Bush, Blair e a grande farsa

Ainda a propósito do 5° aniversário da guerra de Bush no Iraque, vale lembrar que mesmo depois de confirmada pelas equipes de inspetores da CIA (lideradas por David Kay e Charles Duelfer) a inexistência das ADM (armas de destruição em massa) invocadas como pretexto para o “ataque preventivo”, a grande mídia dos EUA – submissa desde o início, por omissão ou cumplicidade – continuou a acobertar a mentira.

Manteve tal posição depois do relatório de Kay, que ainda deixava alguma dúvida (leia aqui a análise inicial do The New York Times), e em seguida aos dois relatórios minuciosos de Duelfer, já então conclusivos, pois confirmaram as suspeitas negativas sem nada acrescentar em contrário (leia a cobertura posterior do mesmo Times). Isso ajudou Bush a enganar os americanos na eleição de 2004. A mesma mídia não quis acordar para a fraude nem após ser revelado na Grã-Bretanha o memorando secreto sobre o encontro Bush-Blair de janeiro de 2003.

Só três anos depois, a 27 de março de 2006, quando mais de 2.400 soldados americanos já tinham morrido na guerra de Bush (hoje os mortos são 4.000, fora os 30 mil aleijados, sem pernas ou braços, transformados em deficientes físicos ou mentais), o New York Times achou afinal que já era tempo de reconhecer o memorando britânico que escancarou a fraude das ADM como pretexto fabricado pelo governo Bush.

Entre a fantasia e a realidade

Enquanto fingia que o memorando não existia, a imprensa americana abraçava a fantasia bushista de que o presidente “acreditava sinceramente” nas ADM – e que, além dele, também o antecessor Clinton e outros países, até a ONU, estavam convencidos disso. Na verdade, nenhum país acreditou de fato na lorota. Eles e a ONU prontificavam-se a apurar as denúncias dos EUA, sem conseguir confirmá-las.

O governo Bush, que exorcizava quase toda ação do antecessor, repetiu com insólita insistência ter sido Bill Clinton e não Bush o presidente que assinou a lei na qual foi declarada a política pela “mudança do regime” do Iraque. De fato, Clinton caíra na armadilha neoconservadora. Os neocons, usando o Congresso de maioria republicana, aprovaram a lei; e o enfraquecido Clinton, sem maioria no Congresso, não ousou vetá-la.

Em outros países, a maioria das agências de inteligência questionava a fantasia das ADM, mas aqui e ali houve relatórios que consideraram a hipótese – em geral após o recebimento de documentos disseminados pelos EUA. Na ONU, o inspetor-chefe Hans Blix levava a sério cada informação do governo Bush; mas enviava a equipe de inspeção aos locais citados sem comprovar a autenticade de qualquer denúncia.

O Times e o memorando

Estranho mesmo foi a submissão da grande mídia das corporações ao optar pela fantasia bushista – usando gente leviana como Judith Miller como receptadora de vazamentos (hoje é sabido terem sido falsificações dos neocons do Pentágono). Iam para as primeiras páginas como furos de reportagem. O furo de verdade viria em 2006, na imprensa londrina: o memorando secreto de Downing Street.

Diante do documento, até o Times nova-iorquino hesitou nos EUA. Só o reconheceu com meses de atraso (leia a queixa do colunista Paul Krugman, no mesmo Times). A reportagem do dia 27 de março de 2006, assinada pelo correspondente Dan Van Natta Jr. (leia AQUI), foi enviada precisamente de Londres. Estava em linguagem sóbria e contida, mas deixava claro que ao se reunir a 31 de janeiro de 2003 com Blair na Casa Branca, Bush já tinha decidido invadir o Iraque.

O memorando continha as anotações feitas por David Manning, conselheiro de política externa de Blair, sobre uma reunião de duas horas na Casa Branca. Como já tinha decidido invadir, com ou sem ADM, Bush já rejeitava até a hipótese de se propor uma segunda resolução no Conselho de Segurança da ONU. Alegava que o Iraque já estava avisado, “ou se desarma, ou será invadido”.

Conforme o memorando, a arrogante demonstração de força imperial batizada de “Choque e Horror” já tinha data e hora. Mas Blair ainda insistiria na segunda resolução – com o que apenas forçou Bush a adiar a guerra, de 10 para 19 de março. Ele o fez para a Grã-Bretanha poder engolir a coisa sem mais resistência; paralelamente, continuou o jogo em fevereiro, fingindo que a decisão ainda seria tomada.

Como fabricar provocações

Van Natta contou no “Times” ter analisado, palavra por palavra, as cinco páginas do texto do memorando britânico, que até então a grande mídia dos EUA ainda fingia não existir. Em janeiro de 2003, ao ser redigido, o documento só circulara entre os mais altos assessores de Blair. E a julgar pelo que dizia, ambos – Bush e Blair – estavam certos de que a guerra ia ser um “passeio”.

Mas os dois tinham medo de não serem encontradas as armas inventadas. Tanto que chegaram a pensar em várias provocações. Uma delas consistiria em pintar um avião-espião americano com as cores da ONU na esperança de que fosse atacado pelo Iraque – o que “justificaria” a ação bélica Outra idéia era o assassinato de Saddam Hussein (no texto não fica claro de quem eram as propostas).

Em nenhum momento daquela reunião Bush-Blair um dos dois falou em achar as tais armas de Saddam. Não manifestavam qualquer preocupação com o que seria a suposta ameaça, capaz de justificar a invasão e ocupação de um país. Depois da reunião, diante dos jornalistas, os dois diriam que Saddam era “um perigo” para o mundo e tinha de ser “desarmado”. Só que as armas dele não existiam.

 

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Published in: on março 25, 2008 at 2:17 pm  Comments (1)  

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  1. DITADURA TERRORISTA DO IMPÉRIO DO CAPITAL DISFARÇADA DE “DEMOCRACIA”.
    A Democracia não são apenas as eleições mas também a possibilidade real da maioria absoluta da população decidir, influir e participar. Na realidade não existe modelo autentico de Democracia, pois cada povo busca construir a democracia de acordo as próprias realidades sociais, politicas e econômicas sempre visando a soberania, e independência. Assim sendo, a vontade do povo em forma de Democracia acontece quando dezenas de milhões de pessoas chegam a conclusão de que não se pode continuar a viver assim, e desta forma escolhem o caminho da Revolução Social de Libertação Nacional. Os Estados Unidos da América que se julgam os “campeões” de “Democracia” por exemplo nada mais são do que uma Ditadura Imperialista do Capital Monopolista, ditadura que não permite nenhuma ameaça ao seu domínio, e não pode ser contrariada e nem ter oposição. A dita “Democracia” nos Estados Unidos da América não passa de uma grande fraude um engodo, uma farsa, um faz-de-conta apenas para dizer e enganar. Toda ruidosa propaganda de “Democracia” nos Estados Unidos da América não é senão uma capa fina por traz do qual fica cada vez mais difícil de não esconder a Grande Ditadura Imperialista do Capital. Os Imperialistas dos EUA usam de estratégia as duas palavras consideradas chave “Liberdade” e “Democracia” que quando usadas não passam de “fachada” apenas justificar todos os atos e ambições Imperialistas. Existem nos Estados Unidos apenas dois partidos grandes que se revezam no poder a anos. O Partido Democrata e o Republicano que são partidos do Grande Capital Monopolista e um pelo outro é a mesma coisa não acrescentam em nada, simulam que fazem oposição um ao outro, são farinha do mesmo saco, é como trocar seis por meia dúzia, contribuem sobremaneira para diminuir a influência de outros partidos, ajudam a manter o povo prisioneiros na Ideologia da Burguesia. Os eleitores são enganados de forma eficaz ao pensarem que votando em um ou outro desses dois partidos haverá mudanças mas nada acontece, basta observar o que ocorre na politica dos Estados Unidos da América quando ficam criando pretextos para dominar o mundo através da força bruta , belicista, agressiva e terrorista. Os dois partidos que tem grande espaço nos meios de Comunicação Social e nas Agências de Publicidade e é exatamente essas que se encontram sob o domínio da classe dominante.
    É bem verdade que nos EUA existem outros partidos mas que não tem a mínima chance de concorrer com esses dois, isso porque a Legislação dos EUA dificulta no máximo a participação de outros partidos nas eleições inventando inúmeros subterfúgios e obstáculos jurídicos entre eles por exemplo, a necessidade de recolherem muito milhares de assinaturas num prazo curto realizada em presença de testemunhas e registradas notoriamente a obtenção de Licenças para os coletores de Assinaturas,etc. E mesmo se os outros partidos conseguirem vencer todas as barreiras, as comissões eleitorais privam-nos frequentemente da possibilidade de participarem nas eleições sob o pretexto de as “assinaturas serem ilegíveis” ou outro qualquer pretexto inventado. O povo de cada país tem direito de lutar pela sua Libertação Social e Nacional . Alguns países que tentam tornar-se livres, soberanos e independentes e que seguem o caminho na construção do desenvolvimento, conforme a sua realidade politica e social, o governo se não fizer o que os americanos querem , esse governo é rotulado de Ditadura pelo Império. Os americanos tentam de todas as formas se passarem por “Paladinos” da “Liberdade” e “Democracia” usam isso como táctica e pretexto para invadir países que não queiram ficar sob seu controle. Os Imperialistas dos EUA invadem países soberanos para se apossarem de suas riquezas naturais, para aumentar seu poderio financeiro, fortalecer sua economia e aumentar sua influência. Os Imperialistas dos EUA que usam de maneira estratégica as duas palavras consideradas chave “Liberdade” e “Democracia” mas se algum povo desejar ser livre, independente e soberano, e optar em construir o seu desenvolvimento à sua realidade politica e social e que para isso venha a contrariar os interesses do Império do Capital, a tão propalada “liberdade” e “Democracia” que o Império tanto afirma defender, deixa logo de existir, e vem golpes, massacres, repressões e guerra.


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