Hillary assume a política do medo

A rede Fox, do império Murdoch de mídia, festejou domingo o fato de Hillary Clinton ter adotado o conselho dado uma semana antes por Bill Kristol, conspícuo neoconservador que foi o primeiro, logo após o 11/9, a pregar a invasão do Iraque. No programa Fox News Sunday, Chris Wallace mostrou o videotape de Kristol no domingo anterior e perguntou ao próprio se agora é o estrategista oficial da campanha dela.

Às gargalhadas, a mesa de comentaristas (os “Fox’ All Stars”), de que Kristol participa, divertiu-se às custas de Hillary. A nova linha de ataque dela, de fato, é idêntica à dos republicanos. Eis o que Kristol tinha afirmado antes: “Recomendo à senadora Hillary a política do medo. Ela tem de dizer que este homem (Barack Obama) está despreparado para enfrentar os republicanos em meio à guerra ao terrorismo”.

De fato, a prática da política do medo – rotina de George W. Bush e sua gangue neoconservadora desde o 11/9, para manter os americanos amedrontados – ameaça desgastar ainda mais a imagem de Hillary entre os democratas. “Acho que ela seguiu (o conselho)”, disse Kristol. “Estrategicamente, fez o movimento certo ao levantar a dúvida entre os democratas sobre Obama como comandante em chefe”.

Contra o rumo dos eleitores

O perigo agora é ter Hillary ultrapassado o limite ao assumir a posição republicana. O comercial dela, tentando amedrontar o país, está no nível dos usados em 2004 pela campanha de Bush para derrotar o democrata John Kerry. Assim, a senadora bandeou-se para os falcões – o que não foi tão difícil, já que, como John McCain e os republicanos, já tinha votado a favor da guerra.

Desde 2005 todas as pesquisas de opinião pública registram: mais de 60% dos americanos são contra a guerra. Os democratas tomaram o controle do Congresso em 2006 por terem sido vigorosos contra a guerra. E se por alguma razão Hillary conseguir mesmo assim tirar a indicação presidencial de Obama, ainda correria o risco de perder parte do eleitorado negro, ressentido com a sordidez de sua opção.

Lamentavelmente a campanha dela, no desespero e no pânico, esvazia a grande bandeira democrata deste ano, a mesma de 2006: o fim da guerra. Caso ainda tenha sucesso no partido, o que parece difícil, na fase decisiva (setembro-outubro) só lhe restará a causa do feminismo – o apelo ao eleitor para dar a Casa Branca pela primeira vez a uma mulher. Seria isso suficiente para derrotar McCain?

Ao abraçar o rumo equivocado, o comercial de Hillary sequer conseguiu ser original. A idéia de um telefone que toca de madrugada na Casa Branca e precisa ser atendido por um presidente com experiência foi usada também em 1980, pela campanha de Jimmy Carter (contra o inexperiente Ronald Reagan), e em 1984, pela de Walter Mondale (contra o também sem experiência senador Gary Hart).

Hussein? Osama? Manchúria?

Carter foi derrotado por Reagan, sem que o comercial tenha tido qualquer efeito. Mas naquela eleição havia questões bem mais relevantes, como os reféns americanos do Irã (suspeita-se que os aiatolás foram convencidos por enviados republicanos a manter os reféns até depois da votação). Já Mondale derrotou Hart, mas perdeu depois para Reagan. Ou seja, o comercial no mínimo não deu sorte aos que recorreram a ele.

Mas uma coisa é certa. Como tenho lembrado desde o início de fevereiro, os republicanos vão questionar sistematicamente o patriotismo de Obama – inclusive com insinuações (ou afirmações explícitas) sobre imaginários vínculos entre ele e o “terrorismo islâmico”, na linha do “candidato da Manchúria” da ficção política de Richard Condon (filmada em 1962 por John Frankheimer e refilmada em 2004 por Jonathan Demme).

Previ ainda que os republicanos vão, cada vez mais, repetir o nome do meio de Obama (Hussein) e trocar, “por distração”, Obama por Osama. Cheguei a citar as louras desbocadas Ann Coulter e Laura Ingraham, que já o faziam. Pois neste momento não são apenas elas. Um radialista extremista disse sete vez “Hussein” num evento de McCain (que só depois pediu desculpas, devido à repercussão negativa).

Eles sabem que os comerciais difamatórios no rádio e na TV – não assumidos oficialmente pelas campanhas – sempre funcionaram para os republicanos. Foi assim na vitória do velho Bush em 1988, quando a imagem de Mike Dukakis foi destruída pelos comerciais “Willie Horton”, e na de Bush filho em 2004, quando a de Kerry foi destruída pelos comerciais “Swift Boat”.

A patriótica família Kristol

Não há porque acreditar que será diferente agora. O mesmo Bill Kristol que fez a recomendação a Hillary para aderir à política do medo atacou Obama dia 25, em sua coluna do New York Times, por ter parado de usar na lapela o alfinete com a bandeira dos EUA, moda disseminada pela Casa Branca de Bush depois do 11/9, como uma espécie de prova de patriotismo.

Kristol, patrulheiro de bandeiras, ficou irritado com a explicação de Obama. “Logo depois do 11/9 eu usava o símbolo na lapela”, disse o candidato. “Discutíamos sobre a guerra do Iraque e aquilo tornara-se substituto do que eu pensava ser patriotismo de verdade, que é falar de questões importantes para nossa segurança nacional. Então decidi não mais usar o alfinete”.

Nostálgico do macarthismo, o patrioteiro Kristol citou ainda o desabafo franco de Michelle Obama, mulher do candidato. “Pela primeira vez em minha vida adulta sinto-me verdadeiramente orgulhosa de meu país”, dissera ela. O destempero dele contra o casal, no Times, desceu ao nível da caça às bruxas dos anos 1950, quando seu pai Irving Kristol era regiamente pago pela CIA por “serviços patrióticos” a um certo “Congresso de Liberdade Cultural”.

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Published in: on março 4, 2008 at 2:30 pm  Comments (1)  

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  1. o pessoal da Hillary deveria fazer um comercial com a assustadinha do Brasil. A deborah duarte certamente é hillary.


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