Cheney dá Pulitzer ao “Washington Post”

Escrevi isso antes, mas volto a repetir por motivo especial. Pode ser que me engane mas dificilmente haja no mundo atual, onde os EUA denunciam ditaduras em Cuba, Irã, Venezuela, etc, alguma vocação de ditador capaz de superar a do vice Dick Cheney. Fora de controle e dado a desatinos, ele já foi chefão do Pentágono – subordinado a outro Bush, o pai, que teve o mérito de perceber a tempo seus excessos e o enquadrou.

Foi em 1992. Cheney encomendara a seus bagrinhos – entre os quais, alguns dos neoconservadores conspícuos que se destacariam mais tarde pela obsessão de fabricar a invasão e ocupação do Iraque, como Paul Wolfowitz, Richard Perle, Lewis Libby, Douglas Feith, etc – o documento interno do Pentágono (Orientação de Política de Defesa, DPG) contendo uma doutrina unipolar para substituir a da guerra fria.

Era a proclamação formal de que os EUA não mais admitiriam conviver com potência rival, ainda que algum aliado tradicional. Seriam donos do mundo sozinhos, ignorando solenemente o sistema multilateral que ajudaram a criar. Tanto escândalo causou o tal DPG, dentro e fora dos EUA, que o velho Bush, com o respaldo de seu secretário de Estado James Brady, mandou Cheney virar aquele documento pelo avesso.

Além da lei e do bom senso

A vocação totalitária de Cheney nunca se deu por vencida. Com sua patota neoconservadora, ele manteve vivo o projeto de dominação mundial enquanto esteve fora do governo, entre 1993 (depois da derrota do velho Bush para Bill Clinton) e 2001, quando o segundo Bush, filhote despreparado e empresário fracassado, passou a ocupar a Casa Branca graças à fraude eleitoral da Flórida.

Toda essa trajetória tem sido objeto de discussões frequentes neste espaço. Volto a ela porque o Washington Post destacou-se como principal ganhador dos prêmios Pulitzer deste ano (veja a notícia do próprio POST sobre a conquista). Foi, entre outras coisas, pela série de quatro reportagens, de Barton Gellman e Jo Becker, sobre “a vice-presidência Dick Cheney” (o título da série, como pode ser visto AQUI, foi “Angler”). A série tinha sido publicada no momento especial de uma proeza recente de Cheney.

Naquele momento, junho do ano passado, ele estava determinado até a sustentar batalha judicial, se necessário, para impor a tese estapafúrdia de que, com um pé no Executivo (como vice) e outro no Legislativo (por presidir o Congresso), não ficava sujeito às regras que governam um e outro poder. Na prática estaria numa condição superior à do próprio presidente (chefe dele), obrigado a dar satisfações ao Congresso.

Por exemplo, Bush tem de dar as informações eventualmente reclamadas pelo Legislativo. Mas o advogado de Cheney sustentou que “a vice-presidência é cargo único, não é parte do Executivo e nem do Legislativo; assim, não precisa obedecer às regras que governam os dois”.

Sigilo para ocultar fraudes?

O Congresso e os meios de comunicação do país já tinham plena consciência de que Cheney tornara seu gabinete o último bastião do sigilo absoluto. Ele faz o que bem entende no governo, mete-se em qualquer questão e não admite sequer ter que dar alguma explicação sobre o que faz. Foi o caso conspículo da comissão instalada por ele, ainda no início de 2001, para formular a política de energia do governo.

Era sabido que corporações apadrinhadas – em especial a notória Halliburton, que Cheney presidia até assumir a vice-presidência, e a Enron, maior patrocinadora da carreira política de George W. Bush – ditavam rumos ao governo na área. Mas Cheney considerou segredo de estado as reuniões que fez na comissão, mesmo depois das fraudes e falência da Enron e dos superfaturamentos da Halliburton, com grave prejuízo ao contribuinte.

Para impedir o acesso dos americanos às informações sobre o tema, inclusive aos temas tratados nas conversas, Cheney recorreu até ao mais alto tribunal do país. Sabia que depois da decisão que oficializou a falsificação eleitoral na Flórida a Suprema Corte não se dava mais ao respeito. De fato, ela cometeu a temeridade de manter o sigilo sobre a política de energia – um salto ainda maior para o vice.

Rotina vira segredo de estado

Cheney levou a Bush quatro páginas escritas por seu advogado (claro, há advogado para sustentar qualquer coisa). De segredo em segredo, ele esconde do país o que faz. Só age secretamente. Daí a importância da série do Washington Post naquele momento. Foi como se a mídia começasse a acordar: a reportagem inicial da série deu a Cheney quase toda a primeira página de um domingo.

Afirmou ser ele o mais influente e poderoso a ocupar o cargo na história. Mais que isso: nenhum presidente até hoje teve tal obsessão pelo sigilo, para ocultar os fatos do país. Não era por acaso. No livro O Império Contra-Ataca (editora Paz e Terra, 2004) lembrei como os idéologos neocons defendiam até o direito deles de mentir ao povo. Não só ao povo: ao próprio presidente.

No obsessão de Cheney pelo segredo, o Post destacou ainda: 1. ele se negava a dizer os nomes ou o tamanho de sua equipe; 2. escondia a agenda e mandava o Serviço Secreto destruir sua lista de visitantes; 3. até temas sobre os quais fala a jornalistas têm o carimbo “ultra-secreto”; 4. cofres especiais usados em outros gabinetes para guardar documentos secretíssimos, no dele serve para ocultar até os papéis de rotina.

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Published in: on abril 9, 2008 at 3:52 pm  Comments (1)  

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