Golpes sujos e medidas incendiárias nos EUA

As pesquisas que colocam Hillary Clinton num empate com Barack Obama no Texas e com pequena vantagem sobre ele no Ohio, estados que ela tem de ganhar para continuar com chance, deixam a ex-primeira-dama apavorada. No debate de terça-feira ela fez ataques destemperados, depois de sua campanha baixar o nível veiculando a foto de Obama, em visita à Somália, com turbante e traje típico.

As outras más notícias para Hillary são as pesquisas nacionais: 1. na disputa com Obama, a vantagem é dele; 2. nos confrontos diretos entre cada democrata e o republicano John McCain, Obama seria vencedor mas ela não. O destempero de Hillary tinha começado quando atacou o adversário, em pose de ultrajada, por causa de um folheto distribuído no Ohio, expondo o apoio dela ao Nafta.

No Ohio, NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) é palavrão – já que exportou para o México boa parte de empregos que companhias dos EUA ofereciam naquele estado. Nos debates Obama destacou esse ponto, já que o acordo de livre comércio foi assinado pelo presidente Clinton. O folheto circulava há semanas, sem qualquer protesto; e subitamente Hillary passou a vê-lo como “golpe sujo”.

Risco de “medidas incendiárias”

Golpes sujos, no entanto, têm vindo da campanha dela. Depois de Hillary ser derrotada na Super Terça-Feira, 5 de fevereiro, e nas 11 disputas seguintes, deve ter concluído que sua candidatura está em situação desesperadora. Observei antes aqui, citando o Sunday Telegraph, que a campanha dela, em estado de pânico, dispunha-se a adotar “medidas incendiárias” (como virar a mesa com superdelegados e inverter a decisão sobre Flórida e Michigan).

No debate anterior Hillary partira para a ofensiva, centralizando as alegações no confronto “palavras x ações” (ele oferecia conversa fiada; e ela, supostas ações passadas). Os tais panfletos, que já então circulavam, diziam o óbvio: o governo Clinton era responsável pelo NAFTA, tema que não a preocupou no debate. Como a posição dela não melhorou nas pesquisas, dois dias depois sentiu-se “ultrajada”.

O grande problema é que a candidata não se conforma em ficar para trás. Parece julgar direito divino sua indicação presidencial pelo Partido Democrata. Não percebe, por exemplo, que se continuar baixando o nível, correrá o risco de não ter o apoio do eleitorado negro, que pode ficar ressentido com a conduta dela e negar-lhe os votos no caso de acabar sendo indicada para a decisão final.

O chumbo grosso da direita

Nem Obama e nem Hillary têm a eleição garantida em novembro. Qualquer que seja o candidato democrata, terá de enfrentar a habitual campanha difamatória dos republicanos – com truques sujos como os comerciais “Willie Horton” (do velho Bush contra Mike Dukakis) em 1988 e os dos barcos “Swift Boat” (de Bush filho contra John Kerry) em 2004.

Em relação a Hillary, os republicanos já passaram anos vendendo ao país uma imagem falsa dela – como mulher calculista e ambiciosa, capaz de qualquer coisa. Já Obama, apesar da chance aferida nas pesquisas, sabe que vai valer tudo. Ele será chamado de “antipatriota”, “terrorista islâmico”, “candidato da Manchúria”. Alguns já começaram esse tipo de ataque, como denunciam vozes progressistas.

O website Media Matters for America observou esta semana que a rede CNN referiu-se a “rumores” sobre o patriotismo do senador negro, mas deixou de dizer que são disseminados pelos republicanos Uma crítica a Obama que se repete nos talk shows de direita é precisamente por ter deixado de usar na lapela, há algum tempo, a bandeira americana (como o patriota Bush).

Vale tudo em truques sujos

No canal Headline News, também do grupo CNN, o comentarista Jonah Goldberg (ultraconservador e filho da infame Lucianne Goldberg, que se orgulha de ter armado a trama Lewinsky do impeachment contra Clinton) aproveitou as acusações de Hillary aos discursos apaixonados de Obama para comparar o senador com Hitler, que supostamente convencia os alemães com belos discursos.

Goldberg também disse, com a intenção de atingir a imagem de Obama, que no QG da campanha dele em Houston há uma bandeira de Cuba com um desenho de Che Guevara. Além disso, cada vez mais repetem-se no rádio e na TV escorregões propositais trocando o nome “Obama” por “Osama” (de Bin Laden) e chamando o candidato, insistentemente, pelo seu nome do meio, “Hussein”.

O elogio há dias do controvertido líder negro Louis Farrakhan (acusado de anti-semita pelo lobby israelense) a Obama gerou uma onda de ataques a ele, feitos por comentaristas e convidados de talk shows – entre eles o mais extremista da Fox News, Sean Hannity. Isso sem falar nos ataques paralelos a Michelle Obama, sua mulher, por ter dito que “pela primeira vez” em sua vida adulta orgulha-se da América.

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Published in: on fevereiro 28, 2008 at 8:21 pm  Deixe um comentário  

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