Difamação, plágio e a direita ensandecida

Espero que ao final do mandato do presidente Bush algum estudioso de mídia faça um balanço dos escândalos de jornalismo que marcaram seus oito anos. Fui uma das muitas pessoas que acompanharam com interesse tais episódios – alguns dos quais chocantes e talvez sem precedentes. A compra literal de jornalistas para falar bem do governo parecia, em certa época, quase uma rotina.

Frank Rich, colunista do New York Times, chegou até a escrever um artigo no início de 2005 com o apropriado título “All the president’s newsmen” (Todos os jornalistas do presidente). Referia-se, entre outras coisas, ao infame caso de Armstrong Williams, desmascarado porque recebia US$ 240 mil do contribuinte para falar bem, em talk shows da TV, sobre o programa educacional de Bush (clique para ler a coluna: Times).

Outro caso infame foi o de um certo “Jeff Gannon”, repentina estrela da sala de imprensa da Casa Branca, tratado com carinho numa coletiva pelo próprio Bush, que o chamou com intimidade de “Jeff”. Ele levantava bolas para o secretário de imprensa cortar. E naquele caso epecífico, deu um passe para o próprio Bush marcar um “gol de letra”. Depois se descobriu que apenas fingia ser jornalista, pois era prostituto profissional num site pornô.

Aquela certeza da impunidade

James D. Guckert, nome verdadeiro do amiguinho presidencial “Jeff”, escrevera em outro site – o ultraconservador Talon News – um artigo com ataques ao então candidato presidencial democrata, sob este título: “Kerry poderá tornar-se o primeiro presidente gay dos EUA”. Depois de Guckert/Jeff veio outro episódio insólito: a demissão do garotão Bob Domenech apenas três dias após estrear no site do Washington Post (leia a explicação do jornal aqui: Post ).

O fato de ter a empresa do Post acolhido, ainda que por tempo mínimo, blog de um extremista de direita de apenas 24 anos, expôs a insanidade daqueles dias no mundo dos blogs e da mídia. Estávamos no início de 2006. Devido à sordidez da campanha eleitoral bushista de 2004, havia muita gente ansiosa por seus 10 minutos de fama via internet.

Domenech praticava excessos de injúria e difamação dignos do mestre Joe McCarthy. Chamou de “comunista” até a viúva de Luther King, Coretta Scott. Por ter conseguido ser, antes, assessor do governo Bush, parecia certo da impunidade. Mas a perda do emprego no Post não foi por causa de tais excessos. Ainda estaria difamando se blogs liberais não tivessem revelado outro de seus hábitos: o plágio.

Ele plagiava regularmente desde 2001, quando escrevia para a National Review Online (NRO), o site da revista da velha direita fundada pelo elegante William Buckley Jr, que morreu no mês passado aos 82 anos. A lição deixada pelo caso Domenech é a mesma do denuncismo na mídia brasileira: acusações sem prova, difamação e injúria, tudo bem; mas cuidado com o plágio: dá demissão.

Lucianne e o complô da direita

Um dos editores da NRO era (ainda é) Jonah Goldberg, que se orgulha da mãe Lucianne, aquela que mandou Linda Tripp gravar Monica Lewinsky e armar o circo republicano do impeachment de Clinton, com Ken Starr no papel central. Por causa disso Jonah hoje é celebridade e freqüenta diferentes redes de TV. Ele mora em Washington e Lucianne em Nova York, onde serve à conspícua Regnery, a editora de livros de direita.

O difamador macarthista (e plagiário) Domenech também viera do covil da Regnery Publishing. Era editor, como Lucianne. O impeachment nascera no processo de Paula Jones, anunciado num hotel de luxo de Washington, durante a convenção de um grupo conservador. O promotor Starr devia o emprego a um juiz de direita. Não achou nada sobre Whitewater, então Lucianne enviou-lhe Tripp com as gravações. O resto é história.

O escândalo Domenech deixou claro que a gangue do impeachment – fiasco que custou ao contribuinte mais de US$ 70 milhões, fora custos extraordinários do Congresso – continua ativa. A turma da “vasta conspiração da direita”, aliás, foi premiada depois com bons empregos no governo Bush, em especial os advogados da Sociedade Federalista -como Theodore Olson, nomeado em 2001 Advogado Geral.

A mulher dele, Barbara Olson, talking head hidrófoba na TV durante a crise do impeachment, estava no avião supostamente lançado sobre o Pentágono a 11 de setembro. Publicou pela Regnery dois livros de ataques ferozes a Bill e Hillary Clinton.

Os “duendes” do promotor Starr

Os cinco advogados da Sociedade Federalista que se dedicaram de corpo e alma à sacrossanta cruzada para derrubar Clinton, alimentando o escritório do promotor Starr, foram: George Conway, Richard Porter, Jerome Marcus, Paul Rosenzweig (que trabalhou diretamente com Starr) e Ann Coulter. Pelo esforço subterrâneo, ficaram conhecidos coletivamente como “os duendes”.

Ann Coulter, loura exuberante e desbocada, fazia dupla com Barbara Olson. Eram duas fanáticas odiadoras dos Clinton na TV. Apareciam em especial na rede Fox News, mas também pontificavam em outros veículos, até nos maiores. Com a morte de Olson, o campo ficou livre para Coulter, hoje autora de vários livros, alguns dos quais foram ao topo da lista de best-sellers do New York Times.

Essa cultura política que ganhou espaço nos oito anos de Clinton foi devassada em parte no livro Blinded by the Right – The conscience of a ex-conservative (Obcecado pela Direita – A consciência de um ex-conservador), de David Brock. Operador político pago por milionários de direita (financiadores da campanha anti-Clinton), Brock rompeu depois com a turma e contou toda a história. Hoje dirige um atuante site de crítica de mídia, o Media Matters for America (clique para conhecê-lo: MediaMatters).

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Published in: on março 15, 2008 at 12:13 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Ao ler este artigo, pensei tratar-se das relações da imprensa brasileira com o Preseidente Luiz Inácio. Por favor, apresente para seus leitores uma radiografia similar disto que se dispôs a escrever sobre as relações da imprensa americana com o Presidente Bush. Parece-me que os jornalistas de lá como os de cá se prestam muito bem a este “namoro” com o Poder Executivo. Por uma imprensa livre. E não acomodada.

  2. Prezado jornalista:
    Excelente artigo sobre a mídia norte-americana. Quanto a mídia brasileira, esta fez uma nefasta campanha para derrubar o presidente Lula, talvez a maior já feita contra um presidente brasileiro em toda a história republicana. Caso o presidente Lula tivesse uma forte influência na mídia, certamente nada disto teria acontecido.


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