Churchill, Truman e o início da guerra fria

Na campanha presidencial de 2004, o vice-presidente Dick Cheney – falcão-galinha (chickenhawk) que fugiu do serviço militar – escolheu o Westminster College de Fulton, Missouri, para fazer ataque violento ao adversário democrata John Kerry, oficial condecorado cinco vezes no Vietnã. Até o diretor da instituição indignou-se à época por aquela maneira desavergonhada de faturar dividendos eleitoreiros.

É que o Westminster College orgulha-se de ter sido o palco do histórico discurso de Winston Churchill encarado por alguns como marco inicial da guerra fria – entre outras coisas, por ter usado a expressão iron curtain (cortina de ferro). A lambança de Bush & Cheney no Iraque teve ao menos um mérito: por causa dela, em 2005, 2006 e 2007 viveu-se ali a data de 5 de março sem mais explorações eleitorais patrioteiras pelo bushismo republicano.

No ano passado a pequena Fulton, no coração do meio-oeste isolacionista, registrou a data de forma discreta. Com o fim oficial da guerra fria em 1989, o aniversário da advertência retórica feita há 62 anos por Churchill – que estava então na oposição, depois de ver seu Partido Conservador ser repudiado nas urnas – deixou de dar o mesmo ibope, limitando-se a comemoração mais recatada. 

O documento básico de Fulton

Churchill considerava aquele discurso um dos mais importantes de sua carreira. Mas à época sofreu crítica dura dos que defendiam mais cooperação dos aliados no pós-guerra, em vez de um racha entre eles. Pouca gente se lembra que ele conclamava os EUA a “uma associação fraternal dos povos de língua inglesa” contra a “ameaça vermelha”.

Para isso forjou a metáfora que conclamava ao rompimento e à guerra fria. “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente (europeu)”, afirmou. Em seguida acrescentou que de um lado estavam as democracias ocidentais; do outro, a Leste, “todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental”, no que “devo chamar de esfera soviética”, sob controle cada vez maior de Moscou.

No discurso, foi usada duas vezes a expressão “cortina de ferro”. Churchill assinalou que ela permitia o estabelecimento de governos policiais na Europa Oriental. Anos depois, o historiador D. F. Fleming escreveria: “Se houver uma Terceira Guerra Mundial, o discurso de Churchill no Missouri terá sido o documento básico para esclarecer suas origens”.

A pressão e o balão de ensaio

Como Churchill era convidado especial do presidente Harry Truman, que com ele viajara de trem entre St. Louis e Fulton, muitos concluíram em março de 1946 que o discurso era uma espécie de “balão de ensaio” da Casa Branca, onde havia assessores presidenciais a pressionar em favor de um endurecimento na política externa, para confrontar Stalin.

Ainda ambíguo, Truman inicialmente desencorajou a interpretação. Vice de Franklin Roosevelt, assumira o poder menos de um ano antes, com a morte do presidente. Conservara a maioria dos auxiliares de Roosevelt – entre eles, Henry Wallace, secretário do Comércio, ex-vice-presidente (no mandato anterior) e encarado por alguns como o verdadeiro herdeiro político do New Deal.

Wallace criticaria o discurso, deixando Truman na defensiva. O presidente alegou então que fora surpreendido, não tivera conhecimento prévio do conteúdo. Sabe-se hoje que isso não era verdade. Truman fizera questão de ler antecipadamente o texto. Mas optou por se manter ambíguo devido à popularidade que ainda desfrutava a linha rooseveltiana de cooperação com os aliados da II Guerra Mundial.

Ante o descontentamento de Stalin com o pronunciamento de Churchill, Truman ofereceu-se para enviar o cruzador USS Missouri e trazê-lo aos EUA, a fim de fazer um discurso na Universidade de Missouri. O homem-forte da URSS recusou o convite – até porque àquela altura Washington e Moscou já divergiam seriamente sobre a Grécia, a Turquia e a Alemanha.

O fim da cooperação antinazista

No governo Truman os partidários da cooperação pacífica perdiam terreno. Uma carta de Wallace ao presidente, a 23 de julho, defendendo a cooperação, foi o prenúncio do rompimento dos dois – concretizado em setembro, depois que a Turquia, com respaldo americano, rejeitou a defesa conjunta turco-soviética sobre Dardanelos, exigida por Moscou.

Em Washington a pressão de bastidores para endurecer a política apoiava-se ainda no documento enviado da embaixada dos EUA em Moscou pelo diplomata George Kennan (que morreu em 2005), recomendando a “contenção” dos soviéticos. Publicado pela revista Foreign Affairs em fevereiro de 1947, como se fosse ensaio de autor anônimo (um certo “X”), esse texto passaria a ser a nova linha da política externa.

Truman só oficializaria sua célebre doutrina numa sessão conjunta do Congresso, a 12 de março de 1947. A Grã-Bretanha notificara os EUA de que não mais poderia se dar ao luxo de ajudar a Grécia contra as guerrilhas esquerdistas ou dar assistência ao regime turco. Truman então pediu US$ 400 milhões ao Congresso para assumir o papel do decadente Império Britânico. O mundo começava a viver a guerra fria.

 

 

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Published in: on março 2, 2008 at 3:28 pm  Deixe um comentário  

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