Os jornalões, a energia nuclear e os interesses de fora

A primeira reação de muitos leitores que viram as manchetes idênticas (ao lado, à esquerda, e abaixo, à direita) no dia 14 de abril, na Folha de S.Paulo e no Estadão (a primeira página de O Globo, mesmo sem a manchete, coincidiu no enfoque e na foto) foi recordar a peça de propaganda do tucano Geraldo Alckmin na campanha eleitoral de 2006 – o pacote de dinheiro nas primeiras páginas, exposto de norte a sul do Brasil, na obsessão de derrotar Lula.

Daquela vez o truque sujo conseguiu apenas adiar a decisão do eleitorado para o 2˚ turno – no qual Alckmin acabaria com menos votos do que tivera no 1˚. Agora a “coincidência” funciona como alerta para truques futuros. Mas a aliança dos jornalões não é só com os tucanos. É também contra o país: no debate nuclear, como em outros, o governo Lula defende nossos interesses (do Brasil), enquanto a mídia se atrela aos de fora.

Jornalões, revistonas e penduricalhos (Rede Globo à frente) apoiam-se no estereótipo iraniano fabricado por eles próprios. O presidente Ahmadinejad é baixo, magrelo e feio. Não está em questão a aparência dele e nem o holocausto – que reconheceu ter ocorrido, mesmo lembrando que os mortos na II Guerra foram 60 milhões e não apenas os 6 milhões de judeus.

O expediente de produzir o vilão e a partir dele demonizar um país inteiro para invadi-lo e tomar-lhe o petróleo – como foi em 1953 no próprio Irã (de Mossadegh) e em 2003 no Iraque (de Saddam) – começa com difamação e sanções. Armas de destruição em massa foram o pretexto dos EUA para invadir o Iraque. Armas que sequer existiam, como não existe a bomba-A do Irã.

Negociação em vez de sanções

Ao invés de sanções a política externa do Brasil prefere o apelo sensato à negociação. Afinal, o Iraque foi arrasado pelas bombas dos EUA e viu um milhão de civis (segundo estimativas) serem mortos. E lá as sanções, que puniram mais as crianças do que o governo, foram o capítulo inicial. Hoje a acusação dos EUA é que o Irã pode vir a ter uma bomba – em cinco anos.

Seria situação menos ameaçadora do que o arsenal nuclear de 100 bombas que o estado de Israel já tem, sem nunca ter assinado o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear). A exemplo dos israelenses, Índia e Paquistão negaram-se a aderir ao TNP e já têm armas nucleares – não tantas como Israel, mas prontas para serem usadas numa guerra entre os dois.

E onde entra o Brasil nesse quadro? Assinou e cumpre o TNP, não tenta desenvolver a bomba (mesmo tendo condições para isso), proclama em sua Constituição que não o fará e ainda assinou pactos nesse sentido (um bilateral, com a Argentina; e outro regional, com a América Latina). Mas sofre cobrança dos EUA, que descumprem o TNP e se arvoram em xerife nuclear.

O TNP não lhe confere tal autoridade. Ao contrário: manda os detentores de armas atômicas reduzirem os arsenais até sua eliminação completa. Os acordos EUA-Rússia só aposentam armas obsoletas, logo substituídas pelas modernas, sofisticadas e portáteis, que tornam mais provável o uso. (Até hoje um único país usou a bomba-A – duas, em Hiroshima e Nagasaki, contra populações civis e não instalações militares).

O vilão sem bomba e os amigos com bombas

Nas primeiras páginas da Folha, Estadão e O Globo a foto de ministro brasileiro presenteando o vilão Ahmadinejad com a camisa da seleção encantou os editorialistas. Como desprezam os interesses nacionais, eles festejam as leis extraterritoriais criadas nos EUA para intimidar e punir países que divergem de suas posições, como Cuba e Irã.

Em janeiro do ano passado a mídia corporativa já criticava o destaque dado na Estratégia Nacional de Defesa (leia o documento AQUI), anunciada então pelo governo Lula, ao desenvolvimento da energia nuclear. Os jornalões prestavam-se claramente ao papel de veículo da pressão do governo Bush em fim de mandato – um “pato manco” agonizante, golpeado ainda pela derrota eleitoral humilhante.

Os mesmos veículos ansiosos para anistiar os crimes da ditadura (de que foram cúmplices e beneficiários) viam – e ainda vêem – com suspeita o compromisso dos militares brasileiros com a democracia e a defesa dos interesses nacionais. O faroeste midiático na época ainda buscava legitimar a superpotência invasora do Iraque no papel insólito de guardiã da paz e do desarmamento.

Essa mídia não costuma ter dúvidas, só certezas. Condena a resistência do Brasil em assinar o protocolo adicional ao Acordo de Salvaguardas do TNP (mais sobre os dois AQUI) e atribui a culpa a militares brasileiros supostamente obcecados em ter a bomba-A. Não leva em conta que a questão do desenvolvimento nuclear está longe de ser simplista como sugere o cacoete desse jornalismo aliado a interesses externos.

Países sem armas nucleares sofrem restrições nas pesquisas – punidos por terem aderido ao TNP. Índia, Paquistão e Israel, como ignoraram o TNP, têm suas bombas-A e são paparicados e privilegiados com acordos especiais até pelo presidente Bush (mais AQUI, AQUI e AQUI), que na Índia firmou acordo nuclear com o premier Manmohan Singh (foto acima). Em 1997-98 essa mesma mídia aplaudiu FHC por sujeitar-se à pressão dos EUA e abraçar o TNP (leia-o AQUI), enquanto o Iraque sob sanções era acusado de ter a bomba – sem tê-la – e depois ainda foi invadido e arrasado, sem armas para se defender (comparem a tragédia do Iraque, sem bomba, com o garbo de Bush na foto abaixo, passando em revista as tropas da Índia, detentora de arsenal nuclear por negar-se a assinar o TNP).

Receita da mídia é rendição humilhante

Depois do TNP os EUA passaram ainda a exigir que nós, os “sem bomba-A” (ou have nots, em oposição aos haves) assinássemos o tal protocolo adicional, que amplia as restrições, os controles e as inspeções. Inexistente antes, o protocolo teria de ser negociado com cada signatário do TNP, nunca imposto pelos EUA.

Os “sem bomba” sofrem limitações nas pesquisas, que a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) faz cumprir com inspeções. O compromisso do Brasil é com o uso pacífico da energia atômica. Defende o desarmamento nuclear e é reconhecida sua tradição pacífica. Mas não pode abrir mão da tecnologia nuclear e da necessidade estratégica de desenvolvê-la e dominá-la, o que inclui ainda, para horror dos jornalões, o projeto de um submarino de propulsão nuclear para atuar rapidamente nas águas do extenso e rico litoral do país (saiba sobre o acordo com a França  AQUI).

Em 2004 a Folha não hesitou em propor rendição singular e humilhante, a pretexto de ser “transitória” a existência de países com e sem a bomba: o Brasil, argumentou, devia aderir ao protocolo adicional, “como uma decisão soberana”, e ao mesmo tempo “pedir” avanços pelo desarmamento. Ora, os que apóiam o protocolo são pouco mais de 80 dos quase 190 que assinaram o TNP. A maioria, assim, tem consciência da ameaça dos EUA de eternizar seu arsenal “transitório”.

Há ainda os interesses comerciais: em 2001 o crescente mercado mundial de urânio enriquecido já movimentava US$18 bilhões. Dono da 5ª maior reserva natural de urânio, o Brasil tem tecnologia própria de centrifugação, desenvolvida por seus cientistas ao longo de 30 anos. Para preservá-la protege com painéis, nas inspeções da AIEA, a sala das centrífugas na Fábrica de Combustível Nuclear da INB, em Resende.

O Brasil e a manipulação dos EUA na AIEA

Apesar de “desacordo momentâneo” entre o Brasil e a AIEA, o ministro Celso Amorim conviveu bem com Mohammed ElBaradei, que dirigiu durante mais de um mandato a agência da ONU (os dois aparecem na foto ao lado). Os interesses dos detentores de arsenais nucleares, claro, são diferentes daqueles dos “sem bomba”. A hipótese de espionagem industrial nas inspeções da AIEA não pode ser subestimada mas a proteção da tecnologia inovadora do Brasil foi descartada pela Folha com a alegação de que os EUA não precisam disso porque dispõem de sua “espionagem clássica”.

Antes da invasão do Iraque, no entanto, a CIA usava a equipe de inspeção da ONU (UNSCOM) – chefiada pelo sueco Rolf Ekeus até 1997 e depois pelo australiano Richard Butler (1998) – para espionar. O inspetor Scott Ritter, ex-fuzileiro dos EUA e veterano da guerra do Golfo, acusou os dois de tolerarem o jogo da CIA, permitindo a espionagem nas inspeções.

Na mesma linha do editorial da Folha, o do Estadão, dias depois, negou haver razão que justifique a não adesão ao protocolo adicional. Alegou ser do interesse do Brasil ratificar o compromisso com o desenvolvimento pacífico da energia atômica e “evitar atritos” com as potências empenhadas em impedir a proliferação nuclear. (E a FCN? E o mercado de urânio? E os interesses maiores da nação?)

Meses depois dos editoriais, o secretário de Estado de Bush, Colin Powell (na capa do Time, ao lado), ouviu no Brasil a explicação do ministro Celso Amorim sobre a proteção da tecnologia desenvolvida por nossos cientistas. E minimizou, ao falar à Veja, o que Folha e Estadão maximizaram: o Brasil – disse – não preocupava os EUA e nem devia ser comparado a Irã e Coréia, apesar dos “desacordos momentâneos” na AIEA.

Os recados que chegam pela “Folha”

Ao voltar ao ataque a 9 de janeiro de 2009, a Folha publicou matéria do chefe da surcusal de Brasília, Igor Gielow. “Os EUA cobraram ontem a adesão do Brasil ao chamado protocolo adicional”, dizia o texto. Não ficou claro se a “cobrança” era iniciativa americana, usando a Folha, ou se viera por acaso, premiando alguma solicitação de entrevista do jornal.

O entrevistado era o embaixador Gregory Schulte (o sorridente senhor da foto abaixo), que representava os EUA não no Brasil mas na AIEA e outros organismos sediados em Viena. Gielow omitiu (de propósito?) se o diplomata respondera a perguntas, se falara em Brasília (estaria ali por alguma razão?), se a entrevista fora por telefone ou se mandara respostas por email a perguntas enviadas a Viena.

Como o próprio jornalista caracterizara a entrevista como “cobrança” dos EUA, seria oportuno informar como tinha ocorrido – por telefone, cara-a-cara, troca de emails ou qualquer que tenha sido a situação. Teria sido uma tentativa de intimidação? Afinal, a dupla Bush-Cheney, derrotada, vivia seus últimos momentos – a apenas 12 dias do final do mandato.

No relato insólito da Folha, Schulte cobrava a adesão do Brasil a pretexto de que “os EUA aderiram”. Mas o protocolo adicional ao Acordo de Salvaguardas (artigo III do TNP) só é aplicável (e impõe obrigações) aos “sem bomba”. Para os EUA a adesão nada significa, sequer inspeções inócuas. Para os “sem bomba”, ao contrário, elas são compulsórias. E mais: cabe à AIEA decidir o que inspecionar, como e onde. (Publicado originalmente em Carta Maior, a 17/04/2010)

About these ads
Published in: on maio 4, 2010 at 9:32 pm  Comments (3)  

The URI to TrackBack this entry is: http://argemiroferreira.wordpress.com/2010/05/04/os-jornaloes-a-energia-nuclear-e-os-interesses-de-fora/trackback/

Feed RSS para comentários sobre este post.

3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Sensacional suas linhas, um texto irrevogável.
    Deixo a minha humilde contribuição: http://setepalmos.wordpress.com/2010/05/24/aliados-de-ocasiao/
    Saudações fraternas

  2. Tá mais do que na hora de sair a CPI da imprensa “brasileira”. Quem financia essa imprensa, se as tiragens estão cada vez menores? Como começou a funcionar e quem fez o financiamento para que elas funcionassem? Muitas perguntas devem ser feitas, pois numa reportagem de alguns anos atras a própria inVEJA, publicou um artigo em que citava os órgãos de espionagem americanos, como a CIA, como grandes financiadores de imprensa em vários países da América Latina, bem como financiadores de outras atividades culturais, ou seja, uma verdadeira lavagem cerebral de quase um século, com o intuito de não permitir a entrada do comunismo.

  3. Muito bom o seu blog, parabéns, possui muitas informações!!!!!!!Abraço!
    Cristhian Brezolin


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 38 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: