Os democratas e a “política do medo”

Casey Knowles tem 17 anos e está terminando o curso secundário numa escola do estado de Washington, costa noroeste dos EUA. Quando via TV há alguns dias, surpreendeu-se com o comercial no qual a campanha de Hillary Clinton, na linha da “política do medo” do governo Bush, retratou crianças dormindo e a ex-primeira-dama atendendo um telefonema às 3 da manhã na Casa Branca.

A voz do locutor dizia, enquanto pegava o fone, que é preciso ter alguém experiente como ela na Casa Branca para atender a tais chamadas e resolver crises internacionais de madrugada, garantindo a segurança das crianças. A insinuação de Hillary, claro, é de que o adversário Barack Obama, por ser jovem e não ter sido “primeira-dama”, está despreparado para ser presidente.

Muitos eleitores no Ohio e no Texas podem até ter mudado o voto por causa do comercial. Mas Casey, cuja imagem foi usada, era uma daquelas crianças e discorda do que foi dito ali. “Também gosto de Hillary, mas preferiria muito mais que fosse a voz de Barack Obama a atender aquele telefonema às 3 da manhã”, explicou ela ao ser ouvida pelo website “The New Argument”.

O feitiço contra a feiticeira

Como as imagens de Casey foram feitas quando ela tinha um ou dois anos, não se sabe porque estão agora no comercial, sem autorização dela. Mas o certo é que a campanha de Hillary, mais uma vez, quebrou a cara. Pois Casey é ativista política na escola e desde outubro está dedicada à campanha de Obama, tendo até liderado reunião partidária em seu distrito na qual foi ele o vencedor.

“Tenho atuado com entusiasmo na campanha dele. Em janeiro consegui recrutar muita gente para comparecer à reunião partidária (caucus). Ele tem inspirado e mobilizado tanta gente que não tenho dúvida em dizer que o fato de ser jovem ajuda muito. Ele se tornou simplesmente a melhor opção para as pessoas que querem uma mudança neste país”, afirmou Casey.

Depois do website, um canal do estado, King 5 News, entrevistou Casey de novo, em casa, com outras pessoas da família. Embora a moça não desgoste de Hillary, o comercial pode ficar na história eleitoral como prova do “jogo sujo” dos Clinton na obsessão de ganhar a qualquer preço. A oposição republicana gostou tanto que pretende usar outro, parecido mas contra ela, caso seja Hillary a candidata. 

“Se fosse branco não ganhava”

Hillary continua inferiorizada na votação popular, no número de estados onde ganhou e no número de delegados à convenção, mas sua campanha permanece determinada a recorrer a truques. Insiste na tentativa de validar as votações anuladas de Michigan e Flórida (punidos por desafiarem a direção nacional do partido) e ampliou a pressão sobre os superdelegados.

O truque do Texas, onde ela festejou vitória mesmo tendo obtido menos delegados do que Obama, já foi ajuda significativa, com a contribuição de toda a mídia na divulgação da versão dela. Isso permitiu, entre outras coisas, que a campanha dela voltasse a arrecadar doações, o que antes tinha ficado difícil. Totalizou mais de US$ 40 milhões depois de terça-feira da semana passada.

A obsessão de diminuir Obama – às vezes como “despreparado” no campo da segurança nacional, às vezes por mal disfarçado racismo – também continua. Uma ativa aliada de Hillary, a ex-deputada Geraldine Ferraro, derrotada em 1984 como candidata a vice na chapa de Walter Mondale, reapareceu aos 72 anos, fazendo mais ataques ao candidato Barack Obama.

“Se Obama fosse um homem branco, não estaria nessa posição”, disse a raivosa Ferraro na semana passada a um jornal da Califórnia. “E se ele fosse mulher, de qualquer cor, também não estaria nessa posição. Tem muita sorte de ser quem é. O país inteiro acabou capturado por esse conceito”, acrescentou de forma meio nebulosa.

A renúncia e as suspeitas 

Ferraro alegou ainda que Hillary tem sido vítima “de uma mídia muito sexista”. “Acho que a maneira como a América se sente sobre uma mulher tornar-se presidente passou a ser muito secundária para a campanha de Obama – para um tipo de campanha que ficou difícil de ser enfrentada”, disse ainda. Ao mesmo tempo, Ferraro acha que a mídia virou-se contra sua amiga senadora.

Diante do tom racista, a campanha de Hillary percebeu a conveniência de uma discordância pública em relação às declarações de Ferraro. A campanha de Obama voltou a conclamar a candidata a manter a disputa em nível elevado, já que domingo, numa entrevista ao “60 Minutes” da rede CBS, ela fora reticente e suspeita ao responder uma pergunta sobre a religião de Obama: “Não me consta que seja muçulmano”.

Antes, uma alta conselheira de política externa de Obama, Samantha Power, fora pressionada por ele a renunciar por ter chamado Hillary de “monstro” em entrevista  a um jornal europeu. “Lamento profundamente ter dito coisas indesculpáveis. (…) Estendo meu pedido de desculpas à senadora Hillary, ao senador Obama e à magnífica equipe com a qual trabalhei nos últimos 14 meses”, disse ela.

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Published in: on março 12, 2008 at 1:22 pm  Deixe um comentário  

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