Privatização também causa danos na guerra

Fiz referência aqui, algumas vezes, à terceirização da tortura pelo governo Bush – inclusive aos vôos de companhias privadas que a CIA usou para levar suas vítimas, secretamente, a países que se prontificaram a torturar, a pedido dos EUA. Também citei os “contractors” americanos que tinham sido militares e se converteram em mercenários de guerras privatizadas, alugando o “know how” macabro.

Depois o economista Paul Krugman, que ao ser contratado pelo New York Times em 2000 ampliou seu horizonte para tornar-se um dos colunistas mais lidos do país, analisou o problema da privatização-via-terceirização nos EUA, tendo como gancho um desabafo do próprio Bush – sua queixa, revelada pela revista U.S. News & World Report, de que não admitia terceirizar seu papel de comandante-chefe.

Para os brasileiros, é um tema sempre oportuno graças à obsessão privatista legada pelo desgoverno FHC. Esse presidente generalizou a prática nociva de usar empresas (como as agências de propaganda de Marcos Valério) até para disfarçar pagamentos duvidosos a gente que exige remuneração fora dos padrões habituais do serviço público – prática que não resiste a exame sério de um Tribunal de Contas.

Responsabilidades transferidas

No caso de Bush, a terceirização virou escândalo ainda mais chocante por envolver transferência de responsabilidades do Estado em guerras e, além disso, por favorecer corporações com convenientes conexões no governo e no partido oficial. Krugman citou o exemplo de um programa de US$ 17 bilhões para modernizar a Guarda Costeira, que para tanto contratou a Lockheed Martin e a Northrop Grumman (veja sua coluna AQUI).

Essas duas transnacionais gigantes são beneficiárias regulares da orgia de gastos do Pentágono – celebrizada tanto pelo descontrole das contas como pela pela confraternização promíscua com os fornecedores (leia o texto sobre os escândalos que o professor J. Ronald Fox, de Harvard, publicou em 1988 no TIMES). No caso específico, como a Guarda Costeira transferira a supervisão, as firmas forneciam unidades navais e helicópteros que seus próprios engenheiros consideravam malprojetados, inseguros e caros.

Krugman contou ainda que no Afeganistão a tarefa de treinar uma nova força policial fora terceirizada para a DynCorp International, sob supervisão desleixada. Numa inspeção, os auditores sequer conseguiram encontrar uma cópia do contrato – e após gastos de US$ 1,1 bilhão (no Pentágono a conversa é só em bilhões), o Afeganistão continuava sem programa de treinamento de sua polícia.

A ilusão das terceirizações

Sobre o Iraque, o colunista do Times relatou como as autoridades da ocupação transferiram a responsabilidade pela reconstrução a empresas privadas, praticamente sem qualquer supervisão. “Parece que o único plano foi deixar o setor privado ocupar-se da construção da nação, fazendo o que bem entende”. O mundo inteiro, claro, sabe em que lambança o Iraque foi transformado.

Dentro dos EUA há o exemplo da terceirização das responsabilidades da FEMA – a agência federal encarregada de socorro em emergências, desastres, furacões etc. A FEMA terceirizou para a firma Landstar Express America o encargo, entre outras coisas, de evacuar pessoas. Mas depois do Katrina a firma sequer sabia como arranjar ônibus. “Nos acharam pela Internet”, contou a Carey Limousine

Para Krugman, está bem claro o erro fundamental da ideologia antigoverno abraçada pelo conservadorismo bushista. A desculpa é a busca das “virtudes do mercado”, da livre concorrência. Como se a propriedade privada, em si, fosse uma espécie de elixir mágico. Só que nada justifica a suposição de que a empresa privada trabalha melhor do que pessoas contratadas diretamente pelo governo.

A devassa para mudar o rumo

Segundo o raciocínio do colunista, o trabalho privatizado é pior ainda nos casos de conexões políticas que deixam a terceirizada livre, sem prestar contas a ninguém – exatamente o que costuma acontecer no governo Bush. No Afeganistão ninguém fiscalizava a conduta da DynCorp. Auditores do governo nada viam de mal na desastrosa Landstar, elogiada até pelo Departamento de Transportes.

A recomendação de Krugman, no momento em que a oposição passava a controlar as duas casas do Congresso, foi uma investigação rigorosa. Afinal, não é só o desperdício, o dinheiro jogado fora. As falhas da terceirização no Iraque foram um fator que contribuiu para o desastre da ocupação. Falhas iguais no Afeganistão tiveram efeito semelhante. E os erros da Fema condenaram Nova Orleans.

A desenfreada privatização-via-terceirização-e-sem-fiscalização é um desastre. Por coincidência, companhias beneficiárias sempre dão dinheiro para campanhas republicanas – ou são dirigidas por executivos com conexões no poder. Mas o atual fracasso de Bush pode ajudar no futuro a pôr fim ao desatino das privatizações – e do preconceito antigoverno criado por décadas de propaganda da direita.

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Published in: on março 29, 2008 at 12:08 pm  Deixe um comentário  

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