A matança de Bush e Uribe

Sob a pressão de chefes militares colombianos, freqüentemente acusados de agir em articulação com milícias e grupos militares de extrema direita ligados ao narcotráfico, o exército da Colômbia ampliou sua ação nos últimos anos, passando a matar cada vez mais camponeses e agricultores pobres, caracterizados depois como “rebeldes mortos em combate pelas forças legais”.

O relato nesse sentido foi feito domingo, no Washington Post, pelo jornalista Juan Forero, que há um ano e meio está baseado em Bogotá e cobre a Colômbia e a Venezuela para o jornal da capital americana (veja o texto original no POST). Ele contou a história ouvida de Cruz Elena González numa aldeia do Noroeste colombiano. Soldados passaram e entregaram o cadáver do que disseram ser um rebelde morto ao enfrentá-los.

Depois, o ombudsman de direitos humanos da administração municipal fez uma investigação sobre a morte do suposto guerrilheiro e refutou a versão dos militares. Ele descobriu que o corpo era de Robeiro Valencia, de 16 anos, filho de Cruz Elena. “Imagine o meu drama, quando meu outro filho veio me contar que era Robeiro. O cadáver era do meu filho”, contou ela, entre lágrimas, ao Post.

De cadáver em cadáver

O que a Colômbia está vivendo no atual governo de Álvaro Uribe é mais uma das guerras de Bush – talvez a menos conhecida como tal. O Congresso dos EUA começou afinal a tomar consciência dessa tragédia. No ano passado a oposição democrata conseguiu reduzir a injeção anual de verbas para o regime de Bogotá. Mas a situação na selva colombiana está cada vez mais dramática, segundo Forero.

Mais de US$ 8,4 bilhões já foram enviados pelos EUA para sustentar a guerra. E nos últimos seis anos Bush não só exigiu uma ofensiva – a ampliação do esforço militar contra os rebeldes – como passou a cobrar resultados. Com isso os chefes militares estão impondo aos subordinados uma nova tática, herdada da experiência dos EUA na guerra do Vietnã. A da contagem de cadáveres como medida do sucesso.

Como acontecia no Vietnã, os soldados matam indiscriminadamente na obsessão de adicionar mais um número à lista macabra – ainda que o cadáver seja de um civil inofensivo, como no caso de Robeiro Valencia. Os grupos de direitos humanos redobraram o monitoramento, mas a mídia bushista teima em absolver a priori o regime colombiano apadrinhado pela Casa Branca.

Uma disputa entre generais

Nessa escalada militar de Uribe, encorajada pelos EUA, as forças armadas da Colômbia quase duplicaram. Eles totalizam agora 270 mil militares. Já estão no segundo lugar na América Latina. E no campo de batalha os comandantes exigem cadáveres. Os mais fáceis de serem conseguidos, obviamente, são os de camponeses miseráveis, que sequer têm armas – ou como resistir.

Segundo o Washington Post, essa tática duvidosa já cria um debate acalorado, no ministério da Defesa da Colômbia, entre os generais da velha guarda, favoráveis à campanha agressiva centralizada na contagem de cadáveres, e os reformistas, para os quais o Exército tem de desenvolver uma medida mais sensata e confiável para avaliar o sucesso no campo de batalha.

A matança promovida por unidades de combate sob as ordens de comandantes regionais, diz Forero, sempre foi um problema grave nos 44 anos do conflito da Colômbia. E com a recente desmobilização de milhares de paramilitares, muitos dos quais operavam esquadrões da morte para exterminar os rebeldes, o número de civis mortos pelo exército multiplicou-se, segundo grupos de direitos humanos.

Os civis “mortos em combate”

Há informações diversificadas sobre “matanças extrajudiciais” – expressão usada em relação à morte de civis. Relatório feito por uma coalizão de 187 organizações de direitos humanos declarou haver alegações de que entre meados de 2002 e meados de 2007, 955 civis foram mortos e classificados como “guerrilheiros mortos em combate”. É um aumento de 65% em relação aos cinco anos anteriores.

Tal elevação pode ser claramente reivindicada pela política belicista do governo Bush. A Judicial Freedom Corp, grupo de advogados de Medellin que representa famílias de 110 pessoas assassinadas em circunstâncias não explicadas, disse ao jornalista do Post: “Costumávamos ver isso como fatos isolados, como unidades militares escapando ao controle. Mas o que vemos agora é sistemático”.

No Vietnã a obsessão da contagem de cadáveres subvertia o raciocínio lógico. Isso porque civis acabavam entrando na conta, inflando-a. Também há denúncias de volta à contagem de cadáveres no Iraque (leia AQUI artigo da CounterPunch, uma newsletter de esquerda). Na época surgiu uma piada mórbida. Exageravam-se de tal forma os números que se somássemos as diferentes contagens de cadáveres chegaríamos à conclusão de que a população total do país já tinha sido exterminada duas vezes. E nem assim os EUA ganharam a guerra.

 

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Published in: on março 31, 2008 at 4:16 pm  Deixe um comentário  

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