Confirmado: o Texas é de Obama

Não gosto de ser enganado. Acho que ninguém gosta. Por isso publiquei no dia 7 de março, em minha coluna da Tribuna da Imprensa (veja AQUI) que na verdade a senadora Hillary Clinton não tinha vencido a disputa do Texas. Expliquei então que o processo ali era híbrido, combinando primárias e “caucuses” – e que a apregoada vitória dela naquele estado, amplificada pela mídia, seria transformada em derrota ao fim do processo.

Alguns leitores podem até ter achado que estava “chutando”, embora eu tenha invocado o testemunho da historiadora Lisa Pease, neste artigo para o site  Consortium News. Hillary ganhara as primárias com 51% contra 47%, o que lhe dava 65 delegados contra 61 de Obama. Mas Obama ganhou nos “caucuses” por 56% contra 44%, o que lhe garantia mais 37 delegados (contra 30). Total: ele 98, ela 95.

Agora, com sete dias de atraso, isso já é reconhecido por Robert Yoon no site da CNN Political Ticker: Hillary foi derrotada no Texas. Eu tinha escrito 98 a 95 mas a CNN cita resultado ainda mais favorável a Obama: 99 a 94. Fica a pergunta: se até o ex-presidente Clinton e o estrategista eleitoral de Hillary, James Carville, diziam que se perdesse no Texas estaria fora, por que ela ainda não fez as malas e foi embora?

A aparência e a realidade

De acordo com o que se dizia nos dias que precederam a disputa do Texas e Ohio, para continuar no processo ela teria de vencer nesses dois estados e também na Pensilvânia, dia 22 de abril. O maior dos três é o Texas, que ainda tem o segundo maior número de delegados e de votos eleitorais em todo o país – atrás apenas da Califórnia.

Como também observei antes, Hillary fazia mais questão da “aparência de vitória” do que da vitória real. Assim, festejou o resultado como se de fato tivesse vencido – o que também fizera em Nevada, onde Obama obteve mais delegados, e na Flórida, onde a votação fora invalidada antecipadamente pela direção nacional do partido. Mas a campanha dela pretende insistir nos truques e na ficção até a convenção de 28 de agosto.

Na mesma noite do Texas toda a mídia fez o jogo com o qual ela contava. As manchetes diziam que Hillary se reabilitara, impondo três derrotas a Obama – Texas, Ohio e Rhode Island. Na verdade, ele ganhara em dois (o principal, Texas, e mais Vermont) e ela em dois (Ohio e Rhode Island). E as disputas seguintes (Wyoming, dia 8 último, e Mississippi, dia 11) já deram mais vitórias a ele (contra nenhuma dela).

Uma Cinderela sem sapatos

A situação insólita – uma fantasia alimentada por toda a mídia, ou por interesse ou por incompetência – também permitiu a Hillary “oferecer” ao adversário que a está derrotando na votação popular, no maior número de estados e no maior número de delegados, o lugar de vice na chapa. Ironicamente, o marido dela referira-se antes à suposta falta de chance de Obama como “conto de fadas”. Ora, o conto de fadas é ela, Cinderela sem sapatinho de cristal.

Hillary agora só ganharia a indicação presidencial do partido se sua campanha conseguisse fazer prosperar os “truques sujos” nos quais teima em apostar: 1. a situação da Flórida e de Michigan, onde a votação fora previamente invalidada com a concordância de todos os candidatos; 2. a pressão sobre os superdelegados; 3. os comerciais da “política do medo”, de inspiração bushista.

A ficção da “vitória” no Texas, é preciso reconhecer, deu resultado. Num espaço de poucos dias, depois do resultado falso ser amplificado na mídia, que a retratou como vencedora e lutadora, “The Fighter” (clique aqui para vê-la na capa da revista Time), “Comeback kid” e outras fantasias, a campanha dela, que já não conseguia arrecadar dinheiro, abiscoitou doações no total de US$ 44 milhões de dólares.

O pecado dos apressadinhos

Anteriormente comparei a situação a grandes farsas eleitorais recentes, no Brasil e nos EUA – o escândalo ProConsult-O Globo para derrotar Brizola no Rio (1982), a edição do debate Lula-Collor na Rede Globo (1989), o roubo de votos para George W. Bush na Flórida (2000), etc. Em todos esses episódios a mídia teve um papel sensível para a adulteração da vontade do eleitorado.

A historiadora Lisa Pease questiona esse papel. “Por que a pressa da mídia em declarar um vencedor? Se podemos esperar 24 horas para saber quem vai para casa no programa ‘American idol’, claro que podemos esperar muito mais para ter os dados corretos da eleição. E se os repórteres não conseguem calcular direito o número de delegados, não deviam esperar que as autoridades do partido fornecessem os dados certos?”

No caso atual, da disputa entre os dois candidatos democratas, a historiadora acha que a pressa dos jornais e da TV está ameaçando as chances do partido de ganhar em novembro, pois prolonga uma disputa cada vez mais desgastante, mesmo sabendo que um candidato, Obama, mantém vantagem praticamente definitiva em número de delegados.

Enfim, só resta dizer: Ei, Hillary, caia fora!

 

Anúncios
Published in: on março 14, 2008 at 11:31 am  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/03/14/confirmado-o-texas-e-de-obama/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: