Antes de Saddam virar bicho-papão

Grã-Bretanha e Israel a favor de intervenção dos EUA no Iraque; França e Alemanha contra. O presidente dos EUA pressiona e acusa o presidente do Iraque de ser um ditador sanguinário. Agentes da CIA no Cairo, Damasco, Teerã e Bagdá orientam opositores ao regime do Iraque, instalam base de operações no Kuwait, interceptam as comunicações do governo e despacham ordens aos rebeldes.

Política para mudar o regime do Iraque há cinco anos, em março de 2003? Não. Política para mudar o regime 40 anos antes, em 1963. O presidente dos EUA era John Kennedy. Tinha herdado a lambança do antecessor Dwight Eisenhower. O presidente do Iraque, Abdel Karim Kassem, general que derrubara a monarquia cinco anos antes e ameaçava interesses petrolíferos anglo-americanos, além de brigar com o Kuwait e comprar armas, de olho no crescente poderio militar de Israel.

O paralelo foi feito às vésperas da guerra de 2003, em artigo no New York Times, pelo escritor Roger Morris, autor de biografia do presidente Richard Nixon e então dedicado a um livro sobre a política clandestina dos EUA no Centro e Sul da Ásia. (Veja o texto do TIMES). O detalhe significativo é que entre os conspiradores apoiados pela CIA estava Saddam Hussein, cujo Partido Baath tomaria o poder em 1968 e o faria presidente mais tarde.

Para Kennedy, foi “um ganho”

Entre 1958 e 1960 o governo Eisenhower tinha apoiado o regime repressivo de Kassem na esperança de contrapo-lo ao egípcio Gamal Abdel Nasser, então o bicho-papão encarado como ameaça maior aos interesses anglo-americanos na região. Kassem passara a ser visto em Washington como líder perigoso que tinha de ser derrubado porque desafiava abertamente a posição dominadora dos EUA no Oriente Médio.

O papel dos EUA no golpe de 1963, segundo Morris, foi pouco notado à época, mas ficou claro em investigação posterior do Senado americano e em trabalhos de jornalistas e historiadores como David Wise, autoridade em CIA. Depois de Kassem ser deposto e executado, em seguida a julgamento sumário, um assessor do Conselho de Segurança Nacional, Robert Komer, escreveu a Kennedy: “Um ganho para o nosso lado”.

Morris integrava o mesmo Conselho de Segurança Nacional (nos governos Johnson e Nixon) e ali ouviu autoridades da CIA gabarem-se das relações estreitas com o Partido Baath, facção política relativamente pequena, mas influente no Exército. Talvez por isso a CIA tenha apoiado o golpe baathista de 1968, que deixou Saddam – que estivera exilado no Egito por participar de atentado contra Kassem – às portas do poder.

A visita de Rumsfeld em 1983

À frente do Pentágono, como secretário da Defesa pela segunda vez, veterano de batalhas políticas e burocráticas, Donald Rumsfeld aos 71 anos era em 2003 o mais importante falcão-residente do governo Bush. Tão experiente que coubera a ele 20 anos antes (1983) apertar a mão de Saddam Hussein (já ditador e já usando armas químicas e biológicas) em Bagdá, para reatar as relações diplomáticas dos EUA com ele. (A foto histórica do aperto de mão pode ser vista AQUI no website do National Security Archive). 

Antes, Rumsfeld tinha atuado na política (assistente parlamentar a partir de 1957, depois deputado oito anos por Illinois, até 1969) e servido a dois governos, dos presidentes Richard Nixon (como assessor na Casa Branca) e Gerald Ford (assessor e depois secretário da Defesa), acumulando experiência ainda na área empresarial – como alto executivo de grandes corporações.

Falcão impenitente e ambicioso, vivera na cúpula do governo a transição da guerra fria para o tempo do que os EUA chamaram de “estados delinqüentes” (rogue), sem jamais se desviar da meta de aumentar os orçamentos militares, criar e modernizar os sistemas de armas. Rumsfeld dedicava-se à “nova estratégia militar para o século 21” quando veio o 11 de setembro de 2001.

Apesar de ter liderado a aproximação com Saddam (o Irã era o inimigo comum de Washington e Bagdá), a figura do ditador tornou-se depois quase uma obsessão. E em seguida ao 11/9, mesmo depois de receber os dados de inteligência (a informação de que os ataques terroristas eram obra de Osama Bin Laden) mandou um assessor colocar Saddam como próximo alvo, ao lado de Bin Laden.

O pior chefão do Pentágono

Nos dias e semanas seguintes o vice Dick Cheney declarou não haver ligação entre o fundamentalista fanático e o governo secular de Bagdá, mas Rumsfeld insistiu – e deu força no Pentágono ao adjunto Paul Wolfowitz, partidário da tese, e ao conselheiro Richard Perle, diretor do escritório de política de defesa, entregando-se à campanha pública de ataques ao Iraque e demonização de Saddam.

A primeira paixão de Rumsfeld ao voltar ao Pentágono pelas mãos do presidente George W. Bush fora a reativação do sistema de defesa antimísseis – abandonado pelo governo Clinton devido ao fim da URSS. Conseguiu o objetivo mesmo depois que o terrorismo – e não uma potência com foguetes sofisticados e ogivas nucleares – revelou-se a ameaça imediata.

Rumsfeld era coerente com seu pensamento estratégico: em 1998, no segundo mandato de Clinton, a comissão independente Painel sobre Sistemas Estratégicos, para a qual Reagan nomeara Rumsfeld ainda na década de 1980, publicou seu relatório sobre o futuro dos mísseis balísticos e considerou mais grave do que se pensava a “ameaça crescente de países como Coréia do Norte e Irã.

Na carreira empresarial, ele integrou a cúpula de corporações como Aerospace, G. C. Searle, Tribune Co., General Instruments, Gilead Sciences, Amylin, Allstate, Sears, Kellogg, Asea Brown Boven. Após a demissão no Pentágono (2006), foi para a Hoover Institution, em Stanford (2007). Além de ter sido o mais novo (em 1974) e o mais velho (2006) secretário da Defesa, foi ainda o mais controvertido na história do país.

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Published in: on março 22, 2008 at 6:37 pm  Comments (1)  

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  1. saddam hussein


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