A eleição nos EUA e as agressões da TV

As atuais agressões na guerra dos “talk shows” do rádio e da TV nos EUA fazem lembrar um episódio ocorrido no ano passado no programa “Fox News Sunday”, da rede do império Murdoch de mídia. O senador democrata Jim Webb, ante a pressão do apresentador Chris Wallace, que esqueceu o passado liberal e converteu-se ao estilo da casa, protegeu-se recordando observação da colunista Peggy Noonan, conservadora republicana doce e equilibrada.

Noonan e Webb tinham servido a um mesmo governo – o do presidente Ronald Reagan. Mas anos depois ele tornou-se democrata. E ela, pouco confortável com os excessos bushistas. Referindo-se a um diálogo áspero de Webb com o presidente Bush numa festa de Natal na Casa Branca, ela lamentou, mesmo sendo republicana, não haver mais cortesia no governo.

Noonan escrevera sobre isso em dezembro de 2006 no “Wall Street Journal”, onde ainda publica uma coluna. Fiquei surpreso na época por ter sido tão precisa e rigorosa no puxão de orelha público dado no presidente dos EUA. Mais surpreso ainda pelo fato de ter condenado, por tabela, a conduta pouco civilizada de celebridades da TV a cabo – como o prepotente Bill O’Reilly – que envenenam o clima da política americana.

“Não foi isso que perguntei”

Curiosamente, Noonan encarou a cena do rápido diálogo Bush-Webb no Natal de maneira oposta à interpretação da maioria dos jornais. No evento, Webb negou-se a posar para uma foto junto com Bush e outros. Ficou de fora. Ex-fuzileiro naval e ex-secretário Assistente da Defesa, cargos ocupados no governo Reagan, ele tinha antes recebido várias condecorações na guerra do Vietnã, onde servira.

Bush, fujão da mesma guerra do Vietnã, sabia (como o resto do país) que o filho de Webb era fuzileiro e naqueles dias lutava no Iraque. Depois da foto, aproximou-se do senador e perguntou como estava o filho. Webb respondeu que gostaria que estivesse de volta, em casa. Mas Bush rebateu: “Não foi isso o que perguntei. Perguntei como vai ele”. Webb respondeu que isso era entre ele próprio e o filho.

Donos de “talk shows” de rádio e TV, dominados pela direita republicana, festejaram aquilo como um triunfo bushista. Mas a conservadora Noonan, ao contrário, horrorizou-se. “Soou como as habituais agressões no dia-a-dia da TV, e não da parte de Webb”, escreveu ela. “Imaginem se um Abraham Lincoln, nas mesmas circunstâncias, diria a alguém ‘não foi isso o que perguntei’. Ou um JFK, ou um Gerald Ford”.

Quem está no comando

A frase “não foi o que perguntei”, acrescentou ela, vem direto das TVs a cabo, onde muitos americanos estão aprendendo a se apresentar em público e até na vida privada. Âncoras e entrevistadores são ensinados e aprendem que têm de mostrar quem está no controle, quem exige as respostas, quem é implacável na busca da verdade. “Só que não buscam a verdade nenhuma. Buscam dominar”, acrescentou.

Nos novos tempos, disse Noonan, o entrevistador sistematicamente interrompe o entrevistado, tentando deixar claro quem controla a conversa – e ainda prepara armadilhas, esperando flagrar algum escorregão do convidado para fabricar uma notícia. Também interrompe para continuar em foco, prevalecendo sobre os políticos treinados e experimentados que leva ao programa.

Se a câmera não fica no próprio jornalista, praticamente o tempo todo, ele não sobe na carreira. Cada um conhece bem o patrão, sabe que nunca ouvirá dele elogio a uma entrevista esclarecedora, com informações relevantes. O elogio que costuma ouvir é do tipo “Você estava ótimo, engoliu aquele cara, acabou com ele”. Essa é a nova linha das redes “all news” – notícia e “talk show” 24 horas por dia.

Ninguém termina uma frase

Peggy Noonan deu um exemplo de diálogo de “talk show”: “Por que você votou ‘não’?”. “Eu achei que…” “Mas por que você fez isso?” “Bem, as implicações do problema e os méritos dos argumentos pareciam…” “Não foi isso o que eu perguntei”. Qualquer um que tenha visto o “O’Reilly Factor”, da Fox News, conhece a situação. E O’Reilly é imitado porque tem a maior audiência das redes de jornalismo no cabo.

A colunista do “Journal” está convencida de que, por causa desse estilo de jornalismo televisivo, nos últimos 10 anos nos EUA as pessoas não conseguem mais concluir uma frase. “Não é só na TV a cabo, isso estendeu-se às redes abertas, ao governo e começa a afetar as pessoas comuns, encorajadas a um estilo de conversa que não é amistosa nem cortês, parece mais depoimento no tribunal”.

De certa forma, o formato começou a nascer no “Crossfire” da CNN, onde dois âncoras se agrediam (e aos convidados). Tornou-se bem mais agressivo com os O’Reilly, Sean Hannity e Neil Cavuto (da Fox News), Chris Matthews (da MSNBC) e outros. Todos recebem convidados diariamente – chamados não para trazer informações ou dizer coisas relevantes, mas para serem agredidos.

 

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Published in: on fevereiro 29, 2008 at 12:50 pm  Deixe um comentário  

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