A volta da opção Al Gore

A novidade do debate eleitoral americano envelheceu em sete dias. Lançada quarta-feira da semana passada no website da revista Time, não trouxe o efeito que seu autor, Joe Klein, talvez estivesse esperando (leia AQUI o artigo dele). Em 1992 o jornalista Klein viveu os bastidores da primeira eleição de Bill Clinton e depois contou a história no livro Primary colors, sob o pseudônimo “Anonymous”.

O que ele traz agora é a fórmula insólita de uma espécie de saída para o impasse no Partido Democrata entre os candidatos Barack Obama e Hillary Clinton. Consistiria em convencer uns 100 superdelegados (talvez até menos) a negar o voto no primeiro escrutínio da convenção a Obama e Hillary. Sem os votos deles não haveria vencedor. E seria articulado para o novo escrutínio, como um “tertius” salvador, o ex-vice-presidente Al Gore.

Na aritmética, acha Klein, daria certo. Pelo andar da carruagem, nem Obama e nem Hillary chegariam ao número mágico – 2.025 – de que precisam para garantir a indicação partidária. O jornalista publicou o artigo, com a hipótese, depois de ter conversado com muita gente. Mas há um detalhe: como o alijamento de Obama poderia gerar boicote do eleitorado negro em novembro, o nome dele entraria como o vice na chapa.

Os furos da fórmula mágica

Ainda que a proposta de Klein possa parecer engenhosa, no contexto da guerra atual entre os dois candidatos, o grande obstáculo dificilmente seria removido. O nome desse obstáculo, claro, é Hillary Clinton. Se hoje Obama está à frente em votos populares, em delegados e ainda tem o dobro dos estados e Hillary não abre mão de continuar até a convenção, porque deixaria de contestar a opção Gore, abrindo uma cisão perigosa?

Pelo que se sabe, as relações entre os Clinton e os Gore azederam logo depois do processo de impeachment em 1998. O candidato Gore fez questão de dispensar a presença dos Clinton na campanha de 2000, certo de que só serviria para lembrar o escândalo Lewinsky – e o derrotaria. E para mostrar que era “diferente”, ainda encenou na convenção o beijo na mulher Tipper – o mais longo da história eleitoral do país.

Além disso, se Obama seria compensado com a vice na chapa de Gore – o que, de acordo com a fórmula, permitiria garantir a ida do eleitorado negro às urnas – qual seria o prêmio para acomodar a ex-primeira dama? Outro detalhe é que Al Gore optou voluntariamente por não disputar com os dois nas primárias, talvez por reconhecer que realmente não é bom de campanha.

“Extremamente improvável”

Klein alegou ainda ter ouvido de um “proeminente arrecador de contribuições de campanha” que “Gore-Obama é a chapa que muita gente queria há muito tempo”. Disse também que expôs o cenário recentemente a uma dúzia de democratas, de vários setores do partido, inclusive partidários das campanhas tanto de Obama como de Hillary.

A maioria respondeu que, mesmo achando a idéia extremamente improvável, era “muito interessante”. Um parlamentar, segundo ele, mostrou-se entusiasmado. “Pode ser uma saída para essa lambança”, teria dito. Mas um amigo de Gore, mais realista, lembrou que o ex-vice conhece suas próprias limitações como candidato: “Não sei se estaria interessado, ainda que fosse dado de presente a ele”.

Para Klein, a razão maior pela qual os superdelegados até agora não se uniram para entrar em cena e por fim à guerra, declarando o apoio a Obama, é que o partido está coletivamente prendendo a respiração, em suspense, à espera do desempenho dele nas últimas primárias importantes – as da Pensilvânia (dia 22), Carolina do Norte e Indiana (ambas no dia 6 de maio), os três maiores estados que restam.

A mesma história de sempre

Na Pensilvânia as pesquisas davam grande vantagem a Hillary, mas os dados da última terça-feira mostraram que Obama reduziu consideravelmente a diferença. Essa tem sido a história, desde o início, nos poucos estados em que a ex-primeira dama vence – até Nova York, que deu extraordinária votação ao rival dela. Hillary salta na frente mas depois passa a perder terreno sistematicamente.

A performance irregular é que tem impedido Hillary de reduzir a vantagem do adversário em número de delegados. O Texas, por exemplo, é o segundo maior colégio eleitoral do país, com um sistema híbrido (mistura primárias e “caucuses”). Ali ela esperava grande vitória. Ao fim das primárias festejou ruidosamente, esquecendo os “caucuses”. E na soma dos dois, a vitória foi de Obama, que ganhou mais delegados.

Os democratas têm plena consciência de que o quadro este ano não podia ser mais favorável ao seu partido. A popularidade de Bush está no fundo do poço, a economia dificilmente melhora antes de novembro, os desdobramentos da guerra continuam desgastantes e o candidato John McCain tem pouco a apresentar ao eleitorado. Só a guerra interna pode derrotar o Partido Democrata.

 

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Published in: on abril 3, 2008 at 2:18 pm  Deixe um comentário  

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