Aparência e realidade no Texas

Depois da fraude de 2000 na Flórida, que deu a Casa Branca a George W. Bush, muita gente sugeriu, como piada, que a eleição presidencial dos EUA passasse a ser monitorada por observadores internacionais da ONU. Como isso, obviamente, não aconteceu, veio em 2004 o segundo mandato de Bush – desta vez, graças à fraude do Ohio, provada depois na investigação de uma equipe liderada por Robert Kennedy Jr.

Nos dois episódios, no entanto, o desfecho lamentável deveu-se em parte ao papel omisso, se não cúmplice, dos meios de comunicação do país. A mesma coisa poderia ter ocorrido no Brasil em 1982 se o Jornal do Brasil e a Rádio JB não alertassem para a trama (ProConsult / diferencial Delta) do regime militar em conluio com o império Globo de mídia para transferir a Moreira Franco a vitória de Brizola.

O que acontece agora nos EUA, em relação às primárias e caucuses do Partido Democrata é diferente, mas também ajuda a entender o papel nocivo que às vezes a mídia desempenha. Jornais e TV concluiram prontamente, na madrugada de quarta-feira, que a senadora Hillary ganhou no Texas, ainda que ela só tenha sido vencedora de parte da disputa – as primárias – e não dos caucuses.

Afinal, quem foi o vencedor?

A festa colorida de Hillary foi amplificada para o país, como se ela tivesse feito o que tinha de fazer para continuar na disputa. Vinte e quatro horas depois, no entanto, ficaria claro que o processo de apuração dos caucuses sequer estava concluído – e que, pelos dados de 48% dos resultados, havia razões para acreditar que o resultado final será favorável a Obama e não a Hillary.

Dada a complexidade do processo, vale esclarecer de novo: 1. nas primárias o eleitor coloca seu voto na urna; 2. caucuses são reuniões partidárias, nas quais também pode haver debate, negociação e escolha de candidato. E mais: o Texas é caso singular de um processo híbrido, combinando as duas coisas. Dois terços dos delegados (126) são escolhidos em primárias e o resto (67) em caucuses.

Nas primárias, apuradas na madrugada de quarta-feira, Hillary conquistou 65 delegados (50,9%) e Obama 61 (47,4%). Em número de delegados, vantagem de quatro. E os 67 dos caucuses? Em 48% dos resultados conhecidos até ontem, Obama vence com 56% (37 delegados) contra 44% dela (30 delegados). Mantida a tendência, a vitória final será de Obama, com 98 delegados contra 95 dela.

As aparências e a realidade

Assim, em vez de ter perdido em três estados (Ohio, Texas e Rhode Island) e vencido em um (Vermont), como proclamou toda a mídia, Obama pode ter vencido em dois (Texas, o maior de todos, e Vermont) e perdido em dois (Ohio e Rhode Island). A diferença é pequena em número de delegados (mais três, em vez de menos quatro), mas é completamente outra a aparência.

O que os jornais continuam a expor nas primeiras páginas e a TV a discutir no horário nobre é apenas a aparência. Eles insistem em repetir que Hillary venceu as duas primárias que tinha de vencer, Texas e Ohio, para permanecer na disputa, por isso tem o momentum. E a senadora comporta-se como se fosse essa a realidade. Chegou mesmo, numa entrevista na manhã de quarta-feira, a oferecer informalmente a vice-presidência ao rival Obama.

Matematicamente não há possibilidade de Hillary vencer com os resultados das disputas ainda previstas. Talvez seja impossível até para Obama. Mas como ela foi declarada na mídia vencedora do Texas, já arrecada mais dinheiro (o que antes não conseguia), pode ser capaz de convencer mais superdelegados a apoiá-la e até dobrar a direção do partido no impasse sobre Flórida e Michigan.

O que isso, então, tem a ver com o escândalo Globo-ProConsult e as fraudes da Flórida (2000) e Ohio (2004)? No primeiro episódio, obviamente, o império Globo, aliado ao regime militar, quase tirou o governo do estado do Rio de Brizola, odiado pela família Marinho, e deu ao candidato da ditadura (Moreira Franco). Isso só não aconteceu porque havia então a voz indepenente do JB e sua rádio, impedindo que a trama se consumasse.

O presidente que bate pênalti

Na Flórida a rede NBC deu inicialmente a vitória a Al Gore, depois George Bush contestou o resultado numa entrevista (citando a garantia dada pelo irmão Jeb Bush, governador da Flórida) e afinal a Fox, onde John Ellis (membro da família Bush) estava à frente da computação de votos, proclamou a vitória do primo Bush – no que as outras redes, por interesse ou temerosas de ficarem para trás, ratificaram.

Esse resultado (suposta diferença de 537 votos a favor de Bush) também acabou imposto pela aparência. A agressiva equipe jurídica republicana soube impor-se na mídia sobre os tímidos advogados democratas. Mesmo depois da Suprema Corte estadual da Flórida ordenar a recontagem de votos os democratas foram incapazes de sensibilizar a mídia e convencer a Suprema Corte federal.

A historiadora Lisa Pease, que alertou agora para os dados do Texas, pergunta por que a pressa da mídia em declarar o vencedor. Se não há certeza, devia esperar a contagem do partido, disse. O que ela esqueceu é que há interesses em jogo. Jack Welch, presidente da GE (fornecedora do Pentágono e dona da NBC), foi pessoalmente à sede da NBC em 2000 e mandou Bush ser declarado vencedor, ratificando a Fox.

 

Anúncios
Published in: on março 7, 2008 at 11:12 am  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/03/07/aparencia-e-realidade-no-texas/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Até nisso a nossa mídia não é original.

    Muito bom o blog. Vou divulgar.

    Abs.

    Stanley.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: