O escândalo A-12 e o aviso de Eisenhower

A decisão do Pentágono de cancelar o contrato para a construção do controvertido bombardeiro A-12, o Stealth, surpreendeu os americanos em janeiro de 1991, mas era apenas mais um episódio no permanente escândalo de corrupção produzido pelo chamado complexo industrial-militar – para o qual o presidente Dwight Eisenhower chamara a atenção do país ao deixar a Casa Branca 30 anos antes.

O A-12 era construído por dois gigantes da indústria bélica – a McDonnell Douglas e a General Dynamics. Ao ser cancelada a encomenda (iniciativa do então secretário da Defesa Richard Cheney) as duas já tinham consumido mais de US$ 1 bilhão além do orçamento original do contrato. A Douglas e a General Dynamics descumpriram todos os prazos e preços mas até então o governo vinha tolerando a situação, provavelmente porque já investira dinheiro demais.

A decisão significou enorme prejuízo ao contribuinte. E ficou a dúvida se seria o fim de escândalos assim (não foi). O caso era típico: os fornecedores do Pentágono apresentavam orçamento deliberadamente baixo para aprovar o projeto no Congresso e ajustavam os custos nos meses e anos seguintes, quando gastos exorbitantes já tinham sido feitos, tornando impossível um recuo.

Sinistra aliança de interesses

No seu discurso de despedida da presidência, em 1961, o general Eisenhower – um dos mais ilustres chefes militares da história do país, ex-comandante supremo das forças aliadas na II Guerra Mundial e ex-chefe do Estado Maior Conjunto – tinha alertado os americanos para a ameaça da conjugação de interesses entre o Pentágono e as grandes corporações. (Segundo historiadores, o texto original incluía ainda o Congresso, através de parlamentares ligados à indústria armamentista.)

Conhecedor profundo da atividade militar e dos bastidores do Pentágono, Eisenhower acostumara-se relutantemente – a julgar por aquele discurso – à promiscuidade nas relações entre civis e militares dos escalões superiores do Pentágono, os altos executivos da indústria armamentista e certas personalidades do Congresso. Passou a ver nessa conjugação de interesses também uma ameaça à paz mundial.

Ironicamente, Eisenhower era republicano, fora eleito pelo partido do “big business”. Vinte anos depois, outra dupla de republicanos, Ronald Reagan e George Bush (o pai), iniciaram uma era de desregulamentação que contribuiria ainda mais para agravar a ameaça que tinha assustado o general vitorioso do desembarque na Normandia.

Às vésperas das eleições de 1988, por isso mesmo, um dos temores do candidato Bush era precisamente que os adversários democratas explorassem a sucessão de escândalos de suborno, fraude e corrupção que abalou o Pentágono durante os oito anos do mandato de Reagan. Mas a oposição democrata foi incompetente nesse campo. Escândalos daquele tipo continuariam a freqüentar as manchetes.

A conspiração dos poderosos

Altas autoridades, empreiteiras, fornecedores, consultores, parlamentares etc. Na generalizada promiscuidade, destacavam-se em papel relevante chefes militares que ajudam determinadas corporações para, nos anos seguintes, assumirem nelas funções no nível mais elevado. Os exemplos são sempre numerosos.

As corporações buscam militares do Pentágono não apenas pelos conhecimentos especializados, mas também pelos contatos muito convenientes que eles conservam na burocracia do departamento, garantindo concorrências, revisão de preços e prazos, pagamentos etc. E, freqüentemente, de forma pouco ortodoxa.

Um personagem exemplar foi o general Alexander Haig. Após ocupar postos importantes na Casa Branca (chefia de gabinete do presidente, Conselho de Segurança Nacional), no Pentágono (chefe do Estado-Maior Conjunto) e outros, ele ganhou a presidência da General Dynamics (a mesma do A-12), de onde sairia para se tornar secretário de Estado de Reagan. A porta de vai-e-vem entre cargos oficiais e a cúpula das corporações traz graves prejuízos para o contribuinte, sugerindo promiscuidade alimentada por suborno.

O maior comprador do mundo

Dos 100 maiores conglomerados americanos em 1991, pelo menos 50 estavam entre as empresas que mais recebiam recursos do Pentágono – considerado nos meios empresariais o maior comprador de produtos e serviços do mundo. Em 1986, sexto ano do mandato de Reagan, 45 das 100 maiores fornecedoras de armas foram investigadas criminalmente nos EUA.

Entre elas estavam tanto a General Dynamics como a Douglas. E mais: Boeing, Rockwell, General Electric, Lockheed, Grumman, United Technologies, Hughes, Martin Marietta, Electric Boat etc. (obviamente, depois houve muitas compras e fusões entre elas). Mas o pior naquilo que Eisenhower chamou de complexo militar-industrial é que as onerosas e sofisticadas equipes de pesquisa, como os importantes parques industriais dependem da continuidade dos contratos com o Pentágono.

Com o cancelamento do contrato do A-12 as ações da Douglas despencaram e a General Dynamics demitiu em massa. As duas, como as demais que negociam com o Pentágono, trabalhavam em regime frenético: terminado um sistema de armas, passavam a outro. Elas sobrevivem graças ao desenvolvimento contínuo dos arsenais. O fim da guerra fria não tirou o sono delas. Socorridas por Bush I (hoje na cúpula do grupo Carlyle, que controla várias), já faturam bilhões com a retomada (com Bush II) da Guerra nas Estrelas de Reagan (a pretexto de deter a “ameaça” do Irã).

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Published in: on março 21, 2008 at 1:27 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Jornalista Argemiro Ferreira, sou seu velho leitor e, possuindo o GRUPO NOVO MUNDO, pergunto-lhe se posso repassar os seus textos no meu Grupo e outros que colaboro com repasses: Boca no Trombone e 3Setor.Este possui mais de 15 mil leitores. Ninguém paga ou recebe nada.É, tão somente, vontade de mandar para amigos e leitores, textos HONESTOS como os seus, desengajados dessa mídia terrorista,desonesta e leiloada na base do “quem paga mais”. Caso você permita o repasse, com os devidos créditos, antecipo meus agradecimentos. Se não permitir, você não perderá este leitor. Direi para mim as palavras ditas pelo Reitor da Universidade do Chile aos beleguins pinocheteanos: entendo, acato e lamento…e entregou a “chave” da Universidade. Um tríplice abraço do Abelha

  2. Com prazer, caro Abelha.


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