
Profundamente preocupado, o secretário geral Ban Ki-moon voltou à carga, em entrevista terça-feira na ONU, contra o estado de emergência decretado pelo regime golpista que agravou a tensão em Honduras. Ele exaltou ainda a decisão do Congresso de rejeitar a suspensão das liberdades civis e defendeu o “respeito pleno às garantias constitucionais, inclusive a liberdade de associação e de expressão”.
Suas palavras podem ter contribuído para a decisão do presidente Oscar Árias (foto do alto) de voltar à mediação. “As ameaças à embaixada do Brasil em Honduras são inaceitáveis”, repetiu.
“O direito internacional é claro: a imunidade soberana não pode ser violada. As ameaças ao pessoal da embaixada e suas dependências são intoleráveis. O Conselho de Segurança condenou tais atos de intimidação. Eu o faço também – e nos termos mais vigorosos”.
O secretário geral reafirmou, ao mesmo tempo, a disposição das Nações Unidas de dar assistência de todas as formas e voltou a fazer apelo em favor da segurança do presidente constitucional hondurenho, Manuel Zelaya. E conclamou “todos os atores políticos a se comprometerem seriamente com o diálogo e o esforço de mediação regional” – a cargo de Árias, antes repudiado pelos golpistas (leia AQUI como o embaixador dos EUA em Honduras, Hugo Llorens, afinal condenou o golpe, com três meses de atraso).
Aquele guardião da doutrina da fé
Não poderia ser mais eloquente o respaldo à sensatez do Brasil, que tem o respeito de todos mas não de nossa mídia corporativa, obcecada em abandonar o raciocínio simples e linear para assumir a insanidade golpista de Roberto Micheletti, agora forçado a recuar no desafio à ONU, à OEA e à comunidade internacional. Até porque golpe é golpe – mesmo se um presidente não tivesse sido, como foi, arrancado da cama de pijama.
O batalhão de jornalistas enviado a Honduras pela mídia brasileira após o refúgio de Zelaya na embaixada parecia menos motivado pela gravidade da situação do que pela obsessão de provar que o Brasil errou ao abrigar o presidente e garantir-lhe a vida.
A obsessão dela, do primeiro dia até este momento, tem sido condenar o governo Lula e defender os golpistas. Pior: defendê-los como “democratas”.
Juristas do golpe foram chamados a desfilar diante das câmaras e dos repórteres para dizer que pau é pedra – e golpe não é golpe. Missão impossível – e cômica, já que os golpistas fabricaram até carta falsa de renúncia de Zelaya (veja ao lado). Era comovente, em especial, o esforço do império Globo de mídia – jornal, TV & penduricalhos, juntos e em coro, na tentativa de cumprir uma pauta unificada do ideólogo da casa, Ali Kamel, no seu papel de guardião zeloso da doutrina da fé.
De posse previamente das respostas golpistas coincidentes de Kamel-Micheletti, a Rede Globo investiu contra o ministro Celso Amorim enquanto o Brasil e o governo Lula ganhavam o apoio da comunidade internacional – da ONU, da OEA, do presidente Árias, mediador costarriquenho na crise, e do resto do mundo. Isso permitiu à repórter Heloisa Villela, sem o viés da Globo, impor a cobertura da concorrente, a Rede Record.
Depois de uma diplomacia covarde
A partir das declarações feitas no Brasil à mídia golpista por diplomatas aposentados que serviram ao governo FHC, ficou claro que a crise de Honduras, na qual o Brasil foi empurrado para um papel que teria preferido evitar mas do qual não podia fugir, expôs o contraste entre a diplomacia covarde do passado (da omissão e da submissão) e a mudança de qualidade do Itamaraty no atual governo.
O Globo recolheu até o palpite infeliz do governador José Serra (ele achou “tremenda trapalhada” o Brasil fazer o possível para salvar a vida do presidente legítimo de Honduras. reconhecido por nós e pelo mundo). Mas o feito maior do jornal foi a sessão nostalgia com o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia (foto à direita). Alguém terá saudade do tempo dele à frente do Itamaraty, quase todo o período de dois mandatos de FHC?
Acho difícil. Mas Lampreia disse, em entrevista, que considera inédito o caso de agora em Honduras e não acredita que a posição brasileira contribuirá para solucionar a crise. “Ela traz um problema para o Brasil, que não estava envolvido no conflito”, opinou. Opinião judiciosa, ao menos na avaliação de O Globo. Me fez lembrar entrevista com Lampreia de que participei uma vez no hotel Waldorf Astoria.
De um grupo de jornalistas, só uns quatro tivemos paciência de esperar a saída dele de uma reunião com a então secretária de Estado Madeleine Albright. O da Rede Globo pediu-nos que o deixasse ser o primeiro a perguntar, devido a horário de transmissão de satélite. Concordamos. Lampreia chegou, ouviu e respondeu à pergunta dele. Mas fechou a boca e foi embora ao ver apagar-se a luz da Globo.
Alguém poderia achar grosseria e despreparo, preferi julgar aquilo um caso extremo de fidelidade aos refletores. No fundo Lampreia nunca teve nada relevante a dizer mas adorava dizê-lo sob a luz da Globo. Junto com o sucessor Celso Lafer (foto à esquerda), aquele que achava uma honra tirar os sapatos para os policiais nos aeroportos dos EUA, ele conduziu uma política externa de submissão.
De joelhos diante de Bolton
O Itamaraty de FHC, com os Lampreia e Lafer, ainda chegaria ao servilismo extremo. Tentaria cumprir estranha ordem do extremista neoconservador John Bolton (foto ao lado, com o padrinho Bush – e saiba mais sobre ele AQUI),
então no terceiro escalão do Departamento de Estado. Sub-secretário para controle de armas, ele viajou em 2002 à Europa e exigiu a renúncia do brasileiro José Bustani, diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).
Bustani, embaixador de carreira no Brasil, licenciara-se no Itamaraty para ser candidato na OPAQ – cargo para o qual se reelegeria por unanimidade, com o voto dos EUA (o próprio secretário de Estado Colin Powell, chefe de Bolton, elogiara a gestão e a liderança dele em 2001). Mas Bolton indignou-se com o brasileiro por ter atraído o Iraque, que se dispunha a submeter-se a inspeções regulares de armas químicas (saiba mais sobre todo o caso AQUI).
FHC e o ministro Lafer entraram em pânico – sabe-se lá porque. Disseram então a Bustani para fazer a vontade do império e sair. O embaixador explicou o óbvio: não devia obediência ao Itamaraty e sim aos que o elegeram na OPAQ. Restou a Bolton intimidar e subornar outros até forçar a saída de Bustani – que, encostado no Itamaraty, só seria reabilitado no governo Lula, que o fez embaixador em Londres. (Saiba AQUI como o mais alto tribunal administrativo da ONU condenou em 2005 a orquestração de Bolton para demitir Bustani ilegalmente e impôs penalidade e pagamento de indenização ao brasileiro).

O regime do golpe não conseguiu ser reconhecido por qualquer país, mas sabotou e fez fracassar a mediação do presidente costarriquenho Oscar Árias – uma idéia infeliz de Washington, marginalizando a OEA. Agora, ao contrário, o Brasil revigorou o processo, forçou compromisso do governo Obama com a democracia e mobilizou a OEA e em especial a ONU, que afinal tomou suas primeiras medidas concretas (o debate no Conselho de Segurança é previsto para amanhã).
Nenhum contato foi feito com o governo golpista de Honduras porque o Brasil só reconhece como presidente o próprio Zelaya, eleito pelo voto nos termos da Constituição e derrubado pelo golpe militar.
Comparem o relato de Amorim com as manchetes irresponsáveis de O Globo na terça-feira (“Brasil abre embaixada para Zelaya tentar retomar o poder em Honduras”) e na quarta (“Ação do Brasil acirra crise e tensão cresce em Honduras”). A “Folha”, ao menos, limitou as manchetes ao factual: terça, “Zelaya volta e se refugia na embaixada brasileira”; quarta, “Honduras sitia a Embaixada do Brasil”. De certa forma é também o caso do Estado de S.Paulo hoje, ao sugerir o que parece fazer sentido: Zelaya, por sugestão de Chávez, teria percebido ser a embaixada brasileira a que melhor serviria a seus propósitos (leia o texto na íntegra
Segundo análise disseminada na grande mídia os votos já declarados pelos ministros do Supremo sugerem que ao ser revelado o do ministro Marco Aurélio de Mello haverá empate de 4 a 4 e, em seguida, virá a decisão final pela extradição de Cesare Battisti – devido ao voto-desempate do presidente Gilmar Mendes.
Encarado como extremamente técnico, ele ainda pode vir a confirmar a previsão geral e votar pelo asilo a Battisti (contra o voto do relator César Peluso – o da foto acima, à direita). Ocorreria então o anunciado empate de 4 a 4. Menos certo seria, no entanto, o voto-desempate de Gilmar Mendes a favor da extradição. Na análise da fonte, na atual situação o regimento do tribunal não o permite.

Outro slogan patrioteiro do regime, o “ninguém segura este país”, nascera como manchete desse jornal na época. Como o Estadão, ele servia aos poderosos do dia e aos interesses corporativos de fora. E amplificava a campanha torpe da ditadura para vilanizar o arcebispo de Olinda e Recife, padre (como pedia para ser chamado) Hélder Câmara. A história foi muito bem contada no livro da capa ao lado, de Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara, o profeta da paz, publicado pela editora Contexto (saiba mais detalhes na introdução e no sumário, 
campanha suja de O Globo (não muito diferente das atuais), escorreguei em observação impertinente, que talvez tenha soado como insólita cobrança puritana.
A morte de Borlaug (foto ao lado) seria um momento oportuno para reflexões sobre a revolução verde – benefícios e efeitos negativos. À época do Nobel da Paz houve oba-oba em O Globo e no resto de nossa mídia pelas razões erradas. Nélson Rodrigues, criativo como ficcionista e teatrólogo, ignorava o tema mas adotou Borlaug prontamente como seu novo herói. Além de achar dom Hélder subversivo, nunca o perdoou por se negar a abençoar seu segundo casamento.![cheneyshoulder_300[1] cheneyshoulder_300[1]](http://argemiroferreira.files.wordpress.com/2009/09/cheneyshoulder_3001.jpg?w=300&h=198)
De Nova York o jornalista Sérgio Dávila enviou para a Folha de S.Paulo um texto que refletia bem o novo clima, mais civilizado, mesmo com a repetição do ritual cumprido a cada setembro desde 2001. Oito anos depois, explicou ele, “ninguém sabe o que fazer com o evento histórico, tanto de maneira literal como figurada” (leia a íntegra
Já havia indícios disso antes mas na véspera deste último 11/9 surgiu mais um depoimento capaz de reforçar a suspeita: a entrevista à rede ABC de televisão de Elie Assaad (foto ao lado), libanês de nascimento e informante durante 13 anos do FBI, Bureau Federal de Investigações (veja um vídeo da entrevista, seguido de outro sobre o 11/9, no final deste post). Sua história de sucesso foi a infiltração em pequena mesquita na periferia de Miami, que em 2006 levou à prisão de sete supostos terroristas.
Assaad contou que ao ser solicitado, logo após o 11/9, a examinar fotos dos 19 sequestradores do avião, reconheceu o líder, Mohammed Atta (foto à direita). “Era a prova de que eu estava 100% certo, tinha de ter ido atrás de Shukrujumah e Atta, como queria. E não dos outros, menores, como mandou o FBI. Fiquei tão enlouquecido que, num acesso, destruí os móveis em minha casa”, contou.
Para a defesa, os réus, desinformados e ingênuos, tinham sido convencidos pelo próprio governo (o FBI), em troca de dinheiro, a cometer crimes. No caso célebre de Assaad, em 2006, os julgamentos de dois réus deram em nada (mistrial) enquanto cinco foram condenados por terrorismo nos demais. Mas Alberto González (foto à esquerda), Procurador Geral no governo Bush (e defensor da tortura), fez elogio público a Assaad pelas sete prisões.
A veemência com que, na entrevista ao Canal Livre da Rede Bandeirantes, o notório cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos), de olho numa indenização como “perseguido político”, tentou negar que já era agente infiltrado (e provocador) da direita ANTES do golpe de 1964, não consegue contestar o depoimento enfático do delegado Cecil Borer em 2001 – conforme o texto (talvez definitivo) assinado por Mário Magalhães na Folha de S.Paulo, a 31 de agosto de 2009 (leia
Eu estava particularmente interessado em falar com o comandante Ivo Acioly Corseuil, o que foi possível na época graças ao aval de Ryff e Chuahy, que o conheciam bem. De fato, Corseuil contou muita coisa, aprofundando relatos já conhecidos. Mas o núcleo central do depoimento dele a mim foi a ratificação do que já dissera a Moniz Bandeira e estava no livro (publicado em 1977) O Governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (capa na parte inferior deste texto), sobre o qual escrevi minuciosa resenha para IstoÉ, infelizmente publicada na época com alguns cortes.
A informação de que Anselmo (que aparece acima, à direita, numa foto de 1964, e aqui ao lado, à esquerda, em foto recente, de óculos escuros e sob o logotipo da Globo) era agente da CIA não viera desse agente (identificado apenas como “Tanahy”) e sim de um correspondente de jornal norte-americano – “pessoa com muitos contatos, que falava com muita gente”. Ele sempre telefonava para dar informações. Por exemplo, tinha passado imediatamente a informação sobre uma reunião de Lacerda com correspondentes norte-americanos para conclamar os EUA a derrubar Jango.
Para Juarez, aquela ordem firme de Jango deixou claro que não tinha dúvida sobre quem era Anselmo. Podemos concluir que a avaliação coincidia com a descrição de Cecil Borer, delegado e torturador que o usava no DOPS como informante (conforme contou à Folha em 2001) juntamente com “a Marinha e os americanos”. O relato de Juarez é reforçado por Chuahy, que à época já era veemente também na crítica aos movimentos de sargentos e marinheiros, devido á manipulação oculta da oposição direitista com apoio da mídia. Vilela morreu no ano passado (2008). Tinha sido ajudante de ordens do general Zenóbio da Costa na II Guerra Mundial.