O Brasil não é capitão-do-mato

lat_corte_070325.jpgEsta foi a primeira página do Los Angeles Times no dia 25 de março de 2007. A manchete referia-se à descoberta da CIA de que o comandante do Exército da Colômbia, general Mario Montoya, que tinha antiga e íntima ligação com o presidente Álvaro Uribe, colaborava extensamente com milícia ilegal de extrema-direita considerada terrorista pelos EUA e chefiada por um notório traficante de drogas.

Por que deveria o Brasil – ou Equador, Venezuela, Argentina, Peru e Bolívia – submeter-se ao desejo de Uribe, cujo regime é acusado de contumaz violador dos direitos humanos, ou de seu padrinho George W. Bush, e sair à caça de guerrilheiros colombianos? Pois é isso o que agora o jornal O Globo lamenta não ter sido feito por nós, brasileiros. Ou pelos equatorianos, peruanos, venezuelanos e bolivianos.

No início de março o vexame do jornal dos irmãos Marinho fora ainda maior, com a tentativa irresponsável de lançar o Brasil contra a Venezuela, cujo pecado fora solidarizar-se com o Equador em seguida à agressão do filhote do bushismo, que violara sua fronteira para atacar guerrilheiros do outro lado. E agora, o que quer O Globo? Que o Brasil seja capitão-do-mato para Uribe e Bush?

A reportagem anônima que o jornal carioca requentou do uribista El Tiempo choraminga num título provocador em toda a extensão da página 21: “Alertas anti-Farc são ignorados”. E mais: “Os alertas, feitos também a outros cinco países, teriam se iniciado em 2004”. E daí, O Globo? A missão de nossos militares não é caçar opositores da dupla Uribe-Bush como se fossem escravos fugidos (veja AQUI, no Washington Post de 30 de março de 2008, como lavradores pobres são mortos e depois rotulados de “guerrilheiros”). Esse tempo já passou.

Ele quer guerra, nós não

Lula devia, de novo, irritar os uribistas de nossa mídia com mais um desabafo: “Bush, meu filho, procure seus terroristas onde sempre estiveram: naquela mesma caverna do Afeganistão, rindo de você, que gasta US$ 3 trilhões e mata 1,2 milhão de civis no Iraque, onde não havia al-Qaeda antes de você chegar. E mande seu afilhado Uribe parar de provocar os vizinhos. Ele quer guerra. Nós não”.

Bush orgulha-se de ter sido mau aluno. Só lê biografia de jogador de baseball. Mas devia saber o que é capitão-do-mato: o problema da caça aos negros fugidos foi a maior dor de cabeça no debate da Constituição de 1787 na Filadélfia. Os escravocratas só se renderam ao impingir, a pretexto de direitos dos estados, o artigo vergonhoso que obrigava estados sem escravos a entregar negros fugidos.

Assim, é bom que a mídia golpista seja informada de que Brasil, Venezuela, Equador, Argentina, Peru e Bolívia não vão caçar guerrilheiros para Uribe e Bush. A dupla que resolva seus problemas. Até o Egito, segundo maior contemplado com a ajuda exterior dos EUA (o primeiro é Israel, o terceiro é a Colômbia de Uribe) faz corpo mole quando Bush o quer no papel de capitão-do-mato.

A promiscuidade Bush-Uribe

Pelo que se sabe (embora eu tenha minhas dúvidas sobre a Colômbia) nem um só país da América Latina admitiu ser usado como rota nos infames vôos da CIA de Bush para levar suspeitos de terrorismo de um lado para outro, a fim de serem torturados. Mas o continente nada fez até hoje para obrigar Bush a fechar a central de tortura que instalou em território cubano sob indecente ocupação militar dos EUA.

Da mesma forma como repudiamos o fluxo entre nós da carga macabra de vítimas do sistema bushista de tortura (o “extraordinary rendition” e outras invenções torpes), sem precedentes no mundo, não podemos tolerar perseguição em nosso território daqueles que fogem do regime uribista. E nem vamos caçá-los para servir a países que, mesmo sem o reconhecer, violam os direitos humanos. Isso seria repetir a facinorosa Operação Condor.

Claro que a critério de autoridades brasileiras, civis e militares, a movimentação de guerrilheiros de fora, quando existir, pode e deve ser acompanhada e reprimida – mas não para atender a regimes de conduta suspeita, cujo sonho é virar Israel. Como o da Colômbia, onde proliferam não só rebeldes esquerdistas, mas também grupos organizados de narcotraficantes e milícias paramilitares ligados às próprias autoridades do país.

Os antecedentes pavorosos

A reportagem de O Globo, extraída do uribista El Tiempo, é baseada em fontes do próprio governo de Bogotá. O mínimo que Brasil e outros países devem fazer é levar em conta os antecedentes do regime de Uribe, que deu as informações. Há uns 15 dias citei aqui duras críticas de organizações de direitos humanos à Colômbia. Não uma, mas um total de 187 organizações.

Na edição online do Washington Post, como obervei, o analista David Sirota, do “Blog for Our Future”, recordou que a Colômbia tem “pavorosa folha de antecedentes em matéria de direitos humanos. Executam-se nesse país mais organizadores sindicais do que a soma de todo o resto do mundo. Seu presidente (Álvaro Uribe) está ligado aos próprios líderes das gangs paramilitares que executam sindicalistas”.

Em 2007 uma reportagem da Associated Press no Post observou que em cinco anos na presidência Uribe já teve de vir a público várias vezes para tentar negar acusações sobre a intimidade promíscua com paramilitares. A ligação do comandante do Exército com o traficante que chefia milícia assassina foi até manchete do Los Angeles Times (ver a foto do alto). Sindicalistas estão entre as milhares de vítimas de tais milícias. Então, que diabo, por que a súbita paixão de nossa mídia por Uribe.

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Published in: on abril 1, 2008 at 2:57 pm  Deixe um comentário  

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