Mais segredos da espionagem na guerra do Vietnã

Com a CIA no Laos.Avião C-123 da Air America em Long Tieng, onde ficava o QG no Laos de Vang Pao, que chefiava para a CIA as forças irregulares dos Meo contra o Pathet Lao.

 

Histórias oficiais do envolvimento da Força Aérea dos EUA (USAF) na guerra do Vietnã, até agora mantidas em sigilo, foram divulgadas esta semana pela entidade Arquivo de Segurança Nacional (NSArchive), que para tanto teve de sustentar longa batalha na Justiça com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA). Os documentos, com análises do especialista John Prados, podem ser lidos AQUI, no website da organização.

De acordo com os relatos oficiais finalmente levados ao conhecimento público, tornam-se conhecidos, 47 anos depois, o papel oculto desempenhado pela CIA, central de inteligência dos EUA, no Laos; as missões de ataque aéreo da própria agência de espionagem; novas provas sobre armas nucleares; e disputas internas sobre os programas da Força Aérea durante os anos da guerra do Vietnã.

É revelado, pela primeira vez, que empregados contratados da CIA tinham uma participação direta em combates e ataques aéreos, voando com aparelhos do governo do Laos para cumprir missões de destruição. Revela-se, também pela primeira vez, que a Força Aérea considerou ativamente a hipótese de usar armas nucleares durante a crise de 1959 no Laos.

Opções nucleares da USAF

Os documentos mais recentes, liberados há pouco, constam de volume da série de história oficial denominada “A Força Aérea no Sudeste da Ásia”. Foi preparado por historiadores da USAF, Victor B. Anthony e Richard R. Sexton. Escrito em 1993 e editado com extensos cortes em 2006, The War in Southern Laos, 1954-1973, de 400 páginas, só agora poderá lido pelo público – graças ao NSArchive, que exigia a liberação total desde 1990.

Também foi levantado o sigilo em torno de estudos históricos da USAF sobre anos específicos da guerra do Vietnã. Documenta-se detalhadamente o papel da Força Aérea no planejamento e implementação da guerra aérea no norte e no sul do Vietnã. Entre as revelações significativas estão estas:

1. O interesse da Força Aérea nas opções nucleares durante pelo menos dois momentos críticos no conflito do Sudeste Asiático: Laos em 1959 e em 1968, durante a batalha de Khe Sanh;

2. Os compromissos operacionais da CIA para a invasão da Baía dos Porcos (em Cuba, 1961) reduziram a capacidade da agência de espionagem de executar a política do governo Kennedy no Laos;

3. Com a Air America, companhia aérea de sua propriedade, a CIA conduzia missões de busca e resgate no Laos, além de realizar operações de combate;

4. O próprio embaixador americano no Laos serviu nesse país como comandante de campo da chamada “guerra secreta”, uma atuação largamente não documentada.

Mais de 500 páginas liberadas

O sucesso do NSArchive – organização que tem sua sede na Biblioteca Gelman da Universidade George Washington, na capital americana – se deve em parte ao apoio da firma de advogados James & Hoffman. O processo foi iniciado em março de 2005 pelo NSArchive, que fazia auditagem com base na FOIA e esbarrava no sistemático esforço da Força Aérea para impedir qualquer progresso.

Pedidos deixavam de ser atendidos, registros eram destruídos, desencorajavam-se novas solicitações e adotavam-se táticas protelatórias. Diante disso, a James & Hoffman foi bem sucedida ao recorrer à juíza federal Rosemary Collyer, que em 2006 atendeu em parte à reivindicação do NSArchive e concluiu que a Força Aérea “de fato falhava miseravelmente no exame oportuno dos pedidos do NSArchive”.

O tribunal mandou a Força Aérea dar solução, da forma mais rápida possível, aos pedidos feitos – alguns dos quais pendentes há mais de 18 anos. As solicitações relativas à história do Laos e aos estudos da guerra do Vietnã tinham sido apresentadas originalmente em 1988 e 1990. A decisão judicial finalmente obrigou a Força Aérea a atendê-los, liberando mais de 500 páginas das histórias até então secretas.

O risco das bombas atômicas

O livro The war in northern Laos mostra como os chefes do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas criaram em 1959, quase dois anos antes do que se pensava, um plano para a intervenção militar no Laos. Era parte da ação relacionada à primeira crise no país, naquele ano – quando os comunistas do Pathet Lao deixaram de se integrar às Forças Armadas Reais do Laos

Revela-se ainda que, em operação sob o codinome “Erawan”, as Forças Especiais dos EUA começaram em 1959 a treinar soldados laocianos em técnicas de guerra não convencional. E a Força Aérea pressionou no sentido de ser deslocado para a Base Aérea Clark, nas Filipinas, um esquadrão de bombardeiros B-47. Era para possível uso de mísseis contra as linhas de comunicação rumo ao Vietnã do Norte.

O uso de armas nucleares já tinha sido de tal forma incorporado à doutrina da Força Aérea e ao treinamento de seu pessoal militar que tanto o plano de contingência como o deslocamento indicavam a possibilidade de uso das superbombas. E pode ter sido essa a razão – ou uma das razões – para o governo do então presidente Dwight Eisenhower rejeitar a utilização da superarma.

Anúncios
Published in: on abril 11, 2008 at 12:34 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/04/11/mais-segredos-da-espionagem-na-guerra-do-vietna/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: