O fim de uma era do jornalismo

Ao morrer, há dois anos, o jornalista Otis Chandler estava com 78 anos e sua família já tinha vendido o jornal Los Angeles Times para a Tribune Company, de Chicago. Mas fora ele, como publisher, o maior responsável pela dramática reformulação entre 1960 e 1980 que o tornara um dos dois diários mais importantes dos EUA. Quatro gerações dos Chandler o tinham controlado desde 1882, até ser consumada a venda em 2000, para a qual ele sequer fora consultado.

Entre as 900 pessoas presentes à última homenagem a ele estava Arthur Ochs Sulzberger Sr, o “Punch”, que à mesma época de Otis Chandler no Times de Los Angeles consolidava seu rival de Nova York também com uma revolução jornalística. A coincidência parecia sugerir o fim de uma época da mídia impressa – período no qual algumas famílias apostaram no jornalismo de qualidade antes da rendição final aos grandes impérios de mídia.

Sulzberger Jr, o “Pinch”, foi uma duvidosa solução de compromisso negociada pela família do New York Times com os “administradores profissionais” na última sucessão da empresa nova-iorquina. Os anos seguintes, com a série de escândalos na área jornalística, ficou claro que o jornal já não era o mesmo. Mas foi um episódio envolvendo Otis Chandler no Los Angeles Times, em 1999, que deu a medida exata do que acontecia.

A ameaça ao jornalismo íntegro

Otis, que tinha o apelido de “Oats” e às vezes era chamado “Big O”, aposentara-se em 1997, aos 70 anos. Em 1999, com 72, ele não resistiu à tentação de vir a público para denunciar, numa carta, o que estava ocorrendo no Los Angeles Times como “a mais grave ameaça à sobrevivência e ao crescimento futuro do grande jornal nesse meio século durante o qual estive ligado a ele”.

Ainda como resultado de sua administração, o jornal californiano era o quarto diário em circulação nos EUA, atrás apenas do Wall Street Journal, USA Today e New York Times. O que horrorizava Chandler então era a linha imposta por Mark H. Willes, primeiro como publisher e depois como executivo-chefe (CEO) da Times Mirror (empresa proprietária), quando nomeou Kathryn Downing publisher.

Nas duas décadas de Chandler à frente do jornal, o Los Angeles Times conquistara os principais prêmios jornalísticos do país – tendência mantida nos anos seguintes, até a chegada de Willes. Ex-executivo da multinacional General Mills, de cereais, sabão em pó, hamburguer, salsicha e comida de cachorro, Willes vangloriava-se de nada saber de jornalismo.

Até bazuca contra a independência

A então publisher ficou chocada com a carta de Chandler, aplaudida de pé pela redação ao ser lida em voz alta por um dos editores, Bill Boyarski, escolhido para isso pelo próprio Chandler. Downing alegou haver “raiva e revolta” no texto, “um desserviço ao jornal”. Antes ela pedira “desculpas, sinceras desculpas”, por suas falhas pessoais que feriram a “independência editorial” do jornal.

O mais recente dos escorregões éticos denunciados fora uma edição especial do jornal dedicada a festejar o Staples Center de Los Angeles, criado pela cadeia de lojas Staples. Os jornalistas trabalharam na revista sem saber que Downing e seus executivos fizeram às escondidas transação segundo a qual o jornal teria participação na receita publicitária das quadras de basquete e hóquei do centro Staples.

Outros desvios éticos tinham acontecido antes, todos resultantes de uma decisão anunciada por Mark Willes ao assumir a cúpula da Times Mirror – a de derrubar, “usando até bazuca, se necessário”, a muralha invisível que em jornais com alguma credibilidade separa a redação do departamento comercial, que negocia os anúncios. Recebido com festa no comercial, o fim da muralha consternara a redação.

Willes, que pouco depois sairia da empresa, entrou para a história do jornalismo como o “cereal killer” – trocadilho alusivo à atividade anterior dele e às demissões em massa que promoveu ao assumir o cargo. Downing alegaria ter errado por desconhecer os princípios relativos à independência editorial de um jornal – “mal entendido fundamental” que levou à “horrível nuvem” de suspeita, segundo ela.

Tempo de cereal e sabão em pó

A carta de Chandler expôs uma das pragas do jornalismo das grandes corporações – o critério da sinergia. Mas o fim do projeto de Willes e Downing foi só uma derrota momentânea. Tanto que já no ano seguinte, ante o impasse da eleição presidencial, coube ao chefão da General Electric (fornecedora do Pentágono), Jack Welch, ordenar à rede NBC, sua subsidiária, a linha editorial favorável ao resultado fraudado da eleição de Bush na Flórida.

Um dos leitores que escreveram ao Los Angeles Times para comentar na época a carta de Chandler observou: “Publicar notícias não é a mesma coisa que vender cereal e sabão em pó”. Outro leitor achou estranho a carta de Chandler ter saído na página de negócios: “Tratar a objetividade e a integridade do jornal como negócio é sintomático da questão que está na raiz do problema”.

Os dois leitores estavam certos. Chandler teve o mérito de perceber o rumo equivocado. Como era grande acionista da empresa, ainda pôde dar seu recado contra a ameaça – não a um jornal, mas ao próprio jornalismo. Nem por isso a Wall Street e os “executivos profissionais” perderam o sono. Sabem que passou o tempo do jornalismo de verdade. Agora é armazém de secos e molhados, para usar a metáfora de Millôr Fernandes.

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Published in: on março 9, 2008 at 3:38 pm  Deixe um comentário  

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