O complicador nas vitórias de Hillary

Os especialistas em cálculos eleitorais tinham razão ao dizer que no caso de derrota de Hillary Clinton no Texas ou em Ohio ela não teria mais chance. Mas eles disseram também que depois desses estados ela teria ainda de vencer na Pensilvânia, a 22 de abril. O que deixaram de dizer, no entanto, é que mesmo com a vitória nos três estados pode não ser indicada. Será preciso algo mais.

Além disso, agora há um complicador no Partido Democrata. Quanto mais a disputa se prolongar, em especial depois de estarem os republicanos unidos (ou praticamente unidos) em torno de seu candidato John McCain, mais desgaste vão sofrer os democratas. Depois das 12 vitórias seguidas de Obama, Hillary venceu em três estados mas o avanço dela foi modesto – só reduziu 27 delegados na vantagem dele.

As projeções, que ainda devem sofrer pequenas correções, foram feitas ontem à tarde pela agência Associated Press: os resultados da última terça-feira no Texas, Ohio, Rhode Island e Vermont dão a Hillary mais 115 delegados e a Obama mais 88. O total de delegados decididos pelo voto (primárias e caucuses) continua a beneficiar Obama, que passou a ter agora 1.275 contra 1.150 dela.

Diferença cai de 152 para 125

Alguém poderia sugerir que apenas a Pensilvânia será suficiente para cobrir a diferença. Mas não funciona assim entre os democratas: o antidemocrático princípio “vencedor leva tudo” prevalece apenas entre os republicanos. Ainda que Hillary vença na Pensilvânia, só terá delegados na proporção de seus votos. Obama também terá os seus, na proporção dos votos que receber.

Fica bem claro que a senadora, que já parecia com a vitória garantida antes da primeira disputa em Iowa, onde acabou perdendo, devia ter sustentado sua reação em seguida à vitória de New Hampshire. Mas depois desse triunfo permitiu que Obama ganhasse “momentum”, pois ela perdeu feio na Carolina do Sul, na Super Terça-Feira (10 estados contra 13 dele) e nas 12 disputas seguintes.

A reação só veio efetivamente em três dos quatro confrontos desta semana, quando Hillary já era largamente superada por Obama em número de delegados (1035 dela contra 1187 dele). Conseguiu reduzir 27 na vantagem, que caiu de 152 para 125 (dados da projeção da AP). De qualquer forma, essa última rodada de disputas sugere mais desdobramentos.

Sonhando com o “momentum”

O quadro pode mudar se desta vez vier o “momentum” que ela esperava em seguida ao triunfo de New Hampshire e não veio. Uma previsão hoje é arriscada, até pelo exemplo anterior, quando ocorreu o contrário. Desta vez Hillary foi capaz de ganhar nos dois estados onde não podia perder (no Texas, na verdade, o ganho inicial desfez-se ante a vitória de Obama nos caucuses).

Também há riscos. As últimas vitórias vieram com a ajuda do desvio perigoso representado pelo controvertido comercial de TV no qual ela usou contra o rival a estratégia (da política do medo) que na certa funcionará contra seu partido em setembro-outubro, seja ela ou Obama o candidato democrata. E aquele comercial ainda pode custar a Hillary o eleitorado negro, ressentido com o que acha um “golpe sujo”.

Pior ainda, pelas inevitáveis repercussões, seria uma decisão da campanha de Hillary de usar outros possíveis trunfos ainda “congelados” no arsenal: 1. a pressão sobre superdelegados para que se comprometam com ela, a pretexto de que tem mais chance ou é mais confiável (pela suposta experiência); 2. a aposta numa revisão dos casos da Flórida e de Michigan, cujos delegados não são reconhecidos.

Ela obteve o compromisso de muitos superdelegados antes das primárias, quando parecia ter a indicação garantida. Depois o quadro mudou. Com o crescimento de Obama alguns dos super mudaram o voto, mas a campanha dela considera certos atualmente 254 dos 712 superdelegados. Obama, apesar de mais votado pelo eleitorado, só conta até agora com 202 deles.

Tapetão, cartolas e riscos 

Para usar a linguagem do futebol brasileiro, a campanha dela ainda confia tanto no tapetão como nos cartolas. No passado mais remoto as convenções partidárias costumavam ser decididas nos conchavos feitos em salas esfumaçadas, longe do plenário. Seria um retrocesso perigoso voltar a tal prática, especialmente para tirar do caminho o primeiro candidato negro com chance real de chegar à Casa Branca.

O mesmo vale para a questão da Flórida e de Michigan, cujos delegados Hillary reivindica. Todos os candidatos (eles ainda eram muitos) tinham concordado previamente em não fazer campanha naqueles estados, punidos por desafiarem a direção do partido (ao antecipar a data das primárias). Mas num golpe de esperteza ela manteve o nome (o único na cédula de Michigan) e festejou “vitória” na Flórida.

A partir de cálculos matemáticos não se espera que um dos candidatos chegue antes da convenção de 28 de agosto ao número mágico de 2.025 delegados. Essa a razão do temor, entre os democratas, ao desgaste do partido se a disputa continuar. A última prevista, de Porto Rico, será apenas no dia 7 de junho. O partido pode sair fraturado e enfraquecido, com chance reduzida de recuperar a Casa Branca.

 

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Published in: on março 6, 2008 at 3:15 pm  Deixe um comentário  

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