Cada um tem o paladino da moralidade pública que merece. O da Veja, como todo mundo sabe (até por ter sido exaltado numa capa histórica da revista em plena campanha eleitoral – veja a foto abaixo, à esquerda), é o deputado Fernando Gabeira, apoiado em 2008 por tucanos e demo-pefelês. Mais sugestivo é o que faz nos EUA a direita republicana. Zelosa na defesa de seus princípios religiosos, adotou como mascote a bem dotada jovem da foto à direita, que alia às curvas uma sólida formação cristã.
O nome dela é Carrie Prejean. Como Miss California, no concurso Miss USA, ela foi perguntada por um jurado – Perez Hilton, uma celebridade gay da Internet - se os demais estados deviam imitar Vermont e mais três que legalizaram o casamento de pessoas do mesmo sexo. “É bom que nós, americanos, podemos escolher uma coisa ou outra”, respondeu a virtuosa candidata. “No meu país, na minha família, acho que o casamento devia ser entre um homem e uma mulher. Sem ofender ninguém, mas é como fui criada. Acho que devia ser entre um homem e uma mulher”.
As versões sobre o que aconteceu depois variam. Segundo uma delas, a veiculada pela Fox News do império Murdoch e abraçada pela piedosa direita cristã republicana, Miss Califórnia foi humilhada pelo público com uma vaia maior do que qualquer candidata já ouviu em toda a história do concurso (o video no final deste post me deixou a impressão de que ela foi aplaudida). E o jurado gay, além de chamá-la depois de dumb b*tch (p*ta idiota), ainda disse que ela perdeu por causa do voto dele.
Depois dos paladinos, a vigarice
No desdobramento, a própria Carrie resolveu prolongar ao máximo seus 15 minutos de fama (conheça mais detalhes AQUI). Primeiro argumentou que sua posição era exatamente igual à do presidente Barack Obama: respeita a união civil de gays que optem por esse caminho a fim de assegurar certos direitos, mas acha que casamento é só entre um homem e uma mulher. Depois, repentinamente, passou a fazer pose de mártir da causa conservadora – e vítima de fantasioso complô comuno-homossexual que ameaça o país e o mundo por causa do governo Obama.
São sempre exemplares essas histórias de personalidades exibicionistas, em especial quando elas se arvoram em paladinos da ética e da moralidade pública. O promoter semi-falido Donald Trump, proprietário do concurso Miss USA, é outro conspícuo detentor do mesmo desvio. Ao perceber o apadrinhamento de sua Miss pelos talk shows de extrema direita, em especial na Fox News e demais veículos do império Murdoch, resolveu entrar em cena. Obviamente não tinha o direito de deixar de faturar a revelação, pelos tablóides de escândalo, de fotos sexuais dela, até então desconhecidas.
Detalhe: Trump estava meio foragido havia três meses. Reapresentava-se à mídia pela primeira vez desde que tinha estourado seu mais recente caso de vigarice explícita, o Ocean Resort Baja. Embolsara dezenas de milhões de dólares de 69 incautos – gente que tinha comprado unidades desse condomínio de luxo, cuja construção, na cidade de Tijuana, na fronteira do México, nunca chegara sequer a ser iniciada (saiba mais AQUI). Já no caso da Miss, o espetáculo que Trump encenou às pressas foi um “julgamento” – para decidir se ela mentira ao jurar que nunca posara nua ou seminua para fotos (saiba mais AQUI). Como único juiz, ele resolveu que Carrie não violou o juramento, pois eram fotos soft core e não hard core. Ela manteve sua preciosa faixa de Miss California (foto acima).
“Vou usar estas duas armas”
A encenação de Trump (na Trump Tower de Nova York) cuidou de cada detalhe. Como um sacerdote da moralidade pública ele absolveu os pecados da doce Carrie, sem impor sequer a penitência de uma Ave Maria. Abraçaram-se os dois diante das câmeras da Fox News e ela conservou a coroa de rainha da beleza do glorioso estado da Califórnia (saiba mais AQUI, onde pode ser visto um video da cena). Ao mesmo tempo, perante os repórteres que cobriam o evento, renovou o compromisso da nobre missão. “Deste dia em diante, prometo usar meus seios nus sempre para o bem”. Seios esses, é bom acrescentar, que pouco tempo antes tinham sido adequadamente siliconizados para atender à demanda habitual do mercado americano, ditada pelo modelo Playboy.
Bem mais relevante do que esse detalhe frugal é a profundidade do pensamento político dela. Carrie também investiu, naquele momento solene, contra o que chamou de “críticos que tentam silenciar minhas opiniões contrárias ao casamento gay“. Disse ainda: “Pretendo lutar. Responderei à altura com as duas maiores armas que tenho: meus seios nus”. Recolhi esses dados na Internet, daí não estar certo de serem confiáveis. Mas a peregrinação dela aos talk shows da Fox News, onde é apresentada quase como uma nova Sarah Palin, sugere que podem ser (veja mais AQUI).
A dúvida maior, então, é se a governadora Palin está destronada. Em princípio não é essa minha impressão. Na quarta-feira Palin convocou a imprensa para declarar solidariedade a Miss California, a pretexto de que está sendo vítima do mesmo tratamento “desprezível” de que a própria governadora diz ter sido alvo como candidata a vice-presidente na chapa republicana. “As duas fomos alvos dos liberais”, denunciou. Contou ainda ter falado com ela tão logo começaram os “ataques”. E terminou com esta pérola: “A Constituição protege todos nós e não apenas aqueles que se sujeitam à extrema esquerda”. (Confira AQUI)
Hipocrisia e exibicionismo, a receita
Será a combinação de hipocrisia e exibicionismo a receita ideal para as estrelas da política? A pergunta é válida para os irmãos do norte e também para nós. Afinal, hipocrisia e exibicionismo são matéria prima abundante em toda parte. Desconfio de um paladino da ética que compra passagens com dinheiro do contribuinte para os filhos irem à DisneyWorld. Ou que se apresenta à opinião pública como herói que derrubou suposto corrupto – sem explicar porque um ano antes dera seu voto para eleger o mesmíssimo personagem.
E considerem o caso da governadora do Alasca. Apresentou-se ao público como opositora do projeto da “ponte para lugar-nenhum” apesar de ter feito lobby a favor da obra. Contrária à educação sexual nas escolas e a qualquer aula para prevenir adolescentes contra o risco de gravidez, viu a filha sofrer os efeitos negativos disso e continuou agarrada às obsessões irracionais e puritanas do evangelismo retrógrado. Como mãe assistiu ao fim do caso de Bristol (saiba mais AQUI) com o namorado Levi Johnston depois de exibir o casal na convenção republicana (foto do alto). Como autoridade demitiu um cunhado por ter se divorciado da irmã.
Pior ainda é ver essa gente virar bandeira da Fox News e outros veículos do império Murdoch – cujo comportamento em nada difere do da mídia golpista do Brasil, como O Globo e Veja, inventores de falsos paladinos da ética. Depois de fracassar na produção de Joe the Plumber, o falso bombeiro exposto como sonegador de imposto, a Fox agora aposta na Miss California, Carrie Prejean. Ela se juntará, como apresentadora e comentarista do programa “Fox & Friends” (leia AQUI), ao mais prodigioso exército de louras já reunido numa rede de TV.
(Clique na imagem abaixo para ver o momento de glória da Miss California, ao responder à pergunta do jurado gay Perez Hilton
A única vantagem de Sarah Palin continuar na política é a continuação de sua hilária imitação por Tina Fey. Quanto às armas da moça, convenhamos, são convincentes… (Desculpe, sei que o tema é sério, mas não resisti…).