Ainda o “direito divino” de Hillary

Em princípio o retorno à violência no Iraque – com os confrontos em Basra, Bagdá e outras cidades, entre as milícias leais a Moqtada al-Sadr e as forças de segurança – faz prever mais complicadores para o republicano John McCain até a eleição de novembro. Ele paga o preço por ter atrelado sua candidatura à guerra de Bush no Iraque, praticamente a única bandeira de sua campanha.

Coube ao próprio McCain, aliás, chamar a atenção do eleitorado para o fato de seu sucesso eleitoral depender do que acontecerá nos próximos meses no Iraque. Mas antes ele não tinha a ajuda da adversária Hillary Clinton: ainda obcecada pelo suposto “direito divino” dela própria à Casa Branca, a ex-primeira dama está numa escalada crescente de truques sujos contra Barack Obama, que ganhou mais delegados, mais votos e mais estados.

Na última façanha, esta semana, Hillary encantou o rival republicano ao ressuscitar na mídia a histeria em torno do ex-pastor da igreja freqüentada por Obama, Jeremiah Wright. A senadora o fez, no novo desdobramento, também para desviar a atenção da mais recente trapalhada dela – a bravata mentirosa de que em 1996 teria desembarcado na Bósnia em meio ao fogo de franco-atiradores. (clique no YouTube para ver o que ela disse e a montagem-sátira do website BarelyPolitical.com).

O momento Lincoln de Obama

Exibidas na TV as imagens gravadas do desembarque – mostrando uma Hillary lépida e fagueira, bem protegida e festejada ao lado da sorridente filhota Chelsea, sem nenhum tiro disparado, apenas muitas homenagens -, restou a ela reconhecer que nada do que dissera tinha acontecido. Depois, fez seus próprios disparos de franco-atiradora, mas contra Obama, e por causa do pastor Wright.

Ele não é mais pastor. Aposentou-se. A mídia afinal fizera uma trégua, deixando de lado o assunto, que antes motivara a rede republicana Fox News a repetir à exaustão os sermões mais incendiários de Wright. Hillary então julgou oportuno enfiar sua colher de pau. “Se fosse eu, teria examinado melhor quem era o pastor, jamais eu me ligaria a alguém radical como ele”, disse.

Isso bastou para desatar a nova onda contra Obama na mídia, ainda que na semana anterior ele tivesse feito, a propósito do assunto, um pronunciamento comparado por alguns, como peça oratória, a históricos discursos políticos – como o de John Kennedy sobre a separação entre estado e igreja, e o da “casa dividida”, de Abraham Lincoln. “Foi um momento de Lincoln”, escreveu Tim Rutten no Los Angeles Times (leia a coluna de RUTTEN).

Vice para ela é “déjà-vu”

Maureen Dowd, a colunista do New York Times a quem o presidente Bush deu o apelido de “Cobra”, vinha batendo ao mesmo tempo em Hillary e Obama. Agora parece mais irritada e feroz com a política de terra arrasada da ex-primeira dama contra o rival democrata. A jornalista considera duas hipóteses a partir do princípio clintoniano de que “ou será Hillary ou não será nenhum democrata” (leia a coluna AQUI).

Na primeira, Hillary estaria convencida de que não deve voltar ao Senado, onde alguns figurões do partido preferiram Obama a ela. Assim, se conseguir enfiar o pé na porta, ainda ganharia o segundo lugar da chapa. Mas apenas se for para reeditar Dick Cheney, que foi capaz de dirigir a Casa Branca e o mundo a partir da residência do vice-presidente, passando por cima de um Bush verde e despreparado.

Difícil seria imaginar – como escreveu Dowd – que depois de ter sido segundo violino para uma superestrela política como Bill Clinton, Hillary concordasse em voltar àquele papel. Não, em condições normais esse cargo não interessa a ela, que “já foi vice-presidente”. Mas na estratégia atribuída a Hillary e Bill Clinton, de ganhar a qualquer custo, ainda há a segunda hipótese.

A “opção Tonya Harding”

A alternativa, assim, seria fazer um estrago tão grande a ponto de deixar o partido rachado de forma devastadora, para levar Obama à derrota em novembro. Nesse caso, se o vencedor republicano só cumprisse um único mandato (o que parece natural, devido à idade dele), bastaria Hillary esperar sua oportunidade final – em 2012, quando terá 65 anos.

“Haveria alguma outra razão para ela sugerir que McCain seria um comandante-chefe melhor do que Obama. Haveria outra razão para Bill insinuar que Obama é menos patriota do que McCain?” – perguntou a colunista. Além disso, Dowd nota a suspeita de democratas da alta hierarquia de que a estratégia dos Clinton, de dividir-e-conquistar, equivale a “ou Hillary ou nenhum democrata”.

Ela cita ainda o que o jornalista Jake Tapper, da ABC, ouviu de um democrata: a campanha dela pode estar considerando uma “opção Tonya Harding” – alusão à patinadora que, ante a certeza de ser incapaz de derrotar a rival Nancy Kerrigan na disputa de uma vaga olímpica, contratou um capanga para quebrar-lhe a perna.

O problema maior, ironiza Dowd, é os Clinton considerarem-se “O Partido Democrata”.

 

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Published in: on março 28, 2008 at 2:51 pm  Deixe um comentário  

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