O fantasma da UDN

No Brasil um Alzheimer singular, indiferente à idade, apaga a memória de políticos da oposição e do jornalismo a serviço deles. Em razão do fenômeno uma geração menos jovem mas resistente àquele mal tenta, nem sempre com sucesso, devolver-lhes a memória recordando lições da história recente – como fez há dias o professor Fábio Wanderley Reis.

O desconforto desse cientista político, estudioso das posições tucanas, ficou claro. Repreendeu a pressa dos partidos de oposição e sua mídia, ao denunciarem uma mexicanização no país. Eles vêem o PT em duplo papel de vilão. Além de ser um novo PRI, alegam, ainda persegue o modelo chavista. Lula e o PT são bem menos ambiciosos: optaram por vitórias limpas em duas eleições, governo com 80% de aprovação e o respeito internacional.

Antes o atual presidente amargou três derrotas na oposição. Não tinha provado o gosto do poder. Mas ao invés de pregar um golpe, retomou a construção partidária com a força crescente dos militantes. Porque o PSDB, que governou em dois mandatos – de 1995 a 2002, graças a eleições vencidas no primeiro turno – está sem condições de recuperar a presidência pelo voto, mesmo tendo trabalhado no projeto de “20 anos no poder”? E porque, se era parte da esquerda ao nascer, apresenta-se como a direita arrogante que execrava?

A origem da contradição vivida pelos tucanos pode ser o oportunismo da aliança profana em 1994 com o PFL – que já fora Arena e PDS, e agora virou DEM. Por mais que este mude o disfarce, fingindo-se liberal, social, democrático (o codinome atual, irônico, é “Democratas”), nunca deixará de ser o partido da ditadura militar, a direita escarrada.

Último rebento a se separar do PMDB de Ulisses, o PSDB saiu, como o PT de Lula, do ventre do grupo dos “autênticos” – única esquerda tolerada pelo regime militar, exatamente por ser parte do único partido da oposição legal. Para compensar as dores do parto, os tucanos vieram com plumagem européia – uma social democracia com acadêmicos e intelectuais em vez de sindicatos.

Tinha, sim, havido namoro entre a elite acadêmica politizada – ou, pelo menos, parte dela – e líderes sindicais que a princípio evitaram os partidos e só depois sonharam em criar o deles. Como parte do processo, FHC debateu com eles. Achava não ter chegado o momento de enfraquecer o PMDB, ainda a bandeira maior da oposição. Houve reuniões em São Paulo. Ao fim de uma, em 1978, dirigentes sindicais foram levados por Lula a um comício de FHC (veja os dois em campanha na foto acima), pressionado por ele a candidatar-se ao Senado em sublegenda do PMDB. O que o tornaria suplente e, depois, senador – em 1983, quando Franco Montoro, eleito governador, deixou-lhe o mandato restante.

A razão ostensiva de outra reunião, num hotel de São Bernardo em 1979, foi a discussão ampla – com meia centena de líderes sindicais, uns 70 intelectuais e mais de 100 parlamentares – sobre a natureza de um partido dos trabalhadores. Circulou o documento “PT, Saudações” (eu me lembro: estive nas duas reuniões como vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio). Mas FHC influiu para a decisão ser adiada: achou estreita a idéia de um “partido classista”. Quando afinal o PT foi criado em 1980 (com reconhecimento oficial no início de 1982), FHC optou por ficar no PMDB, com gente que considerava conservadora, como Montoro – o mesmo que acabaria, ironicamente, por deixar o partido em 1988, junto com ele, para fundar o PSDB (na foto ao lado, os dois no dia da fundação do partido).

Pelo menos até 1994, FHC ainda parecia considerar-se de esquerda. O New York Times optou pelo rótulo “centro-direitista” (às vezes, “direitista”). Certa vez foi corrigido pela embaixada do Brasil, que invocou sua militância anterior na esquerda. No National Press Club, de Washington, ele próprio chegou a citar, com orgulho, o trabalho de jornalista no semanario esquerdista Opinião. Quando FHC e o PSDB assumiram a virada à direita? O plano original pode ter sido outro: ampliar o partido e livrar-se da companhia incômoda do PFL-DEM. O PSDB cresceu, tornou-se o maior no Congresso, mas não o suficiente para dispensar o aliado. Ao contrário, precisou de mais penduricalhos – para aprovar obscenidades como a emenda da reeleição.

Um colunista encantou-se recentemente com auto-flagelações divertidas de FHC. Como esta, num jantar: “Tenho de sair agora. Não posso me atrasar para a vaia que vou receber amanhã em Recife”. E esta confissão: “O FH que vocês conhecem é melhor que o presidente. O presidente tem cada aliado! Como cidadão sou mais seletivo nas minhas companhias”. Eram mesmo más companhias. Ele e o PSDB fizeram opções. Colados ao PFL, viraram à direita. À sombra da moeda, contaminaram-se. Incapazes de mudar o aliado, foram mudados por ele.

Na eleição de 1998 acusaram Lula e o PT de tramar a desvalorização do real. Uma correção, necessária, acabou adiada por razões eleitorais, o que envenenou o segundo mandato. Em 2002 ficou complicado. Ante o crescimento do rival, com José Serra já candidato, o PSDB abraçou a tática do medo ao começar a especulação contra a moeda. Excedeu-se. Por razões puramente eleitorais, alimentou o fantasma de que Lula seria a catástrofe. Mas ocorreu o inverso: a derrota tucana acalmou os mercados e expôs a leviandade dos governistas.

O partido dos “20 anos no poder” descobriu então duas coisas: 1. sem o controle do governo não ganha eleição (até com ele pode perder); 2. aliado ao PFL-DEM, perde a identidade. A vitória de 1994 tinha sido menos de FHC, substituído por Rubens Ricúpero (e depois Cyro Gomes) do que do presidente Itamar, que sem ele lançou e defendeu o real (na foto o pai verdadeiro da moeda, com seu ministro Gomes). A Ricúpero, por obra e graça da antena parabólica, só ficamos devendo a confissão explícita sobre o arsenal tucano de truques sujos: “o que é bom, a gente mostra; o que é ruim, a gente esconde”. Faltou um grão-tucano confessar pela antena mais truques, como a apropriação do real ou as assinaturas de FHC (já candidato e fora do governo) no dinheiro novo.

Restaria ao PSDB, finda a eleição, a busca de nova identidade. Qual seria ela? A vocação governista é sugerida nas três primeiras letras da sigla. O velho PSD ganhava eleição até com derrota de seu candidato – caso de Cristiano Machado em 1950, quando o partido aderiu a Vargas por baixo do pano e enriqueceu o vocabulário político com o verbo “cristianizar”. A presença de Aécio Neves, neto e herdeiro político de ilustre raposa pessedista (Tancredo, último ministro da Justiça de Vargas), reforçaria a tese, não fosse sua habilidade política tão rejeitada no PSDB. Mas a cadeira garantida no Senado e a possível reeleição do sucessor à frente do governo de Minas o deixam com cacife – se é que vale a pena ficar e mudar a imagem do partido.

Capaz de milagres, Tancredo Neves (na foto com Vargas, quando era seu ministro) perdeu uma eleição em 1960 para o governo de Minas e no ano seguinte governou o Brasil como “premier” – graças à sua solução para a crise da renúncia de Jânio. No tabuleiro de xadrez dos anos 1980, deixou o PMDB e criou o PP. Voltou atrás depois e viu cair-lhe no colo a eleição indireta, com a derrota das diretas de Ulisses. O estilo Aécio, oposto a um PSDB udeenizado e golpista, privilegiaria acordo e não confronto. O avô sempre teve a UDN como adversária. Sofreu ao lado de Vargas o assalto final dos golpistas sem votos. A aposta tucana, menos nas urnas do que no golpe apoiado no poder da mídia e na ilusão do tapetão judiciário, pode recomendar rumo diferente a Aécio.

Difamação, preconceito, arrogância e ódio são ameaças a qualquer partido politico. A falta de votos alimenta golpismo, denuncismo e escandalização. A UDN das vestais, dos bacharéis e dos intelectuais, antecedeu os tucanos. E antes dela houve os derrotados da república velha, inventores das cartas falsas de Artur Bernardes em 1922, inspiração da Brandi de Carlos Lacerda em 1955. O PT enfrentou em 2006 a denúncia do dossiê, que só na semana passada o STF afinal mandou arquivar – por absoluta falta de provas, apesar de bancado na articulação midiática Globo Veja Folha Estadão para forçar o segundo turno. O repeteco do denuncismo em 2010 vem da mesma mídia tucana, buscando igual efeito.

Sob o impacto da morte de Vargas, a UDN golpista de Lacerda (ao microfone na foto à esquerda) perseguiu JK e Jango até o golpe de 1964. Coube a Afonso Arinos de Melo Franco reconhecer, anos depois, o horror de seu partido às reformas: “Por trás da luta pela legalidade e contra Getúlio, de que fui porta-voz, havia, também, a recusa do partido, militarista e conservador, em aceitar a fatalidade de certas mudanças”. As sucessivas derrotas nas urnas empurram o PSDB para rota semelhante. Uma diferença sutil em relação ao passado é que as vivandeiras que antes freqüentavam os quartéis (hoje momentaneamente imunizados pela memória da ditadura militar) passaram a buscar os aquários nas redações. Sempre em nome da “ética”, da revolta de 1922 ao golpismo de 2010.

Uma oficialidade militar jovem, os tenentes, marcou todo o período anterior à revolução de 1930. Entre eles, Eduardo Gomes (na foto abaixo, já brigadeiro na FAB), um dos 18 do Forte em 1922, candidato derrotado da UDN à presidência em 1945 e 1950. Houve causas nobres, mas não a daquela revolta de 22, mera resposta a suposta “ofensa” de Bernardes ao marechal Hermes – imaginária, já que em cartas falsas. Para os tenentes, o fato de presidir o Clube Militar fazia de Hermes, um ex-presidente da república, comandante do Exército. Mas o marechal foi preso e o clube fechado. Não se sabe de inquietação militar no atual ano eleitoral, mas o clube continua o mesmo. Metralha emails raivosos na internet disseminando a palavra de oficiais da reserva nostálgicos da ditadura.

“Talvez se queira udeenizar de vez, tentar chamar os militares”, escreveu Fábio Wanderley Reis, numa provocação ao partido sem identidade, às vésperas de nova derrota. Ele acha “marchas da famílias” difíceis hoje. Além disso, acrescento, não se fabricam Vernon Walters como antigamente. Nem Lincoln Gordons. No elenco golpista, ficaram os sem-voto de sempre – e a mídia golpista com o sonho do tapetão. (Publicado originalmente na revista CartaCapital n. 614, de 22/09/2010)

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Published in: on outubro 14, 2010 at 9:19 am  Comments (1)  

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  1. ai ai… esse povo de esquerda que gosta de sujar a imagem de pessoas que realmente fizeram algo que presta pelo Brasil…. ¬¬


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