Ainda os espiões de Bush na ONU

No artigo de terça-feira, 18 (“Os espiões de Bush na ONU”), faltou dizer que houve investigação de alto nível (mas inócua) na ONU para apurar a espionagem dos EUA (sobre diplomatas de países do Conselho de Segurança) às vésperas da invasão do Iraque, em março de 2003. Com a ação dos espiões, noticiada no exterior e omitida na mídia americana, o propósito do governo Bush era ganhar a votação no Conselho – o que não aconteceu.

A FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”), organização que monitora a mídia pela esquerda, criticou na época a omissão dos jornais e redes de TV dos EUA. A informação saíra domingo, 2 de março de 2003, no Observer de Londres, que reproduziu documento interno no qual a secretíssima NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) ordenava a intensificação da espionagem.

O Washington Post e o Los Angeles Times foram os únicos a se referirem ao assunto nos EUA – assim mesmo, apenas dois dias depois, a 4 de março, e por ter sido feita uma pergunta sobre o tema na sala de imprensa da Casa Branca. O então porta-voz, Ari Fleisher, limitou-se a alegar que a política oficial do governo era não comentar – nem negar, nem confirmar – fatos que envolvam operações de inteligência.

Búlgaro gosta de ser espionado

O New York Times sequer publicou a resposta de Fleisher, enquanto os dois jornais de Washington e Los Angeles a citavam em textos nos quais consideravam o assunto sem relevância, já que “é sabido” serem os diplomatas da ONU alvo da espionagem dos EUA. Havia nos artigos frases como “é rotina”, “vem com o território”, “seria ingenuidade alguém achar isso novidade”.

A reação mais insólita registrada pelo Los Angeles Times foi a do embaixador Stefan Tavrov, da Bulgária, favorável ao governo Bush e à invasão do Iraque. “Eu me sentiria até ofendido se não me grampeassem”, disse o idiota. Outros países não acharam divertida a revelação do Observer. O embaixador chileno Cristian Maquieira, por exemplo, considerou o caso “grave” e até “ultrajante”.

Segundo a FAIR, o então presidente do Chile, Ricardo Lagos, exigiu explicação ao primeiro-ministro britânico Tony Blair, pois o memorando interno da NSA também se referia a uma agência de espionagem “amiga” – obviamente, da Grã-Bretanha – que participara da operação dos EUA. Os alvos principais da interceptação de comunicações eram os diplomatas do Chile, Angola, Camarões, Guiné, Paquistão e México.

“Não vem com o território”

O paradoxo, disse a FAIR, é que a Casa Branca pedira a mais de 60 países para expulsar centenas de diplomatas do Iraque considerados pela CIA (central de inteligência dos EUA) suspeitos de espionagem. E menos de duas semanas antes, a missão americana na ONU expulsara Mohammad Hassan Allawi, correspondente na ONU da agência iraquiana INA. Essas duas notícias saíram no New York Times, que omitiu a outra.

Também vale a pena lembrar que, como país anfitrião da ONU, os EUA não têm o direito de espionar (sugestão contida na frase “vem com o território”, usada por um diplomata). Ao contrário, obrigaram-se no acordo de sede – assinado com a ONU, para a organização funcionar no seu território, em Nova York – a cumprir obrigações e deveres ali especificados.

Pelo artigo IV, Seção 11 (c) desse acordo, conforme lembrou o então presidente da UNCA (Associação dos Correspondentes da ONU), Tony Jenkins, em carta ao secretário de Estado Colin Powell, os EUA não podem criar obstáculos ao livre trânsito, indo ou voltando da sede da organização, de qualquer representante da imprensa acreditado junto à ONU.

A volta da “caça às bruxas”

Para a UNCA, esse dispositivo do acordo de sede foi violado pelos EUA com a carta da missão americana que deu ultimato ao correspondente Mohammad Allawi, da agência iraquiana de notícias, para abandonar o país. Se achavam que havia abuso da parte dele, com “atividades fora de sua capacidade oficial”, teriam de cumprir as formalidades previstas no acordo.

É o que dispõe o Artigo IV, Seção 13 (b), conforme a carta de Jenkins. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, teria de ser avisado e, nesse caso, estar presente aos procedimentos, em nome da pessoa que era alvo da ação do país anfitrião (Allawi). Ao contrário disso, sequer foi dado ao jornalista o direito de conhecer as acusações, muito menos o de ver as provas existentes ou confrontar seus acusadores.

A conduta adotada fora a do tempo da caça às bruxas. Só pelos jornais – “em notícias sem citação de fonte, material de terceira mão”, como escreveu Jenkins a Powell – Allawi soube que era acusado de “espionar para o governo do Iraque” (o que foi dito no Washington Post, citando fonte anônima). É óbvio que o jornalista poderia até criar incidente internacional, pois a ONU manteve seu credenciamento como correspondente.

 

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Published in: on março 20, 2008 at 1:30 pm  Deixe um comentário  

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