Clinton, Bush e o terrorismo

Na sua viagem dos últimos dias, o presidente Bush conclamou em Bucareste os aliados da OTAN a manter a determinação e terminar o que se começou no Afeganistão, fortalecendo o esforço militar contra a al-Qaeda e outras ameaças no mundo. A guerra afegã está no sétimo ano e Bush quer mais tropas além dos 47 mil soldados. “Esperamos que os aliados façam o necessário para o êxito”, disse.

O que ele não disse: seu governo é que prejudicou o esforço no Afeganistão, ao lançar a aventura do Iraque. Há um ano e meio o ex-presidente Bill Clinton acusara também a mídia de apoiar a tentativa bushista de culpar o antecessor pelo 11/9. Na Fox News ele denunciou o apresentador Chris Wallace, cara a cara: “Por que vocês não fazem perguntas a Bush e insistem em agredir o antecessor dele?” (Leia a entrevista no site da FOXNews).

O debate então era sobre Bin Laden e o Afeganistão. Clinton disse: “Nós dois falhamos. Mas eu ao menos tentei. Ordenei ataques, até autorizei o assassinato de Bin Laden. Vocês nunca perguntam a ele o que fez. Ele não tentou nada, apesar de advertido por nós sobre a gravidade do problema”. Era verdade: foi no governo Clinton que Bin Laden virou celebridade nos EUA, ao atacar as embaixadas dos EUA no Quênia e Tanzânia”.

A pior de todas as ameaças

Uns dois meses antes do 11/9 escrevi nesta coluna que o nome de Bin Laden era o alvo maior (citado nos jornais e na TV) do esforço antiterrorista do governo Clinton no mundo. O então embaixador dos EUA no Paquistão, William Milam, até fizera advertência dura aos talibãs de que seriam responsabilizados “por qualquer ataque, em qualquer parte, aos interesses americanos”.

Milam tivera então, no Paquistão, conversa de uma hora na embaixada local do regime talibã (no poder no Afeganistão mas não reconhecido por Washington). A informação fora dada à imprensa pelo próprio embaixador afegão, Mullah Abdul Salam Zaeef. Ele garantira ainda ao diplomata dos EUA que os talibãs não permitiam a Bin Laden usar território afegão para atacar alvos americanos.

Antes, o colunista Thomas Friedman, do New York Times, tinha imaginado um memorando de Bin Laden a seus “operadores de campo” considerando grande vitória medidas tomadas pelos EUA (como a retirada de suas forças de três países árabes) depois de ser interceptada conversa em celulares na qual os terroristas discutiam detalhes de atentados que planejavam.

Os EUA ofereciam recompensa de US$ 5 milhões pela captura de Bin Laden – um ilustre desconhecido até três anos antes (em 2005 Friedman iria sugerir, nesta COLUNA, que, ao invés de elevar a recompensa de US$25 milhões para US$ 50 milhões, ela fosse reduzida para um penny). O que o público sabia dele devia-se então a reportagem da rede ABC, veiculada em junho de 1998. Nela o chefe da al-Qaeda, entrevistado pelo jornalista John Miller, abriu o jogo: “Os americanos têm de morrer. E não vamos distinguir militares de civis”.

Vigilância até por satélite

Em seu reduto do Afeganistão, protegido por 3 mil adeptos, armas automáticas, lançadores de foguetes, etc., Bin Laden era vigiado até por satélite. Miller ouviu ainda o assessor de Segurança Nacional de Clinton, Sandy Berger, que explicou porque levava a sério a ameaça: “Ele hoje é o mais perigoso terrorista do mundo”. Mas Bush chegou à Casa Branca, Berger passou o cargo a Condoleezza Rice e não se falou mais no assunto.

Em junho de 2001 a mídia voltou a ocupar-se dele por causa do debate na ONU das sanções que se tentava impor aos talibãs para forçar a entrega de um militante extremista. E em tribunais dos EUA terroristas em julgamento foram acusados por atentados como os da África, contra alvos americanos, alguns não concretizados – como os da passagem do século nos EUA.

Seriam de Bin Laden, como outras ações anteriores – inclusive a morte de soldados americanos na Somália em 1993. As imagens na TV de soldados dos EUA arrastados pelas ruas de Mogadíscio tinham chocado o país, levando agentes a arquivos de computador de terroristas, ligando o caso a Bin Laden. Em tribunais de Nova York, um saudita, um tanzaniano, um jordaniano e um americano do Líbano eram acusados de fazer operações para Bin Laden. Com Clinton a CIA e o FBI agiam; com Bush, não.

O erro da turma de Bush

O ataque em outubro de 2000, no Iêmen, ao USS Cole, da Marinha americana (17 mortos, 39 feridos), fora atribuído à al-Qaeda – e em razão disso ações repressivas continuavam, inclusive a prisão em junho de 2001 de uma dezena e meia de militantes islâmicos extremistas. Surgiu ainda ali a suspeita de que existia um plano em andamento para atacar a embaixada americana.

Havia trechos eloqüentes na coluna de Friedman no Times – comunicações entre Bin Laden a seus adeptos. O colunista espantava-se com a disposição de Bush de gastar US$ 100 bilhões no escudo espacial antimísseis contra ameaça que não existia; e, ao mesmo tempo, ignorar a ameaça real, pois era óbvio que terroristas não atacariam com mísseis intercontinentais que trazem endereço do remetente.

Friedman imaginou o raciocínio do líder terrorista: “Não vou usar cartaz com a palavra BURRO. Vamos atingi-los da forma como os iranianos explodiram a base saudita de Khobar. Camadas de operadores locais sem enderço de nenhum país.” 14 foram acusados nos tribunais americanos por aquele atentado. 

A suposição foi de que iranianos o coordenaram, mas não havia prova capaz de justificar represália. Tudo isso foi a dois meses do 11/9. Friedman avisou. Na época achei grave e comentei aqui. Mas o governo Bush nada viu, nada disse; e depois culpou Clinton.

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Published in: on abril 8, 2008 at 5:22 pm  Deixe um comentário  

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