Iraque, terrorismo e a armadilha do 11/9

Não apenas a guerra de Bush no Iraque, mas também sua fantasia da “guerra ao terrorismo” está há muito em xeque. A resposta habitual dele é questionar o patriotismo da oposição e acusar seus críticos democratas de serem fracos diante das ameaças e até de se aliarem ao inimigo. Vale lembrar o que já disse Robert Pape, professor da Universidade de Chicago e autor do livro Dying to Win – The Strategic Logic of Suicide Terrorism (Morrendo para vencer – a lógica estratégica do terrorismo suicida).

Esse cientista político ousa questionar o próprio fundamento da opção antiterrorista de Washington. Como explicou há tempos numa entrevista à Folha de S. Paulo, Bush foi buscar em Israel sua suposta lógica de que o terrorismo suicida resulta de desvio extremista religioso (islâmico), que só pode ser combatido por uma força militar devastadora. O presidente, claro, tinha seus motivos: transferir ao antecessor a culpa pela “fraqueza” que permitiu o 11/9 e assumir a imagem de forte na defesa do país.

Bush insistia, sempre que se aproximava uma eleição, em que só ele é capaz de proteger os americanos contra ataques terroristas. Em meio à histeria patrioteira do 11/9, a grande mídia do país (inclusive o New York Times, jornal mais influente dos EUA) e até a oposição caíram na armadilha. O que faz o professor Pape é remar contra a maré, expondo a lógica estratégica que destrói o raciocínio enganoso que o presidente ainda teima em vender ao país.

Fazendo o país morrer de medo

De um americano culto que acompanha os fatos do país e do mundo, ouvi uma pergunta que costuma neutralizar o bom senso: “Você quer o quê? Que a gente seja atacado e ainda converse com os malucos? Aí atacariam de novo? Temos é de arrasá-los”. É essa, precisamente, a linha bushista imposta nos últimos sete anos e que Pape reduz a pó em seu livro Dying to Win.

De fato o raciocínio extremista de Bush e do Estado de Israel, que ajuda a igualar os que pensam assim aos mesmos que eles chamam de “malucos”, disseminou o medo e o pânico na meia década que se seguiu ao 11/9. Para Bush, que sequer fora o mais votado na eleição de 2000, isso ajudou na campanha de 2004 – graças a uma histeria associada à falsa imagem dele próprio, fujão do Vietnã, como “herói de guerra”.

Mas terá aumentado a segurança do país e dos americanos? Dificilmente, como fica claro a cada nova revelação de complô extremista (como aquele em Londres, cujo alvo principal era, outra vez, o território dos EUA). Mas antes tanto a mídia como o Partido Democrata estavam imobilizados pela armadilha pós-9/11 de Bush, agora conseguem encarar as verdades expostas pelo professor Pape em seu livro.

O autor reafirmou à Folha – com base no estudo das ações terroristas e do perfil de 460 terroristas – que 95% dos ataques tiveram motivação nacionalista ou secular. Apenas 5% foram de cunho religioso, o que pode ocorrer em qualquer tipo de ataque, não só suicida. E o grupo que mais praticou atentados suicidas no mundo foi o dos Tigres Tâmeis do Sri Lanka – marxistas-leninistas e não muçulmanos.

Os casos al-Qaeda e Hezbollah

Todos os líderes da rede terrorista al-Qaeda, segundo Pape, já deixaram claro que querem liberar territórios ocupados por forças ocidentais e regimes locais aliados delas. “Não se trata de motivação religiosa, mas territorial ou política. No 11 de setembro, os EUA tinham tropas na Arábia Saudita. Líderes dos ataques terroristas de Londres também deixaram claro que queriam o fim da ocupação do Iraque”.

Pape referiu-se ainda aos militantes do Hezbollah: nos anos 1990, quando Israel ocupava o Sul do Líbano, eles mataram 700 israelenses. Entre 2000 e julho de 2006 (época em que ele deu a entrevista), Israel tinha estado fora do Líbano e apenas 11 israelenses foram mortos – todos soldados – e mesmo assim, nas fazendas de Shebaa, área ainda sob ocupação israelense.

“O ataque contra os militares israelenses, que serviu de detonador do conflito, é algo comum onde há tensão fronteiriça, em várias partes do mundo”, disse na ocasião. “Com a nova ocupação, mais de 100 israelenses já foram mortos. Então, é óbvio que o melhor para os israelenses é não ocupar o Líbano. E o mesmo se aplica aos territórios palestinos”.

Além dessa verdade de que terrorismo suicida não é primariamente um produto do fudamentalismo islâmico, Pape expôs mais fatos no livro: ataques suicidas ocorrem como parte de campanhas coerentes organizadas por grandes organizações com significativo apoio público; toda campanha de terrorismo suicida costuma ter objetivo claro, secular e político – o de forçar uma democracia moderna a retirar forças militares de territórios encarados como pátria pelos terroristas.

Como restaurar o bom senso

O cientista político americano também observa que, apesar da retórica das democracias, inclusive os EUA, elas em geral fazem concessões aos terroristas suicidas. Se o terrorismo suicida é uma forma de luta em ascensão no mundo, isso se deve justamete ao fato de que os terroristas aprenderam que costuma ser eficaz.

Para Pape, a rede al-Qaeda enquadra-se no padrão estudado por ele. Embora a Arábia Saudita não esteja sob aberta ocupação militar americana, o grande objetivo da rede ali é a expulsão das tropas dos EUA da região do Golfo Pérsico. Assim, os ataques de adeptos de Osama bin Laden nesse país e na região como um todo têm sido contra militares americanos.

A conclusão, para mim, é óbvia. Está errado o rumo do governo Bush em relação ao terrorismo, mas não será mudado enquanto continuar o atual grupo detentor do poder, já que serve a ele política e eleitoralmente. Ao contrário de Israel, que a cada dia vê a situação ficar pior, os americanos comuns tendem a tomar consciência dessa realidade. Assim, quando o bom senso prevalecer, a arma do terrorismo suicida deixará de ser necessária.

 

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Published in: on março 26, 2008 at 11:06 am  Deixe um comentário  

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