Os espiões de Bush na ONU

Às vésperas da invasão do Iraque, há cinco anos, comentei em artigo enviado de Nova York para o Brasil um escândalo de espionagem na ONU e o papel vergonhoso da mídia dos EUA no caso. A revelação fora feita em Londres pelo Observer: uma operação para grampear diplomatas estrangeiros, em casa e no escritório. Comunicações daqueles que representavam no Conselho de Segurança países inclinados a negar apoio à invasão do Iraque foram interceptadas (conversas, telefonemas, emails, tudo).

Além de escândalo de espionagem, era ainda um escândalo de mídia – decorrente ou da incompetência dos grandes veículos de comunicação dos EUA, ou de sua conduta humilhante ante a intimidação oficial, ou mesmo do exagerado zelo patriótico. Esses três pecados eram identificados desde o 11/9 e levaram muitos americanos a se informarem em veículos de fora, já que a informação correta lhes era sonegada pela grande mídia de seu próprio país.

Além de terem sido de novo superados por correspondentes britânicos, que àquela altura impunham “furos” quase diários (sobre o governo Bush) às gigantescas máquinas de informar dos EUA, os jornalistas americanos tentavam ignorar o assunto – em nova demonstração de patriotada e submissão à Casa Branca. A notícia fora publicada em Londres na manhã de domingo, 2 de março, mas apenas na tarde de segunda-feira um jornalista ousou fazer a primeira pergunta ao porta-voz de Bush.

Esquecendo o próprio passado

A reação inicial do governo Bush fora sórdida: a Casa Branca vazara à coluna online de seu aliado ideológico Matt Drudge a “suspeita” de que a prova publicada no Observer era uma fraude. Alegou, para tanto, que certas palavras do memorando interno da Agência de Segurança Nacional (NSA) transcrito pelo jornal estavam com a grafia britânica e não americana.

Em resposta, o Observer ridicularizou a desculpa e transcreveu em seu “site” na Internet a íntegra do documento com a grafia americana. Explicou que não o fizera antes porque o jornal dirige-se ao público britânico, mas que na própria edição impressa do jornal havia, além da transcrição, a fotocópia do documento original; não deixava qualquer dúvida sobre a autenticidade. Na segunda-feira o assunto foi amplificado na mídia do mundo inteiro. Até no Brasil, que brincava o Carnaval. Menos nos jornais americanos, que fingiram nada saber.

Nem uma linha saiu nos liberais New York Times e Washington Post, tão ousados no passado que tinham apostado corajosamente na publicação dos documentos secretos do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, recorrendo até à Suprema Corte pelo direito de dizer a verdade ao leitor.

O jornalismo contra a notícia

O muro do silêncio e da covardia na mídia americana prevaleceu no domingo (dia dos principais programas políticos da semana nas grandes redes de TV) e na segunda-feira – até o briefing do porta-voz Ari Fleisher à tarde na Casa Branca. Só então veio, afinal, a pergunta em tom tímido de um correspondente da rede ABC, que ouviu resposta reticente, enganosa. “Nada comentamos sobre operação de inteligência”, disse Fleisher.

Mas a iniciativa do repórter da ABC operou o milagre. Na terça-feira, finalmente, pelo menos dois jornais, Washington Post e Los Angeles Times, concluíram que já era tempo de falar no que o resto do mundo sabia desde domingo. O Post, ainda assim, teve o cuidado de esconder a informação numa página interna, a pretexto de ser pouco relevante, já que “é sabido” que os EUA espionam na ONU.

Os dois jornais repetiram então a alegação de Matt Drudge, dois dias antes, de que o documento “podia ser fraude para prejudicar a política de Bush”. Mas o Los Angeles Times não subestimou o caso: admitiu, até no título, que o caso aumentaria os problemas dos EUA para aprovar sua proposta de resolução da guerra no Conselho de Segurança (ironicamente, o objetivo final da espionagem da NSA).

A outra espionagem, sem prova

Houve outra ironia no episódio. A mídia americana achou irrelevante o furo do Observer – a pretexto de que ninguém é ingênuo o bastante para ignorar que os EUA espionam os diplomatas na ONU. Mas os EUA tinham expulsado dias antes o único correspondente da imprensa do Iraque na organização, Mohammad Hassan Allawi, da agência INA. E o que insinuaram? Que ele fazia espionagem.

O jornalista britânico Tony Jenkins, então presidente de nossa associação dos correspondentes da ONU (UNCA), dirigiu carta enérgica ao secretário de Estado Colin Powell para indagar o motivo daquela violência contra a liberdade de expressão. Lembrou que em toda a história da organização jamais – nem na fase aguda da Guerra Fria, quando abundavam os espiões – um jornalista credenciado tinha sido expulso.

Na época conversei com Allawi. Ouvi então que a carta enviada a ele pela missão dos EUA na ONU ordenava a saída do país por ser sua presença “contrária aos interesses dos EUA”. Só depois ele leria no Washington Post que uma fonte anônima alegara ser espionagem o motivo. Mesmo negando, ele foi embora – sem ver uma única e escassa prova. Em compensação, o mundo viu no Observer a prova da espionagem dos EUA, governo que o expulsara. O Post achou perfeitamente normal.

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Published in: on março 18, 2008 at 2:16 pm  Deixe um comentário  

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