos, ambientais e agrícolas, para as quais esse é “o tratado errado na hora errada”.

Entre os republicanos que se somaram à oposição democrata estava o candidato presidencial Ron Paul, texano de inclinações libertárias. Eles acrescentaram seus votos aos de 218 deputados oposicionistas contra o que, oficialmente, foi batizado pelo governo Bush de “Acordo de Promoção Comercial EUA-Colômbia”. Adiado pelo menos por alguns meses, o acordo dificilmente volte agora ao debate antes da posse do presidente a ser eleito em novembro. 

Que tal um silêncio obsequioso?

Enquanto essas coisas aconteciam em Washington, no Brasil O Globo preferia esta semana voltar a incitar as Forças Armadas brasileiras para se envolverem na guerra de Uribe (e seu padrinho Bush) contra os rebeldes colombianos – uma lambança de quatro décadas. Para tanto, o jornal perguntou ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, como o Brasil responderia “a uma eventual invasão do território nacional por guerrilheiros das FARC.

Sem citar as FARC, Jobim disse o que tinha de dizer: invasão estrangeira de nosso território tem de ser respondida militarmente. Os “generais de redação”, em O Globo, permitiram-se então proclamar na manchete, em toda a extensão da página 12: “Jobim diz que Brasil enfrentaria FARC à bala”. Os guerreiros de fancaria julgaram cumprida sua missão bélica – mas não informaram ao leitor que a resposta serve para toda e qualquer invasão estrangeira de nosso território, seja quem for o agressor.

Provocadores mediáticos obcecados em fabricar guerras, a exemplo de Hearst e Pulitzer no passado (saiba mais AQUI sobre como se fabricou a guerra de 1898 contra a Espanha), também poderiam avançar o sinal e perguntar se o Brasil receberia bem uma invasão por tropa uribista – como aquela que, encorajada pelo bushismo, violou a fronteira do Equador e bombardeou-lhe o território. Antes que tal coisa aconteça, suspeito que será sensato O Globo impor silêncio obsequioso a seus “generais de redação”.

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Published in: on abril 12, 2008 at 8:57 am  Deixe um comentário  

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