Repúdio unânime na OEA à trama de Bush

Foi contundente a derrota dos EUA na Organização dos Estados Americanos – comparável à da crise das Malvinas, quando a delegação americana ficou isolada contra o resto do continente. Desta vez só restou ao governo Bush, isolado, engolir a resolução rejeitando a Colômbia (pela invasão do Equador). Contraditoriamente, ao votar a favor da resolução os EUA (sem qualquer respaldo) disseram discordar do ponto central, por achar que a Colômbia agiu “em legítima defesa”.

Em sua análise, a agência Bloomberg citou Susan Purcell, diretora do Centro para a Política Hemisférica da Universidade de Miami. Ela expôs o desapontamento dos EUA com o resultado da reunião – uma vitória política do presidente da Venezuela, segundo afirmou, porque a resolução concentrou-se na Colômbia e ignorou a alegação do regime de Bogotá sobre suposto apoio de Hugo Chávez às FARC.

Para Purcell, a resolução da OEA limitou-se a dizer que o acampamento guerrilheiro no Equador “parecia” ser instalação permanente. Mas a organização regional, tantas vezes manipulada por Washington no passado recente, agora “deixou basicamente a Colômbia como única culpada” no episódio. E prevaleceu a imagem de Álvaro Uribe, presidente colombiano, como mero títere do governo Bush.

Nada de Israel no continente

Havia um texto de resolução ainda mais duro contra a Colômbia – e já com o apoio de 12 países da OEA. Os EUA recorreram ao México para buscar amenizá-lo. Assim, em nome do consenso tirou-se a palavra “condenação”, mas ficou suficientemente explícita a rejeição à arrogância militar colombiana ao invadir o país vizinho – o que em parte frusta o plano bushista de manter Uribe como seu Ariel Sharon sul-americano.

Para marcar posição os EUA, ao mesmo tempo em que aprovavam o documento, disseram (certamente por terem induzido Uribe à loucura da violação da fronteira) não aceitar o artigo sobre a agressão da Colômbia. Esta, por sua vez, jurou não mais invadir seus vizinhos. Comprometeram-se ao mesmo tempo os países-membros da OEA ao óbvio: continuar o esforço que já faziam contra ameaças à segurança por “grupos irregulares”, em especial narcotraficantes.

De novo a política externa do Itamaraty – que horroriza a grande mídia brasileira dedicada ao esforço permanente contra o governo Lula – desempenhou com eficácia e bom senso o seu papel de liderança. E impediu que se concretizasse a obsessão bushista de impor, também do lado de cá do mundo, a doutrina israelense-americana do “ataque preventivo”, desafio ao direito internacional e à soberania de países sem poderio bélico.

A dura resposta de Amorim

O trabalho desenvolvido pelo ministro do Exterior Celso Amorim repetiu o que ele próprio fizera com sucesso na conferência da OEA (maio de 2005) em Fort Lauderdale – quando desarticulou num par de horas, com apoio do continente, a trama bushista que criaria mecanismo intrusivo para a organização regional meter-se na política interna dos países, a pretexto de “monitorar” as democracias.

Na ocasião, o ardil fora conduzido por Roger Noriega (depois defenestrado do Departamento de Estado). Acabou desmontado por Amorim antes mesmo da chegada da secretária Condoleezza Rice e do presidente Bush. Estes perceberam, no desdobramento, que o melhor a fazer era fingir que nada tinha acontecido. Antes, como agora, o alvo dos EUA era a Venezuela de Hugo Chávez.

Na maquinação desta semana o pretexto, para variar, foi a obsessão de Bush, manipulada desde o 11/9: terrorismo. Mas Amorim mandou seu recado: o Brasil e os demais países da OEA já cooperam no combate ao terrorismo e a outras ações criminosas. E ninguém pretende fazer o jogo bushista, transformando em guerra santa a luta antiterrorista e liquidando todos os princípios do direito internacional.

Na reunião encerrada na manhã de ontem, outras autoridades dos EUA tentaram sem sucesso dobrar os países da OEA, zelosos na defesa de suas fronteiras e soberania. Entre elas o sub-secretário John Negroponte, bem conhecido no continente por ter dirigido nos anos 1980 a guerra secreta da CIA contra a Nicarágua sandinista na fronteira de Honduras; e o atual secretário assistente para assuntos interamericanos, Thomas Shannon.

Sessão nostalgia do golpismo

Negroponte, claro, era personagem conspícuo na equipe bushista da “invasão preventiva” do Iraque, onde foi embaixador antes de voltar a Washington para ascender ao posto máximo da espionagem – Diretor Nacional de Inteligência. Shannon, que estivera antes (não como embaixador) no Brasil e na Guatemala, serve ao governo Bush desde 2001 como “especialista em América Latina”.

Até 2003 ele trabalhou no Departamento de Estado (diretor de assuntos andinos) e depois na Casa Branca (diretor de assuntos hemisféricos no Conselho de Segurança Nacional). Shannon pode ter sido, em 2002, um dos participantes do fracassado golpe da Venezuela, articulado pelo então secretário assistente de Estado para o hemisfério, Otto Reich (cubano de Miami que se reuniu com Pedro Carmona) e Elliott Abrams, ambos atolados antes na lama do escândalo Irã-Contras.

É impressionante a “sessão nostalgia” de golpismo e conspirações dessa gente, cuja obsessão prioritária no continente hoje é usar Uribe para avançar sobre o petróleo da Venezuela e ameaçar o resto da América do Sul. Para tanto, conta com a cumplicidade habitual da grande mídia do continente, sempre pronta a exibir sua devoção aos sucessivos golpes teleguiados pelo império americano em qualquer parte da América Latina.

Published in: on março 19, 2008 at 1:46 pm  Comments (3)  

Como medrou o ovo da serpente

capa_imperio2.jpg   

Entrevista de Argemiro Ferreira a Luiz Egypto. Transcrita do Observatório da Imprensa de 19/10/2004, dias antes do lançamento de O Império Contra-Ataca: as guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de setembro (Editora Paz e Terra, São Paulo, 2004).

 

Argemiro Ferreira é jornalista há mais de 40 anos. Desde 1992 vive nos Estados Unidos, para onde foi cobrir os quatro meses finais da campanha presidencial Clinton vs. Bush e acabou ficando por lá. Adotou, então, um regime de trabalho no qual conseguiu manter correspondência, sem vínculo trabalhista, para múltiplos veículos brasileiros. Hoje, Argemiro é correspondente da Tribuna da Imprensa, da GloboNews, do Jornal de Notícias de Portugal e do serviço em português da Rádio França Internacional. E está lançando o livro O Império contra-ataca, com o subtítulo “as guerras de George W. Bush, antes e depois do 11 de Setembro”.

Seu novo trabalho em livro relata a discussão política havida entre 1992 e 2004, nos EUA, e revela os mecanismos utilizados pelos chamados neoconservadores, aliados aos fundamentalistas religiosos, para tirar partido da histeria patriótica que tomou conta do país depois do 11 de Setembro. Argemiro localiza o ovo da serpente no governo de Bush pai e mostra como os principais protagonistas da nova direita americana finalmente puderam aplicar suas idéias no mandato de Bush filho. E dá-lhe arrogância imperial e guerra interna às liberdades civis.

Esta é a entrevista que o jornalista concedeu, por e-mail, ao Observatório.

* * *

O que o levou a escrever O Império contra-ataca? Para que espera que o livro sirva?

Argemiro Ferreira – Fiquei traumatizado com o 11 de Setembro, mas fiquei igualmente chocado com o clima que o país passou a viver depois do ataque terrorista. Fiz imediatamente o paralelo com o período macartista que tinha sido o tema de meu livro anterior, Caça às bruxas, publicado em 1989. A convite de Silviano Santiago, escrevi, em 2002, para a revista latino-americana Margens/Márgenes, um ensaio aproximando o consenso da guerra fria com aquele novo consenso, do 11 de Setembro. Na mídia, o humorista Bill Maher perdera o emprego na ABC e o apresentador Dan Rather, da CBS – hoje exorcizado pela direita por causa da reportagem sobre o serviço militar de Bush –, disse ao David Letterman que naquele momento era só um patriota. Não lembro as palavras exatas, mas era algo como: “Estou aqui como soldado do presidente Bush. Presidente, ordene e eu cumpro”. Fora a nova guerra às liberdades civis, revivendo o FBI do tempo de J. Edgar Hoover, este um dos maiores inimigos das liberdades civis na história dos EUA.

Toda a mídia entrou nessa onda, totalmente ridícula para qualquer observador estrangeiro. O ensaio de Margens sugeriu o projeto do livro. E enquanto escrevia o livro e fazia o que os americanos chamam de “conectar os pontos”, a idéia evoluiu para retratar o debate no país entre 1992 e 2004. Por coincidência, era meu período de correspondente nos EUA. Mas fazia sentido por outra razão: o projeto neoconservador é de 1992. Pouca gente recorda hoje que um documento interno do Pentágono vazado à imprensa naquele ano escandalizou as vozes moderadas da política externa dentro dos EUA e os países aliados tradicionais. Era uma receita de Pax Americana, para substituir a estratégia da guerra fria. A controvérsia só terminou quando o velho Bush (o pai), então em fim de mandato e candidato à reeleição, mandou o então secretário da Defesa, Dick Cheney, refazer o texto daquela diretiva do Pentágono, redigida por Paul Wolfowitz. A receita voltaria 12 anos depois, com o retorno dos neocons, levados pelo segundo Bush, em 2001.

Quanto à outra parte da pergunta, acho que o livro será útil para o leitor entender o que acontece nos EUA. Até para aqueles que discordam de minhas posições. Por uma razão. Ofereço um conjunto minucioso de informações. O livro é farto nelas, com citações de fontes e tudo. Até usando as próprias fontes que cito, meus eventuais oponentes podem me contestar. Entre elas há documentos oficiais – da Casa Branca, do Departamento de Estado, dos neoconservadores etc. E o mais importante: sempre que possível, dou os links para o leitor ir direto ao original, pela internet. Ou seja, como Marx disse sobre o capitalismo, o livro contém o germe de sua própria destruição, se os críticos quiserem usá-lo para isso. Mas acredito, claro, que está bem fundamentado e seu conteúdo resistirá a qualquer tentativa nesse sentido.

Como a direita americana conseguiu conquistar tantos corações e mentes no país? Conquistando também a mídia?

A.F. – Na verdade, não começou agora. E a mídia certamente tem muito a ver com isso. No livro procuro descrever o processo. Em 1964, quando o senador Barry Goldwater disputou a presidência e varreu da convenção republicana na Califórnia os liberais de Nelson Rockefeller, foi massacrado nas urnas por Lyndon Johnson. Mas Ronald Reagan, que o apresentara [Goldwater] solenemente na convenção, sobreviveu. E depois de perder para Nixon e Ford (não-conservadores) nas primárias de 1968 e 1976, Reagan elegeu-se graças à crise dos reféns do Irã em 1980, como restaurador da honra, do patriotismo, e da imagem da América forte.

Em 1981, início do governo Reagan, o jornalista I. F. Stone [1907-1989] me disse numa entrevista, depois publicada (pouco antes da morte dele) na revista Imprensa, que a direita estava invadindo os campi. O coração dos estudantes inclinava-se naturalmente para a esquerda, mas eles passaram a ser subornados por propostas (bolsas, empregos, mordomias) pelos think-tanks conservadores, dos quais os mais conspícuos eram (e ainda são) o American Enterprise Institute e o Heritage Foundation. Ao mesmo tempo, a direita religiosa, dos cristãos fundamentalistas, retomou o fôlego na batalha pelo impeachment de Bill Clinton, em 1998-99.

Até então eu não estava tão atento ao processo dos neocons – os neoconservadores; observava mais a direita religiosa e fundamentalista, também chamada “conservadorismo teocrático”, que originou o neologismo theocons. Ao iniciar o livro, os neocons passaram ao centro da minha atenção. Tinham um projeto pronto (o Projeto do Novo Século Americano) ao chegar ao poder com George W. Bush e os theocons.

Quais as mudanças mais notáveis no jornalismo americano pós-11 de Setembro?

A.F. – O medo da histeria patrioteira determinou a mudança. A Fox News assumiu a liderança, celebrando aquela histeria – os outros acompanharam, intimidados. Nem o New York Times ousou resistir. Por isso tenta minimizar hoje o crime jornalístico praticado por Judith Miller, que mantém como estrela da equipe, embora o que ela fez seja muito mais grave do que a ficção jornalística de Jayson Blair e Rick Bragg, para a qual veio autocrítica pomposa do jornal.

A Fox massacrou a CNN e escancarou a força potencial da direita naquele momento junto à população americana. Um dos mais notáveis neocons, Irving Kristol – que inventou a expressão “neoconservadorismo” não agora, mas há mais de 20 anos – chegou a escrever uma vez que bastaria a um presidente americano enrolar-se na bandeira e poderia (devia) mentir à vontade para ter o apoio da população. A imagem de Reagan tinha sido abalada pelo atentado que matou, em Beirute, 241 fuzileiros navais americanos, levando o presidente a retirar as tropas, com o rabo entre as pernas. Como tinha cometido o erro ao mandar os fuzileiros, Reagan tentou reabilitar a imagem logo depois do desastre. Como? Invadindo a inofensiva Granada, aqui no Caribe. Kristol apoiou essa operação de todo o coração. E viu aí a grande lição: o presidente, enrolado na bandeira, mentiu dizendo que estudantes de medicina dos EUA corriam risco. Os americanos não sabiam onde diabo ficava aquela ilha. Mas o país inteiro apoiou.

Terminada a operação, houve festa patriótica nas ruas – como se fosse heróica a invasão da ilhota de 100 mil habitantes pela maior máquina de guerra que o mundo já conheceu. Nessa ocasião, aliás, a mídia protestou, pois o Pentágono não admitiu a presença de jornalistas (só um pool, dias depois, com a situação já sob controle e os repórteres guiados por cicerones militares). Depois disso, consolidou-se ainda a regra do Pentágono: não se admitiu jornalistas na invasão do Panamá, menos de 10 anos depois, e agora os jornalistas vão para a cama com os militares, os embedded, o que a mídia festejou no Iraque como conquista.

Qual o espaço do jornalismo independente nos Estados Unidos? Que importância tem sua audiência?

A.F. – Sou um entusiasta dessa mídia. Não apenas estão ali jornalistas brilhantes, mas também alguns dos mais sérios, mais estudiosos, que ousam contestar o governo e colocar os fatos no contexto. Mas esses jornalistas, obviamente, não estão no que é chamado aqui de mainstream press ou mainstream media. Estão em The Nation, The Progressive, In These Times, no rádio e na televisão em programas como Democracy Now, de Amy Goodman, no canal alternativo Free Speech TV, do Colorado etc. Ainda tem coisa boa, rara, na PBS e na NPR, as redes públicas de televisão e rádio. Coisas como o Now with Bill Moyers – para mim, o exemplo mais notável, pois Moyers, jornalista da grande mídia, ex-secretário de imprensa de Johnson, hoje deixa a direita indignada e é denunciado pela Fox News como de extrema esquerda, apenas por ser sério e conseqüente contra os crimes das grandes corporações. Lamentavelmente Moyers aposenta-se em janeiro.

No mais, sobram os alternativos. Fora das grandes redes, controladas por gigantes como a General Electric (corporação que abriga grandes fornecedores de armas do Pentágono, faturando com as guerras, além das redes NBC, MSNBC etc), Walt Disney (rede ABC), Viacom (rede CBS), Time-Warner (CNN). O resto é o resto: jornais e revistas, pequenas publicações assinadas (ou compradas) no máximo por pouco mais de 100 mil leitores (caso da Nation, a mais bem-sucedida de todas, com 140 anos de existência) não competem com os milhões de exemplares de Time, Newsweek e os grandes jornais. É uma liberdade de imprensa e de expressão duvidosa, embora os alternativos consigam influir muito no meio acadêmico (daí a denúncia conservadora de que os professores corrompem a juventude, disseminam o derrotismo e são um perigo para a segurança nacional americana).

Como se comporta a imprensa regional na cobertura dos assuntos de governo?

A.F. – Existe um grande mito em relação à imprensa regional. Vivo num subúrbio de Nova York, Westchester, primeiro condado ao norte de Manhattan (o mesmo onde mora o casal Clinton) . Quando vim para cá, em 1994, morei em White Plains, cidade simpática, relativamente grande, a meia hora da Grand Central Station (Rua 42 com Lexington). Depois fui para Cortlandt, mais ao norte. Tínhamos em White Plains um jornal supostamente local, o Reporter Dispatch, da cadeia Gannett, dona do USA Today, cuja sede é exatamente em Westchester. Ora, essa cadeia compra jornais locais há décadas. Hoje tem mais de 100 no país. E os locais deixam de ser locais – às vezes só têm duas páginas locais.

O Reporter Dispatch foi fundido pela Gannett com outro de cidade próxima ao norte, o Journal News, que em seguida incorporou os de mais cidades e, já agora, dos condados mais ao norte – Putnam, Rockland, Dutchess. Que “local” é isso? É uma grande mentira. O material nacional é o mesmo do USA Today. O que está acontecendo é uniformização, igual ao McDonalds (daí a adequada expressão McPaper). Desaparece o critério jornalístico na administração. Prevalece o raciocínio da grande corporação – na verdade, da Wall Street. Quando demitem em massa, as ações sobem.

Esse é o jornalismo americano dos milhões de exemplares. O outro, o alternativo, mantém-se nos seus limites, vive em grande parte graças ao apoio de pessoas (celebridades com consciência e convicções, como Paul Newman) e fundações, heranças (doações deixadas em testamento por pessoas progressistas que morrem). O que ameaça fazer mais diferença é a internet, os blogs. Uma revolução. Mas ainda é cedo para se saber para onde isso nos levará. Dá apenas para especular, alimentar sonhos – e muitas ilusões.

Como avalia a cobertura da mídia americana na campanha para a eleição presidencial de 2 de novembro?

A.F. – Não quero ser pessimista a esta altura. Mas temo que a eleição pode ter sido definida pela rede Fox News, em agosto, com a cobertura dos comerciais contra Kerry no Vietnã. O incrível é exatamente isso: “cobertura dos comerciais”. Desde quando comerciais merecem cobertura? No passado, no Brasil, eu já achava um absurdo colunas sobre propaganda nos jornais e na televisão. Na Rede Educativa, onde trabalhei, existia programa de uma hora sobre comerciais, apresentado como se fosse cultura. A rede pública veiculava aqueles comerciais gratuitamente e era proibida de incluir comercias em sua programação. Agora, a Fox descobriu a “cobertura de comerciais”. Passa o comercial e ouve pessoas. Exige que os adeptos de Kerry se defendam das denúncias torpes e mentirosas contidas nos comerciais. Os comerciais eram fraude fabricada às escondidas pela campanha de Bush, que dizia, juntamente com o próprio presidente, discordar do conteúdo, reconhecendo da boca para fora ser um absurdo – até porque os documentos oficiais do Pentágono (sob controle de Bush) contestavam aquele conteúdo.

A manobra imunda destruiu a reputação do candidato. E enquanto a Fox fazia isso, ainda dava para entender. Só que todas as outras passaram a imitar, porque via o ibope da Fox subir. Calúnia e mentira sempre deram ibope. A CNN, rival e inimiga, passou a fazer a mesma coisa. E as grandes redes também. Para culminar a história, o grupo de mídia Sinclair, um império, cujas emissoras de rádio e as de TV (repetidoras de grandes redes) alcançam 25% do país, anunciou que alteraria toda a programação para incluir no horário nobre o documentário Honra Roubada, de 42 minutos, sobre o que Kerry dissera 30 anos atrás dos soldados americanos no Vietnã.

Gravações antigas de Kerry foram devidamente editadas (como aqueles comerciais, algumas imagens eram as mesmas) para parecer que as denúncias eram dele. Não eram. Ele apenas fazia papel de relator – relatava o que fora dito por outros em depoimentos. Até hoje, mesmo depois das torturs de Abu Ghraib, os americanos acham que seus soldados são uns santinhos, jamais praticaram atrocidades. Se você fala em My Lai eles ficam horrorizados. Dizem que é invenção de comunista, embora as fotos sejam oficiais, do Pentágono. E o tal documentário foi programado pela Sinclair a menos de três semanas da votação.

Published in: on março 18, 2008 at 6:11 pm  Deixe um comentário  

Os espiões de Bush na ONU

Às vésperas da invasão do Iraque, há cinco anos, comentei em artigo enviado de Nova York para o Brasil um escândalo de espionagem na ONU e o papel vergonhoso da mídia dos EUA no caso. A revelação fora feita em Londres pelo Observer: uma operação para grampear diplomatas estrangeiros, em casa e no escritório. Comunicações daqueles que representavam no Conselho de Segurança países inclinados a negar apoio à invasão do Iraque foram interceptadas (conversas, telefonemas, emails, tudo).

Além de escândalo de espionagem, era ainda um escândalo de mídia – decorrente ou da incompetência dos grandes veículos de comunicação dos EUA, ou de sua conduta humilhante ante a intimidação oficial, ou mesmo do exagerado zelo patriótico. Esses três pecados eram identificados desde o 11/9 e levaram muitos americanos a se informarem em veículos de fora, já que a informação correta lhes era sonegada pela grande mídia de seu próprio país.

Além de terem sido de novo superados por correspondentes britânicos, que àquela altura impunham “furos” quase diários (sobre o governo Bush) às gigantescas máquinas de informar dos EUA, os jornalistas americanos tentavam ignorar o assunto – em nova demonstração de patriotada e submissão à Casa Branca. A notícia fora publicada em Londres na manhã de domingo, 2 de março, mas apenas na tarde de segunda-feira um jornalista ousou fazer a primeira pergunta ao porta-voz de Bush.

Esquecendo o próprio passado

A reação inicial do governo Bush fora sórdida: a Casa Branca vazara à coluna online de seu aliado ideológico Matt Drudge a “suspeita” de que a prova publicada no Observer era uma fraude. Alegou, para tanto, que certas palavras do memorando interno da Agência de Segurança Nacional (NSA) transcrito pelo jornal estavam com a grafia britânica e não americana.

Em resposta, o Observer ridicularizou a desculpa e transcreveu em seu “site” na Internet a íntegra do documento com a grafia americana. Explicou que não o fizera antes porque o jornal dirige-se ao público britânico, mas que na própria edição impressa do jornal havia, além da transcrição, a fotocópia do documento original; não deixava qualquer dúvida sobre a autenticidade. Na segunda-feira o assunto foi amplificado na mídia do mundo inteiro. Até no Brasil, que brincava o Carnaval. Menos nos jornais americanos, que fingiram nada saber.

Nem uma linha saiu nos liberais New York Times e Washington Post, tão ousados no passado que tinham apostado corajosamente na publicação dos documentos secretos do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, recorrendo até à Suprema Corte pelo direito de dizer a verdade ao leitor.

O jornalismo contra a notícia

O muro do silêncio e da covardia na mídia americana prevaleceu no domingo (dia dos principais programas políticos da semana nas grandes redes de TV) e na segunda-feira – até o briefing do porta-voz Ari Fleisher à tarde na Casa Branca. Só então veio, afinal, a pergunta em tom tímido de um correspondente da rede ABC, que ouviu resposta reticente, enganosa. “Nada comentamos sobre operação de inteligência”, disse Fleisher.

Mas a iniciativa do repórter da ABC operou o milagre. Na terça-feira, finalmente, pelo menos dois jornais, Washington Post e Los Angeles Times, concluíram que já era tempo de falar no que o resto do mundo sabia desde domingo. O Post, ainda assim, teve o cuidado de esconder a informação numa página interna, a pretexto de ser pouco relevante, já que “é sabido” que os EUA espionam na ONU.

Os dois jornais repetiram então a alegação de Matt Drudge, dois dias antes, de que o documento “podia ser fraude para prejudicar a política de Bush”. Mas o Los Angeles Times não subestimou o caso: admitiu, até no título, que o caso aumentaria os problemas dos EUA para aprovar sua proposta de resolução da guerra no Conselho de Segurança (ironicamente, o objetivo final da espionagem da NSA).

A outra espionagem, sem prova

Houve outra ironia no episódio. A mídia americana achou irrelevante o furo do Observer – a pretexto de que ninguém é ingênuo o bastante para ignorar que os EUA espionam os diplomatas na ONU. Mas os EUA tinham expulsado dias antes o único correspondente da imprensa do Iraque na organização, Mohammad Hassan Allawi, da agência INA. E o que insinuaram? Que ele fazia espionagem.

O jornalista britânico Tony Jenkins, então presidente de nossa associação dos correspondentes da ONU (UNCA), dirigiu carta enérgica ao secretário de Estado Colin Powell para indagar o motivo daquela violência contra a liberdade de expressão. Lembrou que em toda a história da organização jamais – nem na fase aguda da Guerra Fria, quando abundavam os espiões – um jornalista credenciado tinha sido expulso.

Na época conversei com Allawi. Ouvi então que a carta enviada a ele pela missão dos EUA na ONU ordenava a saída do país por ser sua presença “contrária aos interesses dos EUA”. Só depois ele leria no Washington Post que uma fonte anônima alegara ser espionagem o motivo. Mesmo negando, ele foi embora – sem ver uma única e escassa prova. Em compensação, o mundo viu no Observer a prova da espionagem dos EUA, governo que o expulsara. O Post achou perfeitamente normal.

Published in: on março 18, 2008 at 2:16 pm  Deixe um comentário  

Nossa economia e o fim de um período

Apesar de continuar dedicado com diligência e civismo à campanha para derrubar o presidente Lula, O Globo ainda parece incapaz de impor a certos jornalistas, em suas páginas, a disciplina do “silêncio obsequioso”. Pelo menos é esse o caso de Elio Gaspari, cuja coluna, sindicalizada, sai também na Folha de S. Paulo e em outros jornais da grande mídia do país, sempre com elevado índice de leitura.

Há um par de meses Gaspari divertiu-se com o caso – pitoresco e insólito, para dizer o mínimo – da operação de uma tropa de elite (um combinado de fiscais, peritos e policiais, sob o comando do secretário do Meio-Ambiente Carlos Minc) que subiu a encosta do morro Dois Irmãos e entrou na favela Chácara do Céu. Objetivo: deter “a espantosa expansão da favela sobre as matas”.

Não se sabe se a operação era para atender ao jornal, que denunciava a ameaça dos bárbaros ao meio-ambiente e aos moradores do Alto Leblon, mas o governador Sérgio Cabral já se referira à Rocinha como “fábrica de marginais”. Só se encontrou, mesmo assim, a obra de um puxadinho de 20 metros quadrados – sumariamente demolido pelas operosas autoridades, aproveitando a ausência do dono. (Leia o texto como saiu em janeiro na FOLHA).

Caso de alucinação demofóbica

A expansão da favela, relatou Gaspari, fora produto de “alucinação demofóbica”. Mas graças a ela descobriu-se meia dúzia de quadras de tênis de um condomínio do Alto Leblon, a 200 metros do alto da favela, e três piscinas. Tudo irregular, acima da chamada cota cem. O condomínio Quinta e Quintais anexara um pedaço da mata. Ou seja, “foram procurar a invasão do andar de baixo e acharam a do andar de cima”.

Se volto ao assunto hoje, quase três meses depois, é porque a mesma coluna de Gaspari contou mais uma história exemplar no último domingo, com um paralelo entre o atual governo e o dos tucanos. Coisa que a gente não costuma ler no jornal dos irmãos Marinho. O Globo martela a tecla de que o crescimento econômico do Brasil no período Lula se deve às “condições internacionais” e à “herança de FHC”: o governo atual foi apenas “beneficiário”.

Qualquer pessoa de bom senso só pode dar gargalhadas ante a obsessão com que se repete a bobagem. E um jornalista desobrigado de “silêncio obsequioso” em relação à linha de O Globo sente-se à vontade para escrever que afinal chegamos ao fim do período, iniciado em 1930, durante o qual “a economia foi dirigida por pessoas que colocavam o crescimento econômico em segundo (ou terceiro) plano.”

Como se livrar do mercado

Ao contrário do jornalão que o publica, Gaspari acha que o Brasil poderia ter saído do buraco antes – se os tucanos não tivessem amarrado o país ao câmbio fixo, experiência que ruiu em 1999. Crescimento tinha virado palavrão. O ministro do desenvolvimento Clóvis Carvalho caiu em setembro daquele ano, um dia depois de ter ousado pedir que se pisasse no acelerador, se arriscasse mais. “Excesso de cautela a essa altura será covardia”, dissera ele.

Gaspari vê a data de 27 de março de 2006 como outro marco – o fim do controle rígido da economia pela equipe econômica. Foi quando Lula avisou o ministro Palocci, “moído na crise da quebra de sigilo do caseiro Francenildo”, de que devia deixar o governo. Palocci achou que imporia o mais próximo auxiliar, Murilo Portugal, como sucessor, a pretexto de que “qualquer outro seria mal recebido pelo mercado”.

Pelo que entendi do relato, pode ter sido aquele o grande momento de estadista de Lula. Primeiro pelo recado a Palocci, que circulava entre os tucanos, blindado por eles (seus artigos frequentam até hoje a página de opinião de O Globo). Segundo, por aproveitar a oportunidade para bancar a mudança de rumo, com Guido Mantega, e ignorar a ameaça “do mercado”.

Um Francenildo para Meireles

Nas múltiplas CPIs lançadas para desestabilizar o governo Lula a oposição tucano-pefelê poupava ostensivamente o ministro Palocci. Como se fosse o coringa a que recorreria no desdobramento da trama golpista. O caso Francenildo teve o efeito, paradoxalmente, de livrar o governo dele. Como conclui Gaspari, Murilo Portugal saiu batendo a porta e durante três dias o mercado ainda fez terrorismo. (Veja a coluna do último domingo na FOLHA.)

Mas foi só isso. Ou melhor, enfim desfez-se o encanto do tal de mercado. Francamente, incomodava-me aquele papel desempenhado por Palocci desde o princípio – de fiador do governo junto ao mercado. Num almoço no Waldorf Astoria, em Nova York, testemunhei o que me pareceu o nascimento de estranho culto a um personagem medíocre. Por que diabo era o detentor da “confiança do mercado”?

E quando Palocci saiu quem se lembrava de Pedro Malan, outro queridinho deles? O ministro de FHC, como o mexicano Carlos Salinas, cursou economia nos EUA e falava inglês primoroso (Salinas fez mais vantagem: até integrou o Conselho da Dow Jones). Sem curso de economia e falando paulistês, Palocci encantava a platéia no Waldorf Astoria e no Council on Foreign Affairs. Já não faz falta. Mas eu ficaria mais tranquilo se algum Francenildo nos livrasse de Henrique Meireles.

 

Published in: on março 17, 2008 at 2:29 pm  Deixe um comentário  

Difamação, plágio e a direita ensandecida

Espero que ao final do mandato do presidente Bush algum estudioso de mídia faça um balanço dos escândalos de jornalismo que marcaram seus oito anos. Fui uma das muitas pessoas que acompanharam com interesse tais episódios – alguns dos quais chocantes e talvez sem precedentes. A compra literal de jornalistas para falar bem do governo parecia, em certa época, quase uma rotina.

Frank Rich, colunista do New York Times, chegou até a escrever um artigo no início de 2005 com o apropriado título “All the president’s newsmen” (Todos os jornalistas do presidente). Referia-se, entre outras coisas, ao infame caso de Armstrong Williams, desmascarado porque recebia US$ 240 mil do contribuinte para falar bem, em talk shows da TV, sobre o programa educacional de Bush (clique para ler a coluna: Times).

Outro caso infame foi o de um certo “Jeff Gannon”, repentina estrela da sala de imprensa da Casa Branca, tratado com carinho numa coletiva pelo próprio Bush, que o chamou com intimidade de “Jeff”. Ele levantava bolas para o secretário de imprensa cortar. E naquele caso epecífico, deu um passe para o próprio Bush marcar um “gol de letra”. Depois se descobriu que apenas fingia ser jornalista, pois era prostituto profissional num site pornô.

Aquela certeza da impunidade

James D. Guckert, nome verdadeiro do amiguinho presidencial “Jeff”, escrevera em outro site – o ultraconservador Talon News – um artigo com ataques ao então candidato presidencial democrata, sob este título: “Kerry poderá tornar-se o primeiro presidente gay dos EUA”. Depois de Guckert/Jeff veio outro episódio insólito: a demissão do garotão Bob Domenech apenas três dias após estrear no site do Washington Post (leia a explicação do jornal aqui: Post ).

O fato de ter a empresa do Post acolhido, ainda que por tempo mínimo, blog de um extremista de direita de apenas 24 anos, expôs a insanidade daqueles dias no mundo dos blogs e da mídia. Estávamos no início de 2006. Devido à sordidez da campanha eleitoral bushista de 2004, havia muita gente ansiosa por seus 10 minutos de fama via internet.

Domenech praticava excessos de injúria e difamação dignos do mestre Joe McCarthy. Chamou de “comunista” até a viúva de Luther King, Coretta Scott. Por ter conseguido ser, antes, assessor do governo Bush, parecia certo da impunidade. Mas a perda do emprego no Post não foi por causa de tais excessos. Ainda estaria difamando se blogs liberais não tivessem revelado outro de seus hábitos: o plágio.

Ele plagiava regularmente desde 2001, quando escrevia para a National Review Online (NRO), o site da revista da velha direita fundada pelo elegante William Buckley Jr, que morreu no mês passado aos 82 anos. A lição deixada pelo caso Domenech é a mesma do denuncismo na mídia brasileira: acusações sem prova, difamação e injúria, tudo bem; mas cuidado com o plágio: dá demissão.

Lucianne e o complô da direita

Um dos editores da NRO era (ainda é) Jonah Goldberg, que se orgulha da mãe Lucianne, aquela que mandou Linda Tripp gravar Monica Lewinsky e armar o circo republicano do impeachment de Clinton, com Ken Starr no papel central. Por causa disso Jonah hoje é celebridade e freqüenta diferentes redes de TV. Ele mora em Washington e Lucianne em Nova York, onde serve à conspícua Regnery, a editora de livros de direita.

O difamador macarthista (e plagiário) Domenech também viera do covil da Regnery Publishing. Era editor, como Lucianne. O impeachment nascera no processo de Paula Jones, anunciado num hotel de luxo de Washington, durante a convenção de um grupo conservador. O promotor Starr devia o emprego a um juiz de direita. Não achou nada sobre Whitewater, então Lucianne enviou-lhe Tripp com as gravações. O resto é história.

O escândalo Domenech deixou claro que a gangue do impeachment – fiasco que custou ao contribuinte mais de US$ 70 milhões, fora custos extraordinários do Congresso – continua ativa. A turma da “vasta conspiração da direita”, aliás, foi premiada depois com bons empregos no governo Bush, em especial os advogados da Sociedade Federalista -como Theodore Olson, nomeado em 2001 Advogado Geral.

A mulher dele, Barbara Olson, talking head hidrófoba na TV durante a crise do impeachment, estava no avião supostamente lançado sobre o Pentágono a 11 de setembro. Publicou pela Regnery dois livros de ataques ferozes a Bill e Hillary Clinton.

Os “duendes” do promotor Starr

Os cinco advogados da Sociedade Federalista que se dedicaram de corpo e alma à sacrossanta cruzada para derrubar Clinton, alimentando o escritório do promotor Starr, foram: George Conway, Richard Porter, Jerome Marcus, Paul Rosenzweig (que trabalhou diretamente com Starr) e Ann Coulter. Pelo esforço subterrâneo, ficaram conhecidos coletivamente como “os duendes”.

Ann Coulter, loura exuberante e desbocada, fazia dupla com Barbara Olson. Eram duas fanáticas odiadoras dos Clinton na TV. Apareciam em especial na rede Fox News, mas também pontificavam em outros veículos, até nos maiores. Com a morte de Olson, o campo ficou livre para Coulter, hoje autora de vários livros, alguns dos quais foram ao topo da lista de best-sellers do New York Times.

Essa cultura política que ganhou espaço nos oito anos de Clinton foi devassada em parte no livro Blinded by the Right – The conscience of a ex-conservative (Obcecado pela Direita – A consciência de um ex-conservador), de David Brock. Operador político pago por milionários de direita (financiadores da campanha anti-Clinton), Brock rompeu depois com a turma e contou toda a história. Hoje dirige um atuante site de crítica de mídia, o Media Matters for America (clique para conhecê-lo: MediaMatters).

Published in: on março 15, 2008 at 12:13 pm  Comments (2)  

Confirmado: o Texas é de Obama

Não gosto de ser enganado. Acho que ninguém gosta. Por isso publiquei no dia 7 de março, em minha coluna da Tribuna da Imprensa (veja AQUI) que na verdade a senadora Hillary Clinton não tinha vencido a disputa do Texas. Expliquei então que o processo ali era híbrido, combinando primárias e “caucuses” – e que a apregoada vitória dela naquele estado, amplificada pela mídia, seria transformada em derrota ao fim do processo.

Alguns leitores podem até ter achado que estava “chutando”, embora eu tenha invocado o testemunho da historiadora Lisa Pease, neste artigo para o site  Consortium News. Hillary ganhara as primárias com 51% contra 47%, o que lhe dava 65 delegados contra 61 de Obama. Mas Obama ganhou nos “caucuses” por 56% contra 44%, o que lhe garantia mais 37 delegados (contra 30). Total: ele 98, ela 95.

Agora, com sete dias de atraso, isso já é reconhecido por Robert Yoon no site da CNN Political Ticker: Hillary foi derrotada no Texas. Eu tinha escrito 98 a 95 mas a CNN cita resultado ainda mais favorável a Obama: 99 a 94. Fica a pergunta: se até o ex-presidente Clinton e o estrategista eleitoral de Hillary, James Carville, diziam que se perdesse no Texas estaria fora, por que ela ainda não fez as malas e foi embora?

A aparência e a realidade

De acordo com o que se dizia nos dias que precederam a disputa do Texas e Ohio, para continuar no processo ela teria de vencer nesses dois estados e também na Pensilvânia, dia 22 de abril. O maior dos três é o Texas, que ainda tem o segundo maior número de delegados e de votos eleitorais em todo o país – atrás apenas da Califórnia.

Como também observei antes, Hillary fazia mais questão da “aparência de vitória” do que da vitória real. Assim, festejou o resultado como se de fato tivesse vencido – o que também fizera em Nevada, onde Obama obteve mais delegados, e na Flórida, onde a votação fora invalidada antecipadamente pela direção nacional do partido. Mas a campanha dela pretende insistir nos truques e na ficção até a convenção de 28 de agosto.

Na mesma noite do Texas toda a mídia fez o jogo com o qual ela contava. As manchetes diziam que Hillary se reabilitara, impondo três derrotas a Obama – Texas, Ohio e Rhode Island. Na verdade, ele ganhara em dois (o principal, Texas, e mais Vermont) e ela em dois (Ohio e Rhode Island). E as disputas seguintes (Wyoming, dia 8 último, e Mississippi, dia 11) já deram mais vitórias a ele (contra nenhuma dela).

Uma Cinderela sem sapatos

A situação insólita – uma fantasia alimentada por toda a mídia, ou por interesse ou por incompetência – também permitiu a Hillary “oferecer” ao adversário que a está derrotando na votação popular, no maior número de estados e no maior número de delegados, o lugar de vice na chapa. Ironicamente, o marido dela referira-se antes à suposta falta de chance de Obama como “conto de fadas”. Ora, o conto de fadas é ela, Cinderela sem sapatinho de cristal.

Hillary agora só ganharia a indicação presidencial do partido se sua campanha conseguisse fazer prosperar os “truques sujos” nos quais teima em apostar: 1. a situação da Flórida e de Michigan, onde a votação fora previamente invalidada com a concordância de todos os candidatos; 2. a pressão sobre os superdelegados; 3. os comerciais da “política do medo”, de inspiração bushista.

A ficção da “vitória” no Texas, é preciso reconhecer, deu resultado. Num espaço de poucos dias, depois do resultado falso ser amplificado na mídia, que a retratou como vencedora e lutadora, “The Fighter” (clique aqui para vê-la na capa da revista Time), “Comeback kid” e outras fantasias, a campanha dela, que já não conseguia arrecadar dinheiro, abiscoitou doações no total de US$ 44 milhões de dólares.

O pecado dos apressadinhos

Anteriormente comparei a situação a grandes farsas eleitorais recentes, no Brasil e nos EUA – o escândalo ProConsult-O Globo para derrotar Brizola no Rio (1982), a edição do debate Lula-Collor na Rede Globo (1989), o roubo de votos para George W. Bush na Flórida (2000), etc. Em todos esses episódios a mídia teve um papel sensível para a adulteração da vontade do eleitorado.

A historiadora Lisa Pease questiona esse papel. “Por que a pressa da mídia em declarar um vencedor? Se podemos esperar 24 horas para saber quem vai para casa no programa ‘American idol’, claro que podemos esperar muito mais para ter os dados corretos da eleição. E se os repórteres não conseguem calcular direito o número de delegados, não deviam esperar que as autoridades do partido fornecessem os dados certos?”

No caso atual, da disputa entre os dois candidatos democratas, a historiadora acha que a pressa dos jornais e da TV está ameaçando as chances do partido de ganhar em novembro, pois prolonga uma disputa cada vez mais desgastante, mesmo sabendo que um candidato, Obama, mantém vantagem praticamente definitiva em número de delegados.

Enfim, só resta dizer: Ei, Hillary, caia fora!

 

Published in: on março 14, 2008 at 11:31 am  Deixe um comentário  

A ascensão e a queda de Spitzer

 Num debate da Fox News, no dia em que estourou o caso do governador Eliot Spitzer com as prostitutas de luxo, o jornalista Mort Kondracke afirmou que “nunca um escândalo causou tanta euforia. E tudo porque Spitzer foi muito mau com as pessoas”. Mas desta vez, ao contrário do que em geral acontece na rede de Rupert Murdoch, um jornalista ao lado, Juan Williams, discordou frontalmente.

“Mort, você está errado. Houve euforia dos altos executivos de Wall Street, punidos por ele porque fraudaram acionistas, clientes e contribuintes. Mas você não pode dizer que a população ficou feliz. Não se esqueça de que por causa da atuação dele como Procurador Geral, obrigando figurões a pagar bilhões de dólares, Spitzer foi eleito com 70% dos votos – a vitória mais esmagadora na história eleitoral do estado de Nova York”.

Williams trabalha na NPR, a rede pública de rádio e às vezes faz comentários como editor contribuinte na Fox News. Nem sempre discorda do coro murdochiano, mas é o único que ousa isso de vez em quando. Ele também podia ter lembrado que Spitzer investigou ainda o próprio presidente da Bolsa de Nova York, Dick Grasso, forçado a renunciar porque se contemplava anualmente com bônus milionários.

Ontem Spitzer afinal anunciou a renúncia. Por ter exagerado na leviandade, pôs fim a carreira que ainda poderia levá-lo até à Casa Branca. De qualquer forma, tanto sua trajetória inicial, como Procurador Geral, como esse fim melancólico são momentos positivos para o sistema político. Expuseram o sucesso merecido – e a punição necessária e justa.

Published in: on março 13, 2008 at 12:26 pm  Deixe um comentário  

A Colômbia e os direitos humanos

“The Hill” é uma publicação sobre a atividade parlamentar nos EUA. Em seu último número, na seção sobre Negócios e Lobby, ela revela que lobistas da área de livre comércio esperam que neste fim de semana o governo Bush lance uma batalha colossal para introduzir no Congresso legislação destinada a implementar o controvertido acordo de livre comércio com a Colômbia.

Ao fazê-lo, o governo pretende forçar o Congresso a votar o acordo. Assinado antes de expirar, em 2007, a autoridade “fast track” dada a Bush, o acordo ainda está sujeito às regras especiais destinadas a apressar a tramitação. Mas a introdução de legislação sem acerto prévio com os líderes da Câmara é encarada como um ato de provocação, já que aquelas regras limitam drasticamente o prazo para o exame.

Segundo o analista David Sirota, do “Blog for Our Future”, a Colômbia tem uma “pavorosa folha de antecedentes em matéria de direitos humanos. Executam-se nesse país mais organizadores sindicais do que a soma de todo o resto do mundo. Seu presidente (Álvaro Uribe) está ligado aos próprios líderes das gangues paramilitares que executam sindicalistas”.

Aquela intimidade promíscua

Os leitores interessados em saber mais sobre tais ligações podem clicar aqui – Washington Post – para ler matéria da Associated Press publicada em junho do ano passado pelo “Washington Post”. Em mais de cinco anos como presidente, Uribe repetidamente rejeitou as acusações sobre sua intimidade promíscua com milícias assassinas direitistas. Entre as milhares de vítimas há ativistas sindicais e suspeitos de simpatia pelos rebeldes.

Um vídeo sobre a campanha eleitoral de 2001, descoberto em 2007, mostra Uribe apertando a mão de um chefe miliciano que seria preso semanas depois por envolvimento em múltiplos assassinatos (fugiria em seguida e hoje continua procurado, com a cabeça a prêmio). Segundo a matéria do “Post”, Uribe viu aliados, um após outro, serem presos por cumplicidade com as milícias ilegais paramilitares, ligadas ao narcotráfico.

O chefe da milícia que confraternizava com Uribe no vídeo (a 31 de outubro de 2001) foi identificado por três pessoas como sendo Fremio Sanchez Carreno, mais conhecido como “Comandante Esteban”. A AP disse que ele era o chefe paramilitar de toda uma zona. O “comandante” também assinara, meses antes, cartas com ameaças de morte a líderes sindicais e ativistas de direitos humanos.

O repúdio à conduta infame

A questão é tão relevante que dois deputados democratas do Grupo de Trabalho sobre Comércio da Câmara – o co-presidente, Mike Michaud, e Phil Hare – distribuíram uma nota destacando a péssima conduta de Uribe no campo dos direitos humanos. Eles denunciam os acordos que exportam empregos e, em especial, os assinados com países como a Colômbia, que violam direitos humanos e trabalhistas.

“Se o governo Bush decidir submeter unilateralmente ao Congresso o acordo de livre comércio com a Colômbia – ou nesta semana ou em qualquer outra – vamos trabalhar duro junto a congressistas dos dois partidos para uma oposição conjunta. O acordo com a Colômbia é ruim para ambos os países e trabalhadores de toda parte. É baseado no modelo falho do Nafta (América do Norte) e do Cafta (América Central)”, diz o texto.

Esses dois últimos acordos, segundo a nota, “exportaram milhões de empregos de americanos. E como se não bastasse isso, a Colômbia continua a se destacar negativamente como o lugar mais perigoso do mundo para um sindicalista. Trinta e nove deles foram assassinados ali em 2007”. Esses dados citados e mais outros são disponíveis aqui Our future e na “The Hill” The hill .

Published in: on março 13, 2008 at 8:57 am  Deixe um comentário  

Os democratas e a “política do medo”

Casey Knowles tem 17 anos e está terminando o curso secundário numa escola do estado de Washington, costa noroeste dos EUA. Quando via TV há alguns dias, surpreendeu-se com o comercial no qual a campanha de Hillary Clinton, na linha da “política do medo” do governo Bush, retratou crianças dormindo e a ex-primeira-dama atendendo um telefonema às 3 da manhã na Casa Branca.

A voz do locutor dizia, enquanto pegava o fone, que é preciso ter alguém experiente como ela na Casa Branca para atender a tais chamadas e resolver crises internacionais de madrugada, garantindo a segurança das crianças. A insinuação de Hillary, claro, é de que o adversário Barack Obama, por ser jovem e não ter sido “primeira-dama”, está despreparado para ser presidente.

Muitos eleitores no Ohio e no Texas podem até ter mudado o voto por causa do comercial. Mas Casey, cuja imagem foi usada, era uma daquelas crianças e discorda do que foi dito ali. “Também gosto de Hillary, mas preferiria muito mais que fosse a voz de Barack Obama a atender aquele telefonema às 3 da manhã”, explicou ela ao ser ouvida pelo website “The New Argument”.

O feitiço contra a feiticeira

Como as imagens de Casey foram feitas quando ela tinha um ou dois anos, não se sabe porque estão agora no comercial, sem autorização dela. Mas o certo é que a campanha de Hillary, mais uma vez, quebrou a cara. Pois Casey é ativista política na escola e desde outubro está dedicada à campanha de Obama, tendo até liderado reunião partidária em seu distrito na qual foi ele o vencedor.

“Tenho atuado com entusiasmo na campanha dele. Em janeiro consegui recrutar muita gente para comparecer à reunião partidária (caucus). Ele tem inspirado e mobilizado tanta gente que não tenho dúvida em dizer que o fato de ser jovem ajuda muito. Ele se tornou simplesmente a melhor opção para as pessoas que querem uma mudança neste país”, afirmou Casey.

Depois do website, um canal do estado, King 5 News, entrevistou Casey de novo, em casa, com outras pessoas da família. Embora a moça não desgoste de Hillary, o comercial pode ficar na história eleitoral como prova do “jogo sujo” dos Clinton na obsessão de ganhar a qualquer preço. A oposição republicana gostou tanto que pretende usar outro, parecido mas contra ela, caso seja Hillary a candidata. 

“Se fosse branco não ganhava”

Hillary continua inferiorizada na votação popular, no número de estados onde ganhou e no número de delegados à convenção, mas sua campanha permanece determinada a recorrer a truques. Insiste na tentativa de validar as votações anuladas de Michigan e Flórida (punidos por desafiarem a direção nacional do partido) e ampliou a pressão sobre os superdelegados.

O truque do Texas, onde ela festejou vitória mesmo tendo obtido menos delegados do que Obama, já foi ajuda significativa, com a contribuição de toda a mídia na divulgação da versão dela. Isso permitiu, entre outras coisas, que a campanha dela voltasse a arrecadar doações, o que antes tinha ficado difícil. Totalizou mais de US$ 40 milhões depois de terça-feira da semana passada.

A obsessão de diminuir Obama – às vezes como “despreparado” no campo da segurança nacional, às vezes por mal disfarçado racismo – também continua. Uma ativa aliada de Hillary, a ex-deputada Geraldine Ferraro, derrotada em 1984 como candidata a vice na chapa de Walter Mondale, reapareceu aos 72 anos, fazendo mais ataques ao candidato Barack Obama.

“Se Obama fosse um homem branco, não estaria nessa posição”, disse a raivosa Ferraro na semana passada a um jornal da Califórnia. “E se ele fosse mulher, de qualquer cor, também não estaria nessa posição. Tem muita sorte de ser quem é. O país inteiro acabou capturado por esse conceito”, acrescentou de forma meio nebulosa.

A renúncia e as suspeitas 

Ferraro alegou ainda que Hillary tem sido vítima “de uma mídia muito sexista”. “Acho que a maneira como a América se sente sobre uma mulher tornar-se presidente passou a ser muito secundária para a campanha de Obama – para um tipo de campanha que ficou difícil de ser enfrentada”, disse ainda. Ao mesmo tempo, Ferraro acha que a mídia virou-se contra sua amiga senadora.

Diante do tom racista, a campanha de Hillary percebeu a conveniência de uma discordância pública em relação às declarações de Ferraro. A campanha de Obama voltou a conclamar a candidata a manter a disputa em nível elevado, já que domingo, numa entrevista ao “60 Minutes” da rede CBS, ela fora reticente e suspeita ao responder uma pergunta sobre a religião de Obama: “Não me consta que seja muçulmano”.

Antes, uma alta conselheira de política externa de Obama, Samantha Power, fora pressionada por ele a renunciar por ter chamado Hillary de “monstro” em entrevista  a um jornal europeu. “Lamento profundamente ter dito coisas indesculpáveis. (…) Estendo meu pedido de desculpas à senadora Hillary, ao senador Obama e à magnífica equipe com a qual trabalhei nos últimos 14 meses”, disse ela.

Published in: on março 12, 2008 at 1:22 pm  Deixe um comentário  

A receita que esvaziou a crise

Não é preciso ser gênio para perceber a relevância de um fato internacional e o acerto de uma decisão. O blog do Ricardo Noblat (num comentário reproduzido ainda em sua coluna de O Globo) foi preciso ontem ao registrar o bom senso e o êxito da intervenção do governo Lula na semana passada “para esfriar a crise diplomática desatada pela Colômbia ao violar a soberania do Equador”.

Ele lembrou: “Para matar Raul Reyes, o segundo dirigente mais importante do grupo Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o presidente Álvaro Uribe ordenou a invasão do Equador no último dia 1. Dois aviões SuperTucano bombardearam o esconderijo de Reyes na região equatoriana de Piñuña Blanco. Algumas horas depois, transportados por quatro helicópteros Blackhawk, desembarcaram no local uma tropa de elite do Exército colombiano e 44 agentes judiciais. Foram conferir o sucesso da missão.

Pouco importa que Uribe alegue a pouca distância entre o lugar onde Reyes foi morto e a fronteira que separa a Colômbia do Equador. Ou que o governo do Equador apóia as FARC e lhe concede abrigo, assim como o da Venezuela. A Colômbia infringiu, sim, leis internacionais que garantem a inviolabilidade do território de países independentes.”

Qualquer um pode ter sua opinião, mas não falsificar os fatos para justificá-la. A minha é bem diferente da do Noblat. Mas ambos respeitamos os fatos. Por isso temos consciência de que o desfecho do episódio foi uma vitória da diplomacia brasileira. Um analista que não o reconheça, seja por amor a Bush, aversão a Chávez ou simples subserviência, desmerecerá a própria capacidade de análise.

Published in: on março 11, 2008 at 3:05 pm  Deixe um comentário