A receita que esvaziou a crise

Não é preciso ser gênio para perceber a relevância de um fato internacional e o acerto de uma decisão. O blog do Ricardo Noblat (num comentário reproduzido ainda em sua coluna de O Globo) foi preciso ontem ao registrar o bom senso e o êxito da intervenção do governo Lula na semana passada “para esfriar a crise diplomática desatada pela Colômbia ao violar a soberania do Equador”.

Ele lembrou: “Para matar Raul Reyes, o segundo dirigente mais importante do grupo Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o presidente Álvaro Uribe ordenou a invasão do Equador no último dia 1. Dois aviões SuperTucano bombardearam o esconderijo de Reyes na região equatoriana de Piñuña Blanco. Algumas horas depois, transportados por quatro helicópteros Blackhawk, desembarcaram no local uma tropa de elite do Exército colombiano e 44 agentes judiciais. Foram conferir o sucesso da missão.

Pouco importa que Uribe alegue a pouca distância entre o lugar onde Reyes foi morto e a fronteira que separa a Colômbia do Equador. Ou que o governo do Equador apóia as FARC e lhe concede abrigo, assim como o da Venezuela. A Colômbia infringiu, sim, leis internacionais que garantem a inviolabilidade do território de países independentes.”

Qualquer um pode ter sua opinião, mas não falsificar os fatos para justificá-la. A minha é bem diferente da do Noblat. Mas ambos respeitamos os fatos. Por isso temos consciência de que o desfecho do episódio foi uma vitória da diplomacia brasileira. Um analista que não o reconheça, seja por amor a Bush, aversão a Chávez ou simples subserviência, desmerecerá a própria capacidade de análise.

Published in: on março 11, 2008 at 3:05 pm  Deixe um comentário  

O escândalo que atropelou o “xerife de Wall Street”

Em outros tempos certamente seria o fim da carreira política do governador de Nova York (hipótese ainda não descartada). Mas ao falar à imprensa ontem, Eliot Spitzer, eleito em 2006, tinha a seu lado a primeira dama do estado e não parecia inclinado a renunciar. Três repórteres chegaram a perguntar, aos gritos, sem obter resposta: “O senhor está renunciando? Está renunciando?”

O caso, talvez o mais suculento da política americana desde o escândalo que levou ao impeachment do presidente Bill Clinton, está hoje nas manchetes dos agressivos tablóides Daily News e New York Post – em especial o último, do império de mídia do magnata australiano Rupert Murdoch. Spitzer foi grampeado por agentes federais num hotel de Washington quando acertava encontro com prostituta de alto luxo. No passado ele processara, como promotor, duas redes de prostituição.

Quem acompanhou a trajetória de Spitzer no seu período de Procurador Geral do estado entende que devia ser, há anos, alvo prioritário de muita gente poderosa. A começar pelos altos executivos de Wall Street, já que faturou bilhões de dólares para o estado em ações contra 10 dos maiores bancos de investimento. Para deter os processos, eles viram-se forçados a fazer acordo e pagar fortunas colossais.

O terror dos “colarinhos brancos”

Ele foi chamado “xerife de Wall Street” devido ao papel desempenhado a partir do primeiro ano do mandato do atual presidente. Como Bush nomeou para presidente da SEC (Securities and Exchange Commission, que correspondente no Brasil à Comissão de Valores Mobiliários) o advogado Harvey Pitt, especializado em livrar criminosos de colarinho branco da cadeia, a SEC tornou-se inoperante contra os escândalos que abalaram Wall Street.

Assim, o Procurador Geral Spitzer decidiu investigar alguns dos mais mais cabeludos, pois tinha jurisdição sobre aquela área. A investigação pegou gigantes como J.P. Morgan Chase, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Salomon Smith Barney (Citibank), UBS Warburg, Bear Stearns, Credit Suisse First Boston, Deutsche Bank, Lehman Brothers. Isso permitiu ao estado de Nova York punir crimes para os quais o governo Bush tentava fechar os olhos.

Em geral ocupantes do cargo de Procurador Geral tornam-se candidatos potenciais a governador ou prefeito. Com Spitzer, como Rudy Giuliani antes, não foi diferente. Mas ontem a imagem dele, ao se apresentar diante de uns 100 repórteres e 20 câmeras de TV, era a de um homem derrotado. Spitzer e a mulher, Silda Wall Spitzer, estavam consternados. Ele pediu desculpas primeiro a ela e à família, por ter violado “o senso do certo e do errado”. “Fui decepcionante ao deixar de respeitar os padrões que esperava de mim mesmo. Agora preciso de tempo para recuperar a confiança da família”, disse. 

As lágrimas de arrependimento

A fala de Spitzer durou apenas um minuto e quatro segundos. Ao final, o casal tinha lágrimas nos olhos. “Não vou responder a perguntas. Fico muito agradecido aos senhores. Voltarei a falar muito em breve com os senhores. Muito obrigado”, concluiu ele. A impressão foi de que ainda virá uma renúncia, mas os padrões têm mudado muito na política”. Segundo especulações, ele pode incluir a renúncia no pacote a ser negociado com a promotoria para reduzir a pena. Mas nem pena de prisão parece excluída. 

O estado vizinho de Nova Jersey tem sido bem mais pródigo em escândalos do que Nova York. Acostumou-se a eles e às vezes sequer há renúncia. Mas em 2002 o governdor Jim McGreevey renunciou três meses depois de revelar que era gay e tinha caso com um empregado. Na época a oposição republicana, alegando não ser novidade o homossexualismo de McGreevey, acusou-o de usar a renúncia para acobertar coisa mais grave: corrupção.

Antes o senador Bob Torricelli renunciara num acordo com a promotoria ao ser investigado por suborno. E o atual governador, Jon Corzine, ex-executivo-chefe (CEO) da Goldman Sachs, quase morreu em acidente no ano passado: seu carro estava a mais de 150 km por hora e ele não usava cinto de segurança. Desde 2007 seis políticos (inclusive três senadores estaduais) foram acusados ou indiciados por fraude, conspiração, extorsão ou suborno.

Published in: on março 11, 2008 at 2:51 pm  Deixe um comentário