A Pax Americana do projeto neocon

O esforço da organização privada NSArchive (Arquivo de Segurança Nacional), com sede na Universidade George Washington (GWU) da capital americana, valeu a pena: foi levantado esta semana o sigilo que impedia até os americanos de conhecerem detalhes da célebre DPG (iniciais em inglês de Orientação de Planejamento da Defesa), que causou um escândalo ao ser vazada em 1992 ao New York Times e ao Washington Post.

O texto saira no Times a 8 de março daquele ano e no Post três dias depois. Causou perplexidade nos próprios países aliados dos EUA. E levou o senador democrata Joe Biden, dedicado em toda a carreira a questões de segurança, defesa e relações exteriores, a considerá-lo “literalmente uma Pax Americana” – usando a imagem histórica da paz imposta aos vencidos pela Roma imperial.

Mas o detalhe agora, em relação aos documentos secretos cuja liberação foi afinal obtida, com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA), é que o Pentágono ainda tenta manter a censura sobre extensas partes – inclusive algumas que em 1992 já tinham sido divulgadas pelo Times. Apesar disso, o diretor do NSArchive, Tom Blanton, já apresentou um novo recurso para conseguir a liberação do resto.

Os delinqüentes no poder

A decisão caberá ao Painel Interministerial de Apelações sobre Classificação de Segurança (ISCAP), o mesmo que antes decidira levantar o sigilo. DPG é uma orientação que costuma ser expedida anualmente pelo secretário da Defesa. O texto vazado em 1992, quando ainda era apenas um esboço, acabou tendo de ser reformulado por ordem do então presidente, George H. W. Bush – pai do atual.

Ante a reação negativa do Establishment de política externa do país e aliados da Europa, o velho Bush – naquele ano em que se candidatava à reeleição – preferiu fazer o que sugeriam o secretário de Estado James Baker e o assessor de Segurança Nacional, Brent Scowcroft, que discordaram do conteúdo da DPG. Por isso mandou o então secretário da Defesa, Dick Cheney, refazer o documento.

O detalhe é que foi essa a segunda derrota relevante, dentro do governo, de Cheney e os neoconservadores (neocons) que tinha levado para o Pentágono – entre os quais estavam os dois responsáveis principais pela DPG, Lewis “Scooter” Libby e Paul Wolfowitz. A primeira derrota fora a decisão de Bush, sob influência de Baker e do chefe do Estado Maior Conjunto, Colin Powell, de não marchar sobre Bagdá ao final da guerra do Golfo de 1991.

A nova encarnação da DPG

Wolfowitz era então subsecretário da Defesa para políticas; Libby, subsecretário adjunto da Defesa para estratégia e recursos. Os dois deixariam o governo em 1993, depois da vitória de Bill Clinton sobre Bush, mas voltariam em 2001, com a eleição de Bush filho – um para o cargo de secretário adjunto da Defesa e o outro como chefe de gabinete do vice-presidente Cheney.

Ambos acabariam por cair em desgraça, com outros, em meio à lambança no Iraque: Libby por ter sido processado criminalmente e condenado por perjúrio e por mentir sob juramento (inclusive ao FBI), no caso da ex-agente da CIA Valerie Plame; Wolfowitz, indicado para o Banco Mundial, teve de renunciar após ser revelado que, além de apadrinhar uma namorada na instituição, ainda arranjara-lhe mordomia no Departamento de Estado.

Enquanto estiveram fora do poder entre 1993 e 2001, Libby e Wolfowitz tinham trabalhado com outros neocons (inclusive Richard Perle, ex-secretário assistente da Defesa, e Zalmay Khalilzad, hoje chefe da Missão dos EUA na ONU) no Projeto do Novo Século Americano (PNAC), que incorporou em seu documento central todos os pontos do esboço da DPG do Pentágono que causara perplexidade.

O 11/9 como pretexto

A palavra “preempt” (que definiria a “guerra preventiva” do Iraque) não aparece no texto liberado agora da DPG, mas algumas das páginas têm trechos inteiros expurgados. Há indícios de que algumas partes podem incluir discussões sobre “ação preventiva” contra países com programas considerados “ameaça nuclear” ou detentores de “armas de destruição em massa” (WMD).

A parte que causou mais escândalo em 1992 expunha a obstinação dos EUA de permanecer como superpotência única num mundo unipolar, sem tolerar que qualquer país, mesmo um aliado europeu próximo, ousasse aumentar o poderio bélico. O texto dizia que os EUA não admitirão dividir sua posição com ninguém. Sem a URSS, será sempre a única superpoência, com o objetivo maior de manter as coisas assim.

Embora há 16 anos ninguém pudesse adivinhar o que aconteceria depois, hoje parece claro que aquela DPG era o ponto de partida de todo o projeto levado para o governo pelos neocons depois que o segundo Bush chegou à Casa Branca. No início foram discretos, mas em setembro agarraram-se ao 11/9: no mesmo dia das ações terroristas começaram a planejar a invasão do Iraque a pretexto de WMD que não existiam.

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Published in: on março 1, 2008 at 12:52 pm  Deixe um comentário  

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