Os tucanos gostam de ser quintal

O mundo celebra a diplomacia de Lula, mas no Brasil Celso Lafer e outros fernandistas pretendem que dependência é o que nos convém

 

O êxito da diplomacia brasileira é festejado em toda parte por governos estrangeiros e pela mídia internacional. Mas na mídia nacional só há espaço (nas páginas impressas e na TV) para opiniões de certos ex-diplomatas que serviram ao Itamaraty no governo FHC e obstinam-se em desacreditar a política externa e o país em artigos, entrevistas e debates. Revistas como Foreign Policy e Time, dos EUA, a alemã Der Spiegel, os jornais franceses Le Monde e Le Figaro, o espanhol El País, o britânico Financial Times e outros são pródigos em elogios ao novo papel do Brasil no mundo. Já as famílias Marinho, Civita, Frias e Mesquita, em O Globo, Veja, Folha e Estadão, abominam o “protagonismo” de Lula.

O pecado do “protagonismo” horroriza Celso Lafer (foto abaixo), ex-colega de FHC na USP. De família ilustre (filho de Horácio Lafer, empresário e político), ele foi feito ministro do Exterior por Collor às vésperas da renúncia e voltou ao cargo nos extertores do governo FHC. Ao atacar Lula em artigo recente, acusou a política externa de “busca de prestígio” e “voluntarismo”. Com Collor e FHC optava pela submissão silenciosa à vontade das potências. Só a elas caberia discutir o que fosse relevante. Como ensinou Juracy Magalhães: “se é bom para os EUA, é bom para o Brasil”.

Submissa foi ainda a conduta pessoal de Lafer como ministro quando ia aos EUA: tirava os sapatos para policiais no aeroporto. Submeteu-se, além disso, a uma autoridade de segundo escalão da diplomacia americana, John Bolton, que o mandou obrigar o diplomata brasileiro José Bustani a deixar o cargo para o qual fora eleito na ONU. Licenciado do Itamaraty, o embaixador Bustani era diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas. Pelo regulamento os EUA, se desejassem removê-lo, teriam de levar a proposta à votação dos países-membros. Lafer optou por capitular: retirou o apoio do Brasil ao diplomata e o isolou no Itamaraty. Bustani só foi reabilitado no governo Lula.

Será “protagonismo” preferir dignidade a capitulação? E liderar uma ação global contra a fome? Proposto pelo Brasil, este esforço, a que logo se somaram os presidentes da França, do Chile e o secretário geral da ONU, Kofi Annan, veio no primeiro ano de Lula. Reuniões em Roma e Nova York, adesões em toda parte. Metas foram fixadas para 2015. E o Brasil, como confirmou a ONU mês passado, cumpre sua parte: lidera o ranking mundial dos países que reduziram a pobreza. É performance, bem mais do que protagonismo. Nada a ver com o sugerido pelos ex-diplomatas nos veículos das famílias da mídia dominante.

Já a ofensiva enfurecida contra a política externa tem seus protagonistas: os ex-ministros Lafer e Luiz Felipe Lampreia (na foto abaixo, entre FHC e seu inspirador Carlos Menem) e ex-embaixadores como Roberto Abdenur, Sérgio Amaral, Carlos Azambuja e Rubens Ricúpero, além do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), criado por Lampreia quando ainda chanceler – e com recursos de embaixadas e entidades estrangeiras. O êxito atual da política externa humilha a turma aposentada, que transforma em alvo prioritário o ex-colega Celso Amorim, chamado por Foreign Policy “o melhor ministro do Exterior do mundo”. Ali David Rothkopf ainda escreveu que 2009 foi “o melhor ano para o Brasil desde o Tratado das Tordesilhas (1494)”.

Outros alvos dos ex-diplomatas, além de Amorim e do próprio Lula, são o assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia (foto abaixo), e o secretário de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães. O bando tucano chega a extremos na ânsia de explicar o contraste entre a inércia passada e o dinamismo do momento atual vivido pelo Brasil. Na vertente diplomática da campanha eleitoral, manipula bordões, imagens e símbolos para desmerecer os triunfos. O diálogo com líderes cuja imagem é vilanizada na mídia – Chavez, Fidel, Ahmadinejad – é pintado como sabotagem da democracia, dos direitos humanos e da não-proliferação nuclear.

Aos olhos dos detratores a substância do diálogo, mérito em qualquer diplomacia, é menos relevante do que a imagem distorcida. Depois da visita de Lula a Teerã, por exemplo, uma cidadã americana, antes cumprindo pena no Irã, procurou na ONU o chanceler Amorim. Na conversa expressou agradecimento ao presidente Lula pelo que fizera em favor da libertação dela (veja no final deste post um recorte do Estadão sobre o assunto). Mas no Brasil a campanha obsessiva de oito anos parece destinada apenas a elevar ex-diplomatas fracassados ao status de estrelas de novela – tal a frequência com que aparecem na TV. A atividade deles exige ainda certa habilidade: têm de zelar por suas relações privilegiadas com a mídia que lhes reserva tão generoso espaço.

A má fé fica clara quando retratam o presidente como marionete de Chavez, Fidel e outros demonizados. A desproporção entre peso e potencial do Brasil e seu líder e os que supostamente o “controlam” basta para expor a ficção grotesca. A suspeita é de que nem quem dissemina as versões acredita nelas. Entendo a frustração dos aposentados: devia ser o ilustrado FHC, não o torneiro mecânico, a brilhar no palco do mundo. No continente é notório o fascínio exercido pelo atual presidente, capaz até de influir em eleições – na Bolívia, Equador, El Salvador, Uruguai, Paraguai. Observe-se ainda a atual presença da China no Brasil, como maior parceiro comercial – lugar que era dos EUA.

Apesar de ser em commodities o grosso das exportações para a China, já há esforço em andamento para mudar o quadro, reforçado ainda pela disposição de empresas chinesas para investir aqui. Este ano aquele país torna-se o que mais investe no Brasil (US$10 bilhões), especialmente em projetos de infraestrutura e telecomunicações – um desmentido irônico às alegações de que depois de FHC a política externa só aposta no fracasso, em países “pobres demais”. As apostas são no respeito à independência política e à autodeterminação, não em sistemas políticos, religiões ou costumes.

A democracia é outra aposta explícita. Em Honduras o Brasil apoiou a devolução do poder ao presidente legítimo, eleito pelo povo e deposto por militares que o arrancaram da cama, de pijama, e o enfiaram num avião para fora do país. Nossa diplomacia e o resto do continente rejeitaram a violência, apesar do recuo dos EUA – abrindo a porta a mais golpes na região. Der Spiegel, a mais importante revista semanal de informação da Alemanha, destacou em maio de 2010 – num longo artigo sobre nossa diplomacia, “Lula Superstar” – a ação do Brasil no exterior. Deu ainda a explicação do próprio Lula, de que está curando “antigo complexo de viralata” dos diplomatas frente aos EUA e Europa.

A revista também contou que em 2003, na grande estréia internacional de Lula na cúpula do G8 em Evian, França, todos estavam sentados no salão do hotel à espera de George W. Bush. Ao chegar o presidente dos EUA, os demais se levantaram – menos Lula. Para o brasileiro, o gesto não fazia sentido: antes ninguém se levantara à chegada dos outros. O que os Lafer, Lampreia & cia. parecem não entender, ao por em dúvida a atuação do Brasil – e na ilusão de uma marcha-a-ré para diplomacia igual à deles, do medo e da omissão – é que o mundo vive processo de mudança, acelerado por um reexame à luz da crise financeira global, da qual o país saiu bem, muito melhor do que a maioria.

Tradicionalmente encarada como profissional, competente e alheia às perturbações políticas sofridas pelo país, nossa diplomacia tem boa formação. Como outras no continente, ficou marcada pelo alinhamento automático com os EUA depois da II Guerra, ao surgir o confronto da guerra fria. A experiência de uma política externa independente só começou no curto período de Jânio Quadros (1961). Mantida pelo sucessor João Goulart, caiu com ele em 1964. Depois do golpe militar enviamos tropas à República Dominicana em 1965 para legitimar a invasão dos EUA e impedir o restabelecimento do governo constitucional deposto.

Foi um momento vergonhoso dessa política externa, atrelada pela ditadura militar aos EUA até 1977 – quando a meta de direitos humanos do governo Carter e as reservas sobre o acordo nuclear Brasil-Alemanha levaram o 4° dos cinco generais-ditadores, Ernesto Geisel, a denunciar o tratado militar com os EUA e aproximar-se do Terceiro Mundo. Antes o general Médici fora recebido (em 1971) pelo presidente Nixon (acima, o recorte do Jornal do Brasil), numa visita oficial aos EUA para inaugurar “relações especiais”. A visita do ditador incluiu sessão especial na sede da OEA, Organização dos Estados Americanos, instrumento durante décadas da política externa dos EUA.

Criada em 1948, a OEA fora sempre passiva ante invasões dos EUA no continente (Guatemala, Cuba, República Dominicana, Granada e Panamá foram episódios recentes) e golpes militares instigados por Washington. Um ano e pouco depois da viagem de Médici, o renomado diplomata William D. Rogers sugeriu a seu próprio país sair da OEA e deixá-la ser apenas da América Latina. Na sua sede imponente, a curta distância da Casa Branca, ela foi palco dos rituais de submissão da diplomacia brasileira. Mas em junho de 2005 a história foi diferente. O ministro Amorim, apoiado por maioria esmagadora, derrotou em conferência da OEA na Flórida uma trama do governo Bush, decidido a impor “mecanismos intrusivos” para determinar se um país é ou não democrático.

O tema preocupava os EUA desde 2002, quando o lobista Otto Reich, no papel de sub-secretário de Estado, aliou-se ao golpe militar que depôs Hugo Chávez na Venezuela, dando o poder a um empresário. O povo foi para a rua e Chávez, refém dos golpistas por 48 horas, voltou. Nos EUA a assessora de Segurança Condoleezza Rice (futura secretária de Estado) avisou na TV: “Eleição não basta”. Seriam aqueles “mecanismos” repudiados na OEA o passo inicial para o projeto a ser imposto? O presidente Bush concluiu o mandato sem falar mais no tema. Mas Thomas Shannon, sucessor de Reich, e Hugo Llorens, embaixador em Tegucigalpa (vejam Llorens abraçado ao ditador Michelletti na foto ao lado), ambos nomeados por Bush, foram personagens centrais na crise de Honduras.

Isso ajuda a entender o descompasso entre o presidente Obama, enfático contra o golpe de Honduras na primeira reação, e a secretária de Estado Clinton, ambígua desde a declaração inicial. De Shannon e Llorens ela recebeu e acolheu a versão golpista, à qual se ajustou sem sequer esperar um “intervalo decente”. Na mídia brasileira Honduras foi outra senha para a ex-diplomacia tucana. Ao investir de novo contra a política externa, ela abraçou o pretexto golpista de que o presidente Zelaya conspirou contra a Constituição. Mas a diplomacia brasileira de fato, ao invés de se omitir, consolidou a posição inequívoca contra golpes no continente.

Submetido na mídia a rigorosa dieta de opiniões de um único lado, o Brasil ficou privado nos oito anos de Lula, em especial nos últimos quatro, de um debate real sobre a política externa. As quatro famílias que controlam a mídia dominante optaram por usar os amigos tucanos e censurar a livre circulação de idéias – num momento em que isso seria muito produtivo, dada a relevância, graças ao governo Lula, do papel ampliado do país na cena internacional. (Publicado originalmente na edição 617 de CartaCapital. Com acréscimos.)

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Published in: on outubro 19, 2010 at 8:43 pm  Deixe um comentário  

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