Hillary, a direita e o “lobby” da Colômbia

Não foi exatamente uma renúncia, como a campanha de Hillary Clinton está sugerindo. O estrategista principal da campanha, Mark Penn, foi forçado a sair, segundo o New York Times, porque dividia o tempo entre a candidatura de Hillary e um lobby a favor do tratado de livre comércio com a Colômbia de Álvaro Uribe, que o governo Bush pressiona o Congresso (controlado pela oposição democrata) a aprovar. 

Penn traía não só a campanha de Hillary mas também o Partido Democrata. O interesse dele na aprovação do tratado, ao qual a senadora faz oposição, é pelo fato de ser presidente de uma firma de relações públicas contratada pela Colômbia para ganhar votos democratas no Congresso. Foi nesse papel que se reuniu com autoridades colombianas, deixando Hillary enfurecida e com cara de tacho.

Ações assim, de profissionais do lobby que paralelamente trabalham para campanhas, são cada vez mais frequentes – e às vezes causam escândalo. Durante a campanha do próprio Bush, em 2000, o New York Times descobriu que o lobista Ralph Reed, então alto consultor do candidato republicano, fora contratado pela Microsoft para amolecer o processo antitruste do governo contra a gigante de software. (Leia a revelação feita, na época, pelo TIMES).

O lobista dos mercenários

Ralph Reed tinha sido então secretário executivo da Coalizão Cristã do reverendo Pat Robertson, que chegou a ter grande controle sobre o Partido Republicano. Na campanha de Bush ele era frequentemente escalado para falar em nome do candidato. Mas o escândalo da Microsoft provocou o afastamento de Reed da campanha, devido ao claro conflito de interesses.

O caso de Penn é parecido, já que a posição da senadora Hillary é contrária à da firma de relações públicas dele. A firma trabalhava para promover o tratado com a Colômbia, que Bush tenta impingir à maioria democrata do Congresso. Mas a candidata condenara publicamente a iniciativa do governo Bush, obstinado em patrocinar o afilhado Álvaro Uribe (as contradições são explicadas AQUI, no texto do jornal).

Como destacou o New York Times, Mark Penn assessorava o casal Clinton desde 1996. Não foi essa a primeira vez que seus interesses de negócios entraram em choque com as posições dos Clinton. Executivo-chefe da Burson-Marsteller, ele faz relações públicas no âmbito global. Também é sua cliente a Blackwater Worldwide, fornecedora de mercenários e acusada pela morte de numerosos civis no Iraque (saiba mais sobre o maior exército mercenário do mundo no site BLACKWATERWATCH, que o monitora).

O papel duvidoso de Penn

A queda de Penn, que em princípio continuará a fazer biscates para a candidata (na área de pesquisas eleitorais), é mais um golpe para a campanha de Hillary (leia também ESTE TEXTO do Times). Antes já tinha havido uma substituição na cúpula da campanha, que ainda enfrentou grave falta de dinheiro enquanto o adversário Barack Obama batia recordes de arrecadação de contribuições, em especial pela internet.

A nova crise ocorre em momento difícil, a duas semanas das primárias (dia 22) da Pensilvânia. Se Hillary não ganhar essa disputa com boa vantagem será incapaz de sensibilizar superdelegados e manter vivo o esforço pela indicação partidária. O eleitorado de trabalhadores brancos da Pensilvânia, no qual ela aposta, é contrário ao acordo de livre comércio com a Colômbia (teme a perda de empregos de americanos).

Para o Washington Post, a decisão de Penn de continuar na sua firma de relações públicas ao mesmo tempo em que trabalhava na campanha deixou intrigado o resto da equipe de Hillary. A suspeita é de que ele está sendo afastado agora apenas para aplacar os grupos trabalhistas mais enfurecidos, que há meses denunciavam aquele perigoso jogo duplo.

Experiente e sem escrúpulos

No seu livro de memórias, Hillary refere-se com ênfase à “lealdade” de Penn – contratado depois do segundo mandato de Bill Clinton para assessorá-la em Nova York, na campanha para o Senado. Antes ele teve papel destacado em campanhas conspícuas do estado – como as de Ed Koch e David Dinkins para a prefeitura. Também fizera campanhas fora do país – como a de Menahen Begin em Israel em 1981.

Segundo o Times, Hillary parou de falar aos jornalistas desde que saiu a notícia sobre a reunião de Penn com as autoridades da Colômbia. No passado, Penn exerceu influência vigorosa para o casal Clinton insistir, a partir de 1992, em empurrar o Partido Democrata para a direita – o que acabou por afastá-lo cada vez mais dos sindicatos, antes a grande força dos democratas.

A guinada para a direita ainda é motivo de controvérsia – e pode estar sendo detida pelo surgimento de Obama, por sua vez hostilizado por grupos judeus que o vêem com desconfiança. Penn, ao contrário, corteja o eleitorado judaico e até assessorou o senador Joe Lieberman – que ganhou um beijo de Bush pelo apoio à guerra do Iraque e em 2006 deixou de ser democrata, elegeu-se sem partido e hoje faz campanha para o republicano Joe McCain (veja aqui OS DOIS fazendo campanha juntos em dezembro do ano passado).

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Published in: on abril 8, 2008 at 5:52 pm  Deixe um comentário  

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