Ted Turner e os pecados da mídia

“Se essas regras estivessem em vigor em 1970 eu não teria podido iniciar a Turner Broadcasting ou, 10 anos depois, lançar a CNN.” Essa afirmação, feita há quatro anos pelo ex-magnata de mídia Ted Turner, num artigo para o Washington Post, ratificou sua frontal oposição às reformas discutidas no governo Bush para beneficiar os cinco impérios de mídia que controlam o que os americanos vêem, lêem e ouvem.

Turner ainda era então o maior acionista da Time Warner (maior dos cinco impérios), por isso ressalvou que falava em seu próprio nome e não pela corporação. Na época estava demissionário da vice-presidência e vendia parte de suas ações. Os cinco impérios de mídia dominantes no mercado estavam unidos num lobby devastador para aprovar o relaxamento das regulamentações ainda em vigor.

Integravam a Comissão Federal de Comunicações (FCC), que discutia e fazia cumprir as regras, três republicanos – todos a favor do relaxamento que favorecia as grandes corporações, entre eles o próprio presidente Michael Powell (cujo pai, Colin Powell, era secretário de Estado depois de ter integrado o conselho da Time Warner) e dois democratas, ambos contrários a boa parte das mudanças propostas.

O debate que nunca houve

Críticos da reforma, dentro e fora da FCC, queriam estender o prazo da decisão além da data fixada antes (2 de junho de 2003), para que o público pudesse tomar conhecimento da questão e se envolver no debate – exatamente o que temiam os grandes impérios e seus aliados, majoritários na comissão. Sob a pressão do governo Bush o prazo foi mantido, mas depois o Senado acabaria por rejeitar parte das propostas.

Entre os piores efeitos estavam o aumento do número de emissoras de TV que uma companhia pode ter e também as restrições que impediam uma corporação de ser dona, no mesmo mercado, de canais de televisão e jornais. Para os críticos da mudança, as restrições da regulamentação ajudavam a garantir tanto a liberdade de expressão como a diversidade cultural e de opiniões.

Turner explicou: “Sob as regras propostas, um jovem empresário de mídia que tente começar não conseguirá comprar uma estação UHF, como fiz. Estarão todas vendidas. E mesmo se o conseguisse, não bastaria. Pois ainda teria de ter boa programação e boa distribuição – ambas controladas pelos conglomerados, que ficam com o melhor e deixam o pior para outros, se é que deixam alguma coisa.”

Com base na sua experiência pessoal, Turner observou ser difícil competir quando seus fornecedores são subsidiárias de seus concorrentes. “Nós compramos a MGM e mais tarde vendemos a Turner Broadcasting à Time Warner, pois ficamos praticamente sem opções. Os grandes estavam ficando maiores. E os pequenos estavam desaparecendo. Tínhamos de ter acesso à programação para sobreviver.”

Coporações não criam, só copiam

Muitas outras companhias independentes de mídia, segundo o fundador da CNN, foram engolidas pela mesma razão – porque não tinham tudo o que precisavam, enquanto seus competidores tinham. O novo clima tende a encorajar ainda mais fusões e será ainda mais hostil às empresas menores, segundo advertiu o criador da CNN.

“Sem as pequenas companhias, perdem-se grandes idéias”, argumentou, lembrando o início de sua empresa. Nenhuma grande corporação ousara antes de Turner, fora do eixo dominante Nova York-Los Angeles, criar uma rede de TV dedicada 24 horas por dia ao jornalismo, hoje uma idéia copiada em toda parte e explorada nos EUA por três impérios gigantes (Time Warner, Fox e GE-NBC).

Ele também destacou que grandes corporações evitam riscos e confundem lucro a curto prazo com valor a longo prazo. Além disso, matam a programação local, por ser onerosa, e impingem a nacional, barata, ainda que vá contra os interesses locais e os valores da comunidade. E em vez de idéias novas, arriscadas, seus executivos preferem esperar e depois copiar e imitar a pequena que ousou e teve êxito.

Cobertura da guerra, o exemplo

“E se pequenas empresas desaparecem, de onde virão idéias novas?” Mesmo “idéias novas para a nossa democracia”, disse Turner, só podem vir da diversidade noticiosa e reportagens vigorosas. E sob as regras anunciadas, haverá mais fusões e notícias compartilhadas – demissão de repórteres ou, em outras palavras, “redução da força de trabalho que nos ajuda a ver os problemas e a pensar nas soluções”.

Turner citou o exemplo da uniformidade da mídia no noticiário do Iraque e a exclusão deliberada em algumas redes das opiniões contrárias à guerra – “como se apenas marginais criticassem a guerra, embora até João Paulo II o tenha feito”. As novas regras da FCC, segundo ele, davam mais poder aos que suprimem idéias e forçavam notícias positivas para ganhar amigos no governo.

Para ele, democracia pressupõe diálogo amplo e, como escreveu Hugo Black na Suprema Corte, “a Primeira Emenda apóia-se na suposição de que a disseminação mais ampla da informação, de fontes diversas e antagônicas, é essencial ao bem estar do público”. Corporações cuja única meta é o lucro – disse Turner – têm de ser forçadas por regras corretas a também servir ao interesse público mesmo quando busca o lucro.

Turner continua ousado mas mudou de vida. Hoje é grande proprietário de terras (em seis estados do país). Numa entrevista à Reuters em setembro de 2006, ele estranhou a obsessão dos EUA contra a pretensão do Irã de ter arma nuclear. “Eles são um país soberano. Nós temos 28 mil bombas. Por que não podem ter 10? Israel tem cerca de 100. A Índia e o Paquistão têm. A Rússia também”.

 

Published in: on março 25, 2008 at 2:40 pm  Comments (1)  

Bush, Blair e a grande farsa

Ainda a propósito do 5° aniversário da guerra de Bush no Iraque, vale lembrar que mesmo depois de confirmada pelas equipes de inspetores da CIA (lideradas por David Kay e Charles Duelfer) a inexistência das ADM (armas de destruição em massa) invocadas como pretexto para o “ataque preventivo”, a grande mídia dos EUA – submissa desde o início, por omissão ou cumplicidade – continuou a acobertar a mentira.

Manteve tal posição depois do relatório de Kay, que ainda deixava alguma dúvida (leia aqui a análise inicial do The New York Times), e em seguida aos dois relatórios minuciosos de Duelfer, já então conclusivos, pois confirmaram as suspeitas negativas sem nada acrescentar em contrário (leia a cobertura posterior do mesmo Times). Isso ajudou Bush a enganar os americanos na eleição de 2004. A mesma mídia não quis acordar para a fraude nem após ser revelado na Grã-Bretanha o memorando secreto sobre o encontro Bush-Blair de janeiro de 2003.

Só três anos depois, a 27 de março de 2006, quando mais de 2.400 soldados americanos já tinham morrido na guerra de Bush (hoje os mortos são 4.000, fora os 30 mil aleijados, sem pernas ou braços, transformados em deficientes físicos ou mentais), o New York Times achou afinal que já era tempo de reconhecer o memorando britânico que escancarou a fraude das ADM como pretexto fabricado pelo governo Bush.

Entre a fantasia e a realidade

Enquanto fingia que o memorando não existia, a imprensa americana abraçava a fantasia bushista de que o presidente “acreditava sinceramente” nas ADM – e que, além dele, também o antecessor Clinton e outros países, até a ONU, estavam convencidos disso. Na verdade, nenhum país acreditou de fato na lorota. Eles e a ONU prontificavam-se a apurar as denúncias dos EUA, sem conseguir confirmá-las.

O governo Bush, que exorcizava quase toda ação do antecessor, repetiu com insólita insistência ter sido Bill Clinton e não Bush o presidente que assinou a lei na qual foi declarada a política pela “mudança do regime” do Iraque. De fato, Clinton caíra na armadilha neoconservadora. Os neocons, usando o Congresso de maioria republicana, aprovaram a lei; e o enfraquecido Clinton, sem maioria no Congresso, não ousou vetá-la.

Em outros países, a maioria das agências de inteligência questionava a fantasia das ADM, mas aqui e ali houve relatórios que consideraram a hipótese – em geral após o recebimento de documentos disseminados pelos EUA. Na ONU, o inspetor-chefe Hans Blix levava a sério cada informação do governo Bush; mas enviava a equipe de inspeção aos locais citados sem comprovar a autenticade de qualquer denúncia.

O Times e o memorando

Estranho mesmo foi a submissão da grande mídia das corporações ao optar pela fantasia bushista – usando gente leviana como Judith Miller como receptadora de vazamentos (hoje é sabido terem sido falsificações dos neocons do Pentágono). Iam para as primeiras páginas como furos de reportagem. O furo de verdade viria em 2006, na imprensa londrina: o memorando secreto de Downing Street.

Diante do documento, até o Times nova-iorquino hesitou nos EUA. Só o reconheceu com meses de atraso (leia a queixa do colunista Paul Krugman, no mesmo Times). A reportagem do dia 27 de março de 2006, assinada pelo correspondente Dan Van Natta Jr. (leia AQUI), foi enviada precisamente de Londres. Estava em linguagem sóbria e contida, mas deixava claro que ao se reunir a 31 de janeiro de 2003 com Blair na Casa Branca, Bush já tinha decidido invadir o Iraque.

O memorando continha as anotações feitas por David Manning, conselheiro de política externa de Blair, sobre uma reunião de duas horas na Casa Branca. Como já tinha decidido invadir, com ou sem ADM, Bush já rejeitava até a hipótese de se propor uma segunda resolução no Conselho de Segurança da ONU. Alegava que o Iraque já estava avisado, “ou se desarma, ou será invadido”.

Conforme o memorando, a arrogante demonstração de força imperial batizada de “Choque e Horror” já tinha data e hora. Mas Blair ainda insistiria na segunda resolução – com o que apenas forçou Bush a adiar a guerra, de 10 para 19 de março. Ele o fez para a Grã-Bretanha poder engolir a coisa sem mais resistência; paralelamente, continuou o jogo em fevereiro, fingindo que a decisão ainda seria tomada.

Como fabricar provocações

Van Natta contou no “Times” ter analisado, palavra por palavra, as cinco páginas do texto do memorando britânico, que até então a grande mídia dos EUA ainda fingia não existir. Em janeiro de 2003, ao ser redigido, o documento só circulara entre os mais altos assessores de Blair. E a julgar pelo que dizia, ambos – Bush e Blair – estavam certos de que a guerra ia ser um “passeio”.

Mas os dois tinham medo de não serem encontradas as armas inventadas. Tanto que chegaram a pensar em várias provocações. Uma delas consistiria em pintar um avião-espião americano com as cores da ONU na esperança de que fosse atacado pelo Iraque – o que “justificaria” a ação bélica Outra idéia era o assassinato de Saddam Hussein (no texto não fica claro de quem eram as propostas).

Em nenhum momento daquela reunião Bush-Blair um dos dois falou em achar as tais armas de Saddam. Não manifestavam qualquer preocupação com o que seria a suposta ameaça, capaz de justificar a invasão e ocupação de um país. Depois da reunião, diante dos jornalistas, os dois diriam que Saddam era “um perigo” para o mundo e tinha de ser “desarmado”. Só que as armas dele não existiam.

 

Published in: on março 25, 2008 at 2:17 pm  Comments (1)