Outro raio-X das mentiras de Bush

Semanas antes de ser lançado, no final de 2005, o livro do jornalista James Risen, do New York Times, sobre a história secreta da CIA no governo Bush, o jornal decidiu publicar a informação que ocultara deliberadamente dos leitores por mais de um ano sobre a espionagem doméstica ordenada pelo presidente em 2002, sem respaldo judicial. Não foi coincidência: o Times agira assim na esperança de reduzir o próprio constrangimento.

Como era esperado, o livro acrescentou mais dados relevantes sobre a questão da espionagem interna (veja mais informações sobre o livro AQUI). Mas só uma coisa deixaria um jornalista mais irritado do que ver o próprio jornal sujeitar-se à vontade imperial do governo (qualquer um, quanto mais o de Bush) e esquecer seu dever de informar. E essa coisa é o jornal publicar às carreiras a informação censurada antes para evitar a vergonha de ser “furado” pelo livro de seu repórter.

Quando isso aconteceu, o editor do jornal, Bill Keller, fez uma observação infeliz na tentativa de explicar o inexplicável. Alegou – ampliando ainda mais o constrangimento para o Times e o próprio jornalismo americano – que não se arrependera de ter censurado a notícia antes (para atender ao pedido-intimidação de Bush) e nem se arrependera de tê-la finalmente publicado, com mais de um ano de atraso.

A fantasia delirante dos chefões…

O título do livro, no original inglês, foi State of War – The Secret History of the CIA and the Bush Administration (Estado de guerra: a história secreta da CIA e do governo Bush), indicando a intenção de expor toda a lambança dos atuais detentores do poder na área da espionagem, dentro e fora do país. E uma das revelações foi sobre a inexistência das ADM (armas de destruição em massa).

Ao ilustrar o esforço desatinado da CIA para ignorar a realidade da inexistência de ADM no Iraque, Risen descreveu as operações secretas da “guerra ao terrorismo” de Bush – guerra fantasiosa, como se sabe. E nesse ponto conta que nada menos de 30 cidadãos americanos com parentes no Iraque foram usados na ânsia de obter provas de que as armas proibidas existiam.

Uma dessas pessoas foi a anestesiologista Sawson Alhaddad, cujo irmão, então residente em Bagdá, trabalhara no programa nuclear do Iraque. A CIA fez a dra. Alhaddad sair de casa, em Cleveland, Ohio, e empreender arriscada viagem ao Iraque. Ali, o irmão dela manifestou perplexidade com as perguntas e procurou explicar que o programa nuclear estava morto e enterrado há mais de 10 anos (exatamente aquilo que seria constatado depois da invasão americana pela própria CIA).

… e as respostas que não vieram

De volta aos EUA em meados de setembro de 2002, a dra. Alhaddad submeteu-se a maratona de reuniões com analistas da CIA, transmitindo as informações ouvidas do irmão. Obviamente, descontentou o pessoal da espionagem, que só queria respostas que confirmassem as supostas certezas de chefões como o vice Dick Cheney, insistente da convicção burra da existência de armas inexistentes.

Tal procedimento irracional e obsessivo, que só aceita como corretas aquelas informações que se quer ouvir, era definido então com uma palavra divertida – “cherrypicking” (a escolha das cerejas que agradam). Ou seja, se a informação não confirma as teses oficiais, pior para a informação. A invasão do Iraque já tinha sido decidida, o fundamental então era achar o pretexto capaz de justificá-la.

A dra. Alhaddad teve de ouvir, calada, um bobalhão subserviente da CIA dizer a ela que seu irmão estava mentindo. Como Bush, Cheney, Rumsfeld & cia. já tinham decidido atacar o Iraque, cabia à espionagem provar a existência de ADM. E o que a anestesiologista dizia coincidiu com o que souberam os outros 30 que a CIA também mandou ao Iraque conversar com parentes cientistas.

Mais os grampos da espionagem

Todos trouxeram a informação de que os programas de armas tinham sido abandonados, mas a dupla Bush-Cheney preferia a fantasia à realidade. E já em outubro de 2002, conforme o relato de Risen no livro, a comunidade de espionagem emitia sua avaliação (NIE, National Intelligence Estimate) concluindo que o Iraque estava reconstituindo seu programa nuclear.

Foi nesse clima de histeria que a secretíssima Agência de Segurança Nacional (NSA) lançou em 2002 o programa da espionagem interna, pois a captura em vários países de figuras da alta hierarquia da al-Qaeda (em março de 2003 seria preso Khalid Sheikh Mohammed) permitira o acesso de agentes americanos a seus computadores, celulares e livros de endereços com nomes de residentes nos EUA.

Segundo Risen, a NSA grampeava os telefones de quem quisesse. Celulares e emails ficaram igualmente sujeitos a interceptação, sem necessidade de ordem judicial. Havia o tribunal secreto criado para isso e que atendia praticamente a todos os pedidos recebidos, nunca sequer retardando a autorização solicitada. Mas Bush já estava no embalo de sua guerra – inclusive contra os próprios cidadãos americanos.

 

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Published in: on abril 4, 2008 at 12:39 pm  Comments (1)  

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  1. Acho que existe outro ponto importante nessa investigação, mais do que o respaldo para a invasão, que é a própria certeza de que não há armas de destruição em massa.

    Pretexto por pretexto, usa-se o do regime ditatorial ou do combate ao terrorismo, mas, na hora de invadir um país, são de grande serventia as informações atestam não haver lá armamento pesado de guerra ou programa nuclear ativo.


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