“O Globo” quer o que? Guerra?

Dedicado há mais de dois anos ao esforço para derrubar no Brasil o presidente eleito e reeleito com 60% dos votos e a beatificar na Colômbia o regime onde o chefe do Exército foi desmascarado no início de 2007 como colaborador das milícias ilegais aliadas do narcotráfico, o “general” Merval Pereira, do jornal O Globo, parece agora ansioso para fabricar uma guerra no continente.

Sobre a crise criada pela arrogância do presidente colombiano Alvaro Uribe, ancorado nos bilhões de dólares do padrinho Bush, o presidente Lula fez até agora, com serenidade, tudo o que tinha de fazer: condenou a invasão do Equador pelas tropas da Colômbia, exigiu um pedido de desculpas e o compromisso formal de Uribe de que não vai reincidir na delinqüência.

Mas à frente das tropas de O Globo, a preocupação do “general” dos irmãos Marinho é outra: “Como impedir que o governo da Venezuela se intrometa, tomando as dores do Equador e mandando tropas para a fronteira, numa clara provocação”. Ou seja, a provocação foi transferida da horda de invasores de Uribe para o país que ousou solidarizar-se com a vítima da agressão.

Os bilhões da desestabilização

Na avaliação de O Globo, a culpa é do presidente venezuelano Hugo Cháves – abominado por nossa mídia golpista porque usou contra a rede RCTV o remédio legal e legítimo que também estão a merecer redes que querem golpe no Brasil. Ele é acusado de “ter ascendência política e financeira sobre (…) a Bolívia de Evo Morales, o Equador de Rafael Correa, a Argentina de Kirchner e Cuba de Fidel”.

Nostálgico da guerra fria, o “general” Merval acha que “os petrodólares de Hugo Chávez substituem o anacrônico ‘ouro de Moscou’, fazendo com que seu peso político seja desproporcional à sua real importância geopolítica na região”. E, mesmo sem ver a prova, ele endossa a acusação colombiana de que “Chávez financiou a guerrilha (das FARC) com US$ 300 milhões”.

Se de fato fosse esse o caso, se tal volume de petrodólares tivesse sido realmente injetado no movimento rebelde, não seria lícito esperar do “general” Merval ao menos o reconhecimento de que para derrotar a mesma guerrilha a Colômbia já recebeu dos EUA mais de US$ 8,4 bilhões? E de que tal fortuna, mais desproporcional ainda, tem efeito desestabilizador na região?

O narcotráfico e os paramilitares

Por que falar de um financiador e não do outro? Num caso, US$ 300 milhões (se for verdade), no outro US$ 8,4 bi. Além de omitir o maior, o “general” Merval horroriza-se com o fato de Chávez ter conhecido o guerrilheiro Raul Reyes, morto na operação militar da Colômbia, “num dos encontros do Foro de São Paulo, uma organização criada por Lula e Fidel Castro para reunir os grupos de esquerda do continente”.

Como o “filósofo” que O Globo abrigou durante anos em suas páginas, o “general” parece encher o peito ao proclamar que os EUA consideram as FARC e outros grupos rebeldes “terroristas” e “ligados ao narcotráfico”. Mas também são terroristas e ligadas ao narcotráfico as milícias assassinas protegidas por Mario Montoya, o amigo que Uribe nomeou comandante do Exército colombiano.

Quem descobriu isso, saiba o “general” Merval, não fui eu. Foi a própria CIA, a central de espionagem dos EUA. O fato foi manchete de primeira página no Los Angeles Times do dia 25 de março do ano passado: “Colombia army chief linked to outlaw militias” (Chefe do Exército da Colômbia é ligado às milícias ilegais).

Na reportagem enviada de Washington, os jornalistas Paul Richter e Greg Miller contavam que a CIA obtivera dados de inteligência mostrando que Montoya “colaborava largamente com milícias de extrema direita consideradas pelos EUA organizações terroristas, entre elas um grupo paramilitar encabeçado por um dos maiores traficantes de drogas do país”.

Montoya e a Operação Orion

No dia seguinte, 26 de março, comentei o assunto nesta coluna. O Globo o ignorou, estava ocupadíssimo (desde o final de 2005) em derrubar Lula e não percebia o notório para-escândalo de Uribe. Em vez de enviar alguém à Colômbia para cobri-lo, mandou um repórter para pedir a Uribe um “conselho” a Lula sobre como combater o narcotráfico.

A bobagem foi manchete de página, com chamada de capa. Uribe naqueles dias fugia da imprensa mas atendeu O Globo – que fazia só operação de relações-públicas, não jornalismo. Não teve de falar do para-escândalo e ainda fingiu ser herói antidroga. A CIA descobrira que Montoya, general amigo dele, tinha feito, com os paramilitares, a Operação Orion – um extermínio de gente em áreas pobres.

Dezenas de pessoas morreram ou foram assassinadas. O empenho de Uribe, à época das revelações sobre os vínculos com para-militares, era limpar a ficha de 31 mil criminosos de extrema direita, acusados de assassinatos e atrocidades. E Montoya, além de ter sido da AAA (Alianza Americana Anticomunista) ainda fora instrutor da infame School of the Americas, a célebre escola de ditadores.

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Published in: on março 5, 2008 at 2:15 pm  Comments (1)  

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  1. […] bélica sul-americana de Bush e Uribe, obcecados em fabricar uma nova guerra bushista. (Leia AQUI artigo anterior, quando o jornal exigia guerra contra a Venezuela). Não sei exatamente o que […]


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