Repúdio unânime na OEA à trama de Bush

Foi contundente a derrota dos EUA na Organização dos Estados Americanos – comparável à da crise das Malvinas, quando a delegação americana ficou isolada contra o resto do continente. Desta vez só restou ao governo Bush, isolado, engolir a resolução rejeitando a Colômbia (pela invasão do Equador). Contraditoriamente, ao votar a favor da resolução os EUA (sem qualquer respaldo) disseram discordar do ponto central, por achar que a Colômbia agiu “em legítima defesa”.

Em sua análise, a agência Bloomberg citou Susan Purcell, diretora do Centro para a Política Hemisférica da Universidade de Miami. Ela expôs o desapontamento dos EUA com o resultado da reunião – uma vitória política do presidente da Venezuela, segundo afirmou, porque a resolução concentrou-se na Colômbia e ignorou a alegação do regime de Bogotá sobre suposto apoio de Hugo Chávez às FARC.

Para Purcell, a resolução da OEA limitou-se a dizer que o acampamento guerrilheiro no Equador “parecia” ser instalação permanente. Mas a organização regional, tantas vezes manipulada por Washington no passado recente, agora “deixou basicamente a Colômbia como única culpada” no episódio. E prevaleceu a imagem de Álvaro Uribe, presidente colombiano, como mero títere do governo Bush.

Nada de Israel no continente

Havia um texto de resolução ainda mais duro contra a Colômbia – e já com o apoio de 12 países da OEA. Os EUA recorreram ao México para buscar amenizá-lo. Assim, em nome do consenso tirou-se a palavra “condenação”, mas ficou suficientemente explícita a rejeição à arrogância militar colombiana ao invadir o país vizinho – o que em parte frusta o plano bushista de manter Uribe como seu Ariel Sharon sul-americano.

Para marcar posição os EUA, ao mesmo tempo em que aprovavam o documento, disseram (certamente por terem induzido Uribe à loucura da violação da fronteira) não aceitar o artigo sobre a agressão da Colômbia. Esta, por sua vez, jurou não mais invadir seus vizinhos. Comprometeram-se ao mesmo tempo os países-membros da OEA ao óbvio: continuar o esforço que já faziam contra ameaças à segurança por “grupos irregulares”, em especial narcotraficantes.

De novo a política externa do Itamaraty – que horroriza a grande mídia brasileira dedicada ao esforço permanente contra o governo Lula – desempenhou com eficácia e bom senso o seu papel de liderança. E impediu que se concretizasse a obsessão bushista de impor, também do lado de cá do mundo, a doutrina israelense-americana do “ataque preventivo”, desafio ao direito internacional e à soberania de países sem poderio bélico.

A dura resposta de Amorim

O trabalho desenvolvido pelo ministro do Exterior Celso Amorim repetiu o que ele próprio fizera com sucesso na conferência da OEA (maio de 2005) em Fort Lauderdale – quando desarticulou num par de horas, com apoio do continente, a trama bushista que criaria mecanismo intrusivo para a organização regional meter-se na política interna dos países, a pretexto de “monitorar” as democracias.

Na ocasião, o ardil fora conduzido por Roger Noriega (depois defenestrado do Departamento de Estado). Acabou desmontado por Amorim antes mesmo da chegada da secretária Condoleezza Rice e do presidente Bush. Estes perceberam, no desdobramento, que o melhor a fazer era fingir que nada tinha acontecido. Antes, como agora, o alvo dos EUA era a Venezuela de Hugo Chávez.

Na maquinação desta semana o pretexto, para variar, foi a obsessão de Bush, manipulada desde o 11/9: terrorismo. Mas Amorim mandou seu recado: o Brasil e os demais países da OEA já cooperam no combate ao terrorismo e a outras ações criminosas. E ninguém pretende fazer o jogo bushista, transformando em guerra santa a luta antiterrorista e liquidando todos os princípios do direito internacional.

Na reunião encerrada na manhã de ontem, outras autoridades dos EUA tentaram sem sucesso dobrar os países da OEA, zelosos na defesa de suas fronteiras e soberania. Entre elas o sub-secretário John Negroponte, bem conhecido no continente por ter dirigido nos anos 1980 a guerra secreta da CIA contra a Nicarágua sandinista na fronteira de Honduras; e o atual secretário assistente para assuntos interamericanos, Thomas Shannon.

Sessão nostalgia do golpismo

Negroponte, claro, era personagem conspícuo na equipe bushista da “invasão preventiva” do Iraque, onde foi embaixador antes de voltar a Washington para ascender ao posto máximo da espionagem – Diretor Nacional de Inteligência. Shannon, que estivera antes (não como embaixador) no Brasil e na Guatemala, serve ao governo Bush desde 2001 como “especialista em América Latina”.

Até 2003 ele trabalhou no Departamento de Estado (diretor de assuntos andinos) e depois na Casa Branca (diretor de assuntos hemisféricos no Conselho de Segurança Nacional). Shannon pode ter sido, em 2002, um dos participantes do fracassado golpe da Venezuela, articulado pelo então secretário assistente de Estado para o hemisfério, Otto Reich (cubano de Miami que se reuniu com Pedro Carmona) e Elliott Abrams, ambos atolados antes na lama do escândalo Irã-Contras.

É impressionante a “sessão nostalgia” de golpismo e conspirações dessa gente, cuja obsessão prioritária no continente hoje é usar Uribe para avançar sobre o petróleo da Venezuela e ameaçar o resto da América do Sul. Para tanto, conta com a cumplicidade habitual da grande mídia do continente, sempre pronta a exibir sua devoção aos sucessivos golpes teleguiados pelo império americano em qualquer parte da América Latina.

Anúncios
Published in: on março 19, 2008 at 1:46 pm  Comments (3)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/03/19/repudio-unanime-na-oea-a-trama-de-bush/trackback/

RSS feed for comments on this post.

3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Prezado jornalista:

    Parabéns pelo excelente artigo que esclarece de maneira correta os acontecimentos, muito diferente do que foi mostrado pela grande mídia brasileira, que em sua maioria se especializou em desinformar.

  2. Prezado jornalista:
    Uma análise muito clara dos acontecimentos. A posição do Brasil foi correta. A Colômbia vem sendo usada como ponta de lança dos norte-americanos, que lá estão inclusive com bases militares.

  3. Prezado jornalista:
    A sua análise neste artigo foi exemplar, verdadeira, independente, uma coisa muito rara de ser encontrada em outros jornalistas da grande mídia brasileira.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: