Os militares contra Cheney e a tortura

Petraeus_PhotoMichaelRuhl

Enquanto começa a perder gás a atual operação do conservadorismo republicano bancada pelo império de mídia de Rupert Murdoch (Fox News, etc), agora na obsessão de impedir a aprovação de Sonia Sotomayor para a Suprema Corte, vale voltar à operação anterior, na qual a mesma gente (Dick Cheney, Rush Limbaugh & o resto da turma) acusava o governo Obama de “enfraquecer” o país por repudiar a tortura.

Ironicamente, o golpe de misericórdia contra a conspícua ofensiva extremista liderada pelo vice de George W. Bush veio de personalidades respeitadas da própria área militar. Entre elas, a estrela maior, general David Petraeus (foto acima), o mais alto chefe do Comando Central dos EUA, exaltado pela direita republicana como herói desde que propôs – e liderou – o plano do reforço de tropas (surge) no Iraque.

Cheney_on_Fox_090421Quando destaco o império Murdoch não quero dizer que está sozinho em mais essa operação anti-Obama, pois outros veículos da mídia o acompanham. A FAIR (Fairness & Accuracy in Media), uma organização competente no monitoramento da mídia pela esquerda, citou frase do repórter Jonathan Karl, da rede ABC: “Dick Cheney parece estar em toda parte”. Como vice-presidente fora recluso, fugia da mídia, agora tornou-se “o mais visível dos republicanos”. (Leia AQUI)

Mesmo bancado ostensivamente pela mídia Murdoch, Cheney estava em tantos lugares ao mesmo tempo que ficava difícil deixar de vê-lo. A 15 de março na CNN (“State of the Union”), 20 e 21 de abril na Fox News (“Hannity”, foto acima, à esquerda), 10 de maio na CBS (“Face the Nation”), 12 de maio novamente na Fox News (“Your World” – foto abaixo, à direita). Tornara-se inescapável para quem ligasse a TV.Cheney_on_YourWorld_090512 E o tema central dele é sempre a tortura, que rebatizou com um eufemismo enganoso – enhanced interrogation.

Virar a página e voltar aos valores

Outra ironia sugestiva é o general Petraeus ter escolhido exatamente a Fox News de Murdoch para veicular suas declarações contrárias à tortura e favoráveis ao fechamento da infame prisão de Guantánamo. O chefe militar, mesmo tendo dito com todas as letras que os EUA violaram as convenções de Genebra, preferiu não ser explícito sobre qual fora a violação – o que não exigia maior imaginação dos que o ouviram. (Leia ainda AQUI sobre estupro e sodomia entre as vítimas da prisão de Abu Ghrabi)

Escrevendo sobre o assunto no Huffingtonpost.com, popular website político, o ex-capitão Jon Soltz, veterano da operação Iraqi Freedom (nome oficial da invasão do Iraque em março de 2003) reproduziu parte da entrevista de Petraeus a uma das múltiplas louras da Fox News (saiba mais AQUI e AQUI). Ela perguntou (repetindo o eufemismo de Cheney), como o inimigo reagiria se os EUA dissessem que não mais usariam tortura para arrancar confissões. Eis a resposta dele:

“Bem, eu faria outra pergunta. Perguntaria se isso não vai tirar de nossos inimigos um instrumento que já nos derrotou de novo aos olhos da opinião pública. Depois de termos adotado ações que violaram as convenções de Genebra, fomos criticados e com razão. Assim, o importante agora é virar a página e retomar nossos valores, voltar a cumprir e praticar os acordos internacionais que assinamos”.

Petraeus disse mais ou menos a mesma coisa que o presidente Obama afirmara em seu discurso sobre Guantánamo – ou seja, que os EUA têm de voltar a se conduzir conforme os princípios e valores que pregam. Vale a pena ouvir não só a palavra do chefe militar, mas ainda a ginástica posterior (spin, no jargão da Fox News) da loura obstinada em adaptar a palavra de Petraeus à ideologia do império Murdoch (clique abaixo para ouvir parte da entrevista).

“Os nossos erros, desde o 11/9”

A mesma coisa acontece ainda em relação ao fechamento de Guantánamo (Gitmo, codinome produzido pela burocracia do Pentágono, célebre por suas sopas de letras). O general Petraeus defendeu o fim da prisão, com o que até o presidente Bush já tinha concordado. Lembrou ainda que as práticas dessa prisão “foram usadas por nossos inimigos contra nós”. E reconheceu também que os EUA, a partir do 11/9, “cometeram tropeços e erros”.

Guantánamo, para ele, funciona como “uma lembrança persistente” de tais erros. Quando a loura de Murdoch invocou a hipótese com que a Fox tenta obsessivamente aterrorizar os americanos, de que ex-detidos da prisão infame saiam e circulem livremente nos EUA, Petraeus (foto abaixo) respondeu: “Em primeiro lugar, não acho que deviamos ter medo de praticar nossos valores. É por eles que lutamos, são eles que defendemos”.Petraeus_071231

A solução então, conforme recomendou, é ter confiança no sistema jurídico do país. “Precisamos ter certo grau de confiança de que os indivíduos que conduziram atividades extremas sejam de fato considerados culpados em nossos tribunais e não sejam libertados”. O militar deixou clara sua discordância dos que teimam (como Cheney, que aposta no medo – acrescento eu, AF) em bater nessa tecla ao invés de virar a página.

O retorno à retórica macarthista

Antes mesmo da entrevista de Petraeus a posição de outros militares e ex-militares – dos generais Wesley Clark (foto abaixo, à esquerda) e Paul Eaton a John Shalikashvili, Joseph Hoar e Hugh Shelton, já era essa, inequivocamente. Sem esquecer a resposta contundente dada por Colin Powell a Cheney e Rush Limbaugh. Todos eles tinham deixado claro que o conservadorismo republicano, que há anos se diz porta-voz dos militares, não fala por eles.

Clark_WesleyPara o colunista Jon Soltz, do Huffingtonpost.com, os republicanos abandonaram “os ideais que tornaram nossos militares fortes”. Nos dias atuais gente como Cheney, que tenta tomar o controle das mensagens, idéias, práticas e políticas do Partido Republicano, deixou de lado os antigos princípios e aliados, não mais opera a partir de posições morais elevadas.

Os excessos patrióticos de Cheney, falcão-galinha (chickenhawk) que fugiu do serviço militar e hoje torce por ação terrorista capaz de provar a “fraqueza” dos rivais democratas na defesa do país, dificilmente ajudarão os republicanos. Ao contrário, correm o risco de derrotar o partido que já foi de Joe McCarthy, zeloso caçador de bruxas que acusava os críticos de traidores e cúmplices do comunismo.

O ex-capitão Soltz concluiu com o testemunho de um veterano da contra-inteligência americana no Afeganistão, Jay Bagwell. Ao condenar a tortura, Bagwell contou ter visto detidos com panfletos que retratavam o que ocorria em Guantánamo, causa da adesão deles ao terrorismo. “Os EUA não podem ser um farol da liberdade, dos direitos humanos e respeito à lei se ignoram a lei internacional”, afirmou (clique na imagem abaixo para ouvir Bagwell). 

Published in: on maio 30, 2009 at 7:50 pm  Comentários (2)  

Do Bronx para a Suprema Corte dos EUA

Sotomayor_Obama

Qualquer que seja o resultado final da votação no Senado, onde a atual maioria democrta é folgada, a juíza Sonia Sotomayor, de 54 anos (foto), indicada pelo presidente Obama para a Suprema Corte, já é uma vencedora, dona de carreira brilhante. Se aprovada, essa filha de portorriquenhos, criada num projeto público de habitação do Bronx de Nova York, será a primeira hispana a integrar o mais alto tribunal do país (saiba mais sobre ela AQUI).

O rigor intelectual e a formação jurídica dela foram citados pelo presidente Obama entre as razões da escolha. De certa forma, a própria oposição republicana tende a reconhecer tais qualidades. Pois foi isso o que fez o primeiro presidente George Bush, o pai, que a indicou em 1991 para juíza de um tribunal federal de Nova York, por sugestão do senador Daniel Moynihan.

Seis anos depois o presidente democrata Bill Clinton indicou-a para um Tribunal de Apelações em distrito de Nova York, onde a juíza Sotomayor ainda serve. Os antecedentes dela são exemplares, como observou o senador Patrick Leahy. Formada na Escola de Direito da Universidade de Yale, foi editora do Yale Law Journal, depois trabalhou no escritório do promotor Robert Morgenthau e exerceu a advocacia.

Uma rica experiência de vida

A confirmação de Sotomayor para a vaga de David Souter não significaria, em princípio, uma mudança no atual perfil ideológico do tribunal. Apesar de ter sido nomeado por um presidente republicano (o primeiro George Bush), Souter integrou-se na Suprema Corte à bancada liberal – da qual tem sido uma das mais vozes liberais mais atuantes (saiba mais sobre Souter AQUI). E há exemplos de outros juízes que mudaram o rumo como ele. 

Sotomayor_SoniaApesar da leve vantagem atual para os conservadores, ainda existe certo equilíbrio na Suprema Corte. Mas a juíza Sotomayor (foto ao lado) levaria para o tribunal, além de seus largos conhecimentos jurídicos, uma rica e singular experiência de vida. “É exatamente essa a combinação que o tribunal está precisando encontrar em seu próximo integrante”, declarou o senador novaiorquino Chuck Schumer.

Depois de ter seu nome anunciado por Obama ontem, no salão leste da Casa Branca – onde a mãe da juíza, Celina Sotomayor, não escondia a emoção e as lágrimas – a indicada declarou publicamente sua gratidão à pessoa a quem acha que mais deve, pois a criou sozinha depois da morte do pai. “Tudo o que sou devo a ela. E sou apenas a metade da mulher que ela é”.

Sem previsão de confrontos

Roberts_Sotomayor_GWUA juíza Sotomayor, na verdade, até já funcionou ao lado do atual presidente da Suprema Corte, John Roberts (como mostra a foto à esquerda). Foi num julgamento constitucional simulado – o Supreme Moot Court – na Universidade George Washington, no verão de 2006. A competição, que atraiu mais de 1500 alunos e membros da faculdade (a maior platéia em 50 anos de história do evento), teve Roberts e Sotomayor como julgadores dos concorrentes (saiba mais AQUI).

A vantagem dos democratas, que têm 60 dos 100 votos do Senado, seria suficiente para impedir até uma tentativa de obstrução pela bancada republicana, que promete por enquanto ser justa na avaliação de Sotomayor. A moderada Olympia Snowe declarou-se satisfeita pela indicação de uma mulher altamente qualificada e disse que avaliará cuidadosamente os antecedentes da escolhida.

Embora tenham sido tranquilas as aprovações de John Roberts (atual presidente) e Samuel Alito, ambos indicados pelo presidente George W. Bush, no passado recente as audiências sobre Abe Fortas para a presidência do tribunal (governo Johnson), Robert Bork (governo Reagan) e Clarence Thomas (governo Bush I) tornaram-se episódios conturbados que dividiram o país. Desses três, só Thomas foi aprovado.

Published in: on maio 26, 2009 at 8:02 pm  Deixe um comentário  

O mito e as verdades embaraçosas sobre JFK

JFKHouve um tempo em que a imprensa ocidental divertia-se com as doenças de governantes russos. A Rússia dominava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, governada por comunistas que “comiam criancinhas”. No sentido literal do verbo inexistia prova disso; no outro sentido eram abundantes as suspeitas e ações judiciais nos EUA, mas culpando padres acobertados pela Igreja católica – tudo ignorado pela mídia até os dias atuais, quando o acúmulo de indenizações a vítimas de pedofilia abala as finanças do Vaticano.

Já as doenças de líderes russos justificam capítulo especial em manuais de jornalismo. Na obsessão de esconder a verdade sobre  as ausências súbitas de líderes em eventos públicos, preferia-se inventar inocentes resfriados. O caso de Konstantin Chernenko foi emblemático: em 1985, depois de um persistente “resfriado”, de meses, ele morreu e abriu  caminho à ascensão de Mikhail Gorbachev e sua glasnost, em seguida ao período tampão  (um ano e pouco) de Yuri Andropov, cuja morte inovou – insuficiência renal.

Esconder a verdade, além de não ajudar em nada, ainda levantava dúvidas sobre a eficácia da medicina russa. Recordo agora a prática porque na época a mídia ocidental ria do comportamento russo mas fazia coisa parecida do lado de cá. Acreditávamos, no tempo da Nova Fronteira e Camelot nos EUA, que o presidene John Kennedy, além de padrão de beleza, exemplo de democracia e  transparência, também era um atleta vigoroso e esbanjava saúde. Não passava de ilusão, criada pela manipulação eficiente da mídia, criadora de mitos. Um fantasma daqueles dias reapareceu agora para nos acordar da fantasia, como um beliscão. É uma  novaiorquina de 66 anos, Mimi (Marion) Beardsley Alford (foto abaixo, à esquerda). Com sua história pessoal na Casa Branca ela pode ajudar a distinguir a realidade do mito.

Outra estagiária e outro presidente

JFK_internHá quatro décadas e meia, com 19 anos de idade, Mimi foi estagiária na residência presidencial. Como Monica Lewinsky, teve um romance – ou caso de sexo – com o então presidente. Mas a mídia naqueles dias reverenciava com seu silêncio os múltiplos casos extraconjugais de John F. Kennedy. Ela foi um deles, entre junho de 1962 e novembro de 1963, num total de 18 meses. O romance só terminou com a morte do presidente.

Embora o nome dela tenha aparecido brevemente numa biografia de JFK publicada em 2003 (An Unfinished Life: John F. Kennedy, 1917-1963, do historiador Robert Dallek), só agora Mimi resolveu contar sua história (saiba mais AQUI e AQUI). Foi convencida pela proposta, superior a US$1 milhão, feita pela editora Random House. Quem ousaria condená-la? Não é preciso muito para simpatizar com a iniciativa de Mimi. Por que deveria levar sua história para o túmulo se será bem remunerada pela editora, se não se envergonha do que viveu, se julga ter sido um bom momento de sua vida, se foi casada duas vezes depois da experiência e os filhos (dois) aprovam sua decisão.

Perseguida em 2003 por jornalistas do tablóide Daily News, de Nova York, viveu as consequências de ter ocultado durante tanto tempo, até dos pais e dos filhos, fato tão explosivo de seu passado. Ela então vivia em Manhattan e trabalhava para uma Igreja presbiteriana da 5a. Avenida. Ouvida, limitou-se a confirmar que era verdade. A decisão agora de escrever as memórias, para um livro que já tem título (Once Upon a Secret / Era uma vez um segredo) e cujos originais serão entregues em outubro, é a seguinte:Mimi_Beardsley_Alford2 “Trata-se de algo sobre a qual eu gostaria de assumir o controle, ao invés de deixar que qualquer outra pessoa conte meu lado da história”.

O relato do livro, segundo reportagem d0 New York Times sábado passado, é em três atos: antes do estágio na Casa Branca; durante o estágio; e, finalmente, a parte mais vigorosa, o que aconteceu depois. Qual o impacto na vida familiar de Mimi (a foto ao lado é da época do estágio) e no casamento dela ao ser revelado o fato e porque tinha optado pelo sigilo total.

Expondo a mídia e sua manipulação

A história do romance proibido de Mimi é comparável à de Judith Immor Campbell Exner (foto abaixo, à esquerda), que morreu de câncer em 1999, aos 65 anos (saiba mais sobre ela AQUI), depois de publicar um livro e dar dezenas de entrevistas – a partir de 1975, quando foi intimada a depor numa comissão de investigação do Congresso. Ela tinha sido ligada a celebridades de Hollywood, inclusive Frank Sinatra e William Campbell (com quem foi casada) e também a chefões da Máfia como Sam Giancana e John Roselli.Exner_judith

Giancana, que morreu em 1965, foi citado em especulações da mídia, frequentemente levianas, como responsável pela fraude em Illinois que ajudou a dar a vitória a John Kennedy em 1960, como ainda em conexão com atentados da Máfia, a pedido da CIA, para assassinar Fidel Castro (Power and Beauty, filme feito para a TV, contou toda a história em 2002 – veja a capa do DVD abaixo, à direita, e saiba mais AQUI). É parte da ficção fabricada na mídia depois do assassinato de Dallas em 1963. Mas o que já está de fato comprovado hoje sobre Kennedy, em especial sobre sua saúde, sugere manipulação capaz de envergonhar o país e sua mídia.

Ted Sorensen, assessor próximo do presidente na Casa Branca, contou em sua biografia Kennedy, de 1965, que uma das razões da vantagem do candidato democrata sobre Richard Nixon no debate decisivo fora sua imagem saudável. Bonito e bronzeado, muito à vontade, contrastava com o rival, que parecia doente (a barba cerrada o prejudicava na TV). Em 2003, a biografia de Dallek revelou o contrário: Kennedy era um homem minado por um conjunto de doenças, cuja ficha médica foi (ainda é, até hoje) escondida do público.Exner_Power&Beauty

Para escrever seu livro sobre a vida inacabada de Kennedy (An Unfinished Life - leia uma resenha do Times AQUI), Dallek precisou antes de autorização especial (negada a muitos outros pesquisadores) de um comitê encarregado pela família de zelar pelos registros médicos de Kennedy. Era presidido então pelo escritor Ted Sorensen, ex-conselheiro especial na Casa Branca, e integrado por mais duas personalidades ligadas aos Kennedy, o advogado Burke Marshall e o cientista político Samuel Beer. Nenhum deles médico, apenas guardiões zelosos de possíveis segredos embaraçosos.

Entre dor e pílulas, na crise dos mísseis

Graças ao privilégio, Dallek teve permissão para ler os documentos durante dois dias, em companhia do médico Jeffrey A. Kelman, e fazer anotações. Mas não foi autorizado a fotocopiar qualquer dos papéis. Mesmo assim, o autor observou que os registros mostram a que ponto as doenças de Kennedy foram deliberadamente ocultadas, talvez por destruirem a imagem que os assessores tinham criado para ele na mídia. Há contradições e detalhes insólitos, difíceis de explicar. Parece que se construiu uma mentira e a imprensa, para variar, preferiu não se dar ao trabalho de contestar.

Kennedy_byDallekDurante anos dizia-se que o único problema dele era de coluna, devido a ferimento sofrido no naufrágio do pequeno barco PT que comandara na guerra do Pacífico. Na verdade esse era um entre múltiplos problemas de saúde – inclusive os intestinais, que datavam da década de 1930. Ele tomou remédios durante anos, muitas vezes por dia. Dallek estranhou ainda não haver entre os registros qualquer referência a Max Jacobson, médico de Manhattan com quem Kennedy fizera tratamento e que mais tarde  teve a licença cassada por receitar anfetaminas.

A dra. Janet G. Travell, que tratara dele durante muitos anos, é outro caso curioso: afastou-se por discordâncias com outros médicos. Em 1962, durante os 13 dias da crise dos mísseis, que deixou o mundo à beira de uma catástrofe nuclear, ele tinha dores horríveis todo o tempo e tomava remédios – antiespasmódicos para controlar colite, antibiótico para infecção urinária, quantidades cada vez maiores de hidrocortizona e testosterona, juntamente com tabletes de sal para controlar a insuficiência de adrenalina e como reforço energético.

Por favor, relevem erros eventuais de tradução, pela minha pouca familiaridade com medicina. Prefiram ir direto ao texto original sobre o livro (o da capa acima, à esquerda), saído há seis anos no New York Times, que também publicou muito mais informações relevantes (AQUI). Parece-me claro, no entanto, que o único objetivo do comitê que passou a controlar os registros médicos de Kennedy depois de sua morte é o de acobertar mentiras ditas impunemente no passado sobre a saúde dele, para enganar o público. Como se fazia na URSS. E eram tantas que geravam conflitos entre os próprios médicos.

Published in: on maio 25, 2009 at 8:32 pm  Comentários (1)  

Na ofensiva do medo, Cheney contra Obama

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Discursos, no mesmo dia, do presidente Obama e do ex-vice Dick Cheney deixaram bem claro, de novo, que o Partido Republicano, despedaçado pela vitória democrata de 2008, aposta agora despudoradamente no medo. Os republicanos parecem temer que  só um ataque terrorista devastador nos EUA (ou instalações americanas de outro país) será capaz de reabilitar seu partido, quase reduzido à condição de zumbi – comparável aos bancos-zumbis, outra herança das políticas desastrosas de Bush.

Na ausência do ex-presidente Bush, recolhido ao silêncio, o ex-vice Cheney assumiu a ofensiva com sucessivos pronunciamentos e num esforço para socorrer tanto o mais destemperado dos que se julgam “cabeça titular” informal do partido à deriva – caso de Rush Limbaugh, rei dos talk shows de rádio – como os que têm responsabilidade institucional, como Michael Steele, presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC) e os líderes do partido na Câmara e no Senado.
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O fato de Obama ter mantido o secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, é na certa a razão de estar a oposição discreta ante o novo espasmo de violência no Iraque, que em dois dias matou 66 pessoas, entre elas três soldados americanos e mais de 20 iraqueanos (veja a foto do alto). Ataques repetem-se desde abril, agravando a tensão sectária a semanas da saída das tropas americanas de Bagdá e outras cidades, onde a responsabilidade passará às próprias forças de segurança do Iraque (saiba mais AQUI).

O falso renascimento e a receita duvidosa

Na terça-feira Michael Steele (foto abaixo) tinha feito um discurso otimista, de cheerleader – o que talvez esteja sendo seu papel atual. Proclamou que os republicanos estão de volta, com toda a força, pois as coisas mudaram,Steele_Michael a lua de mel de Obama chegou ao fim e começa um novo capítulo para os republicanos, o do “renascimento”. Mas as pesquisas, uma após outra, mostram exatamente o contrário: o apoio ao partido continua a declinar (saiba mais AQUI).

Quinta-feira a pesquisa do Pew Research Center concluiu: de 2002, quando a popularidade de Bush (favorecida pela histeria patrioteira pos-11/9), empurrou os republicanos para virtual empate (43% a 43%) com os democratas na preferência partidária, a 2009 (com o início apoteótico do governo Obama), o quadro se transformou. Agora as pessoas que se identificam como democratas são 53% e os republicanos, 36%. Diferença de 17 pontos percentuais, a maior em duas décadas (leia AQUI).

Cheney acha que pode mudar o desequilíbrio se insistir em apregoar que só os republicanos garantem a segurança. “Em sete anos e meio o país foi protegido. Não houve ataque terrorista”, pontifica a cada nova entrevista ou discurso, inclusive o de ontem no AEI (American Enterprise Institute). Ali defendeu, no mesmo contexto, até o uso da tortura (sob o eufemismo enhanced interrogation) para arrancar informações de presos. O discurso de Cheney traz ainda, implícita, a insinuação de que o atual governo, por rejeitar a tortura, é fraco – e deixa o país vulnerável ao terrorismo. (Leia a íntegra em pdf do discurso de Cheney AQUI)

“Sr. Cheney, seu governo não deu segurança”

Cheney CBSO democrata Paul Begala, ex-assessor na Casa Branca de Clinton e atuante há anos nas arenas dos talk shows da TV, deu num artigo, a 13 de maio, a resposta demolidora que o Partido Democrata nunca ousou. “Sr. Cheney, o senhor não manteve o país seguro”, disse ele. “Se 3.000 americanos foram mortos no seu governo, em ataque que devia ter sido evitado, talvez o senhor devesse hesitar em fazer acusação a qualquer pessoa de estar colocando a América em risco”.

Também foi explícito sobre tortura: “Se o senhor defendeu a tortura e se a tortura produziu informações erradas, usadas ainda para enganar a população e lançar a América numa guerra equivocada (no Iraque), injusta e não justificada, o senhor devia mostrar alguma vergonha ao invés de defender o uso da tortura” (leia a íntegra AQUI). Ao se dirigir quinta-feira ao país, Obama ficou longe disso. Mas fez seu discurso mais enfático contra os oito anos de desatinos da dupla Bush-Cheney.

Sob pressão dos republicanos e até de democratas, por ordenar o fechamento da prisão de Guantánamo (saiba mais AQUI), fez defesa vigorosa dessa posição do governo. “Não vamos libertar ninguém que coloque em perigo nossa segurança nacional”, disse. “Se tomamos a decisão foi tendo em mente o seguinte fato. Ninguém jamais fugiu de nossas prisões federais de segurança máxima, onde estão atuamente centenas de terroristas condenados” (íntegra do discurso AQUI).

Obama_090521Em defesa dos valores fundamentais

Enquanto expunha os planos sobre os 240 detidos ainda em Guantánamo, o presidente acusou o governo anterior de ter embarcado em “experimento mal orientado” que acabou degenerando em “lambança”. Agora, garantiu, haverá um padrão de legitimidade jurídica para justificar a detenção de suspeitos perigosos de terrorismo, que antes não seriam julgados e nem libertados – proposta que causava inquietação entre defensores dos direitos humanos.

Obama falou num cenário diferente da capital – nos Arquivos Nacionais onde são mantidos os documentos fundamentais: a Declaração da Independência, a Constituição e a Carta de Direitos. Era evidente o simbolismo, conforme assinalou o New York Times. Como comandante em chefe, o presidente tem de preservar os valores americanos legados pelos pais fundadores (o repúdio à tortura entre eles) e ao mesmo tempo proteger a segurança nacional.

Ao insinuar que os democratas fraquejam, Cheney diz que o combate ao terrorismo tem de ser implacável, sem contemplação ou meias medidas. Para ele, está certo abrir mão de certos valores e direitos sob o pretexto da segurança. Mas Obama tem outro enfoque para o quadro: “Acredito com cada fibra de meu ser que a longo prazo não podemos manter este país seguro a menos que usemos também a força de nossos valores mais fundamentais”.

Published in: on maio 22, 2009 at 11:48 am  Deixe um comentário  

Obama e os torturadores de Bush

Torture_DailyTelegraph_May09

Não é difícil entender porque o presidente Barack Obama colocou-se contra a divulgação de mais fotos das torturas na infame prisão de Abu Ghraib (como a do alto, publicada dia 17 no Daily Telegraph de Londres – saiba mais e veja 16 delas AQUI). Julgando-se ainda na lua-de-mel dos primeiros meses de governo, apesar da hostilidade aberta da oposição, tem tentado atrair mais republicanos depois de nomear Robert Gates para o Pentágono. Parece nunca desistir da “aparência bipartidária”.

Consciente de que as fotos seriam publicadas de qualquer jeito (e já estão de novo nas primeiras páginas pelo mundo), preferia não ser o alvo da oposição no caso de serem elas responsabilizadas por ações contra soldados dos EUA. Antes suportara críticas duras por não ter recorrido contra a decisão judicial que mandara o governo divulgar os infames memorandos justificando juridicamente as torturas.

Também é fácil compreender as razões dos setores mais à esquerda do Partido Democrata – o que inclui, dada a elasticidade dos critérios da direita republicana, até o megainvestidor George Soros, já retratado na mídia neoconservadora como “extremista de esquerda” – contra o que encara como recuo, marcha-a-ré, ou flip flop, a expressão para os que dizem uma coisa hoje e o contrario amanhã. Na campanha ele fora pródigo nas promessas de transparência.

Não é hora de virar a página

Ironicamente, a expressão que dá nome a uma das organizações liberais rotuladas de “ultraesquerdistas” pelos talk shows da mídia republicana (e que tem Soros como um dos financiadores) é Move On – com o significado de “vire a página”, “vamos em frente” (saiba mais sobre ela AQUI). Isso porque ao nascer, para defender o presidente Clinton em meio à histeria republicana do impeachment em 1998, pedia que aquela página do escândalo de sexo fosse virada.

Seu website (moveon.org) não admite ser agora o momento de virar a página e deixar na impunidade os criminosos do governo Bush. Afinal eles fabricaram uma guerra sob falso pretexto (o das inexistentes armas de destruição em massa) e oficializaram a política ilegal da tortura e sua terceirização (com os vôos secretos da CIA, que também violaram leis dos EUA e tratados internacionais).

O colunista Frank Rich, Rich_Frankdo New York Times (foto ao lado – saiba mais sobre ele AQUI) foi enfático ao escrever domingo: “Ainda que o presidente Obama queira muito virar a página do governo passado, não pode fazê-lo. Enquanto não houver transparência real e os culpados não forem responsabilizados, as revelações sobre o pesadelo dos últimos oito anos podem continuar vindo, gota a gota, e perturbar os planos maiores do novo governo”. (Leia a íntegra AQUI

Para Rich, as novas imagens de torturas sequer serão as provas mais chocantes dos pecados da era Bush ainda a serem devassados. Já há muitos indícios – pontos que, conectados um a um, tomarão a forma de novos desenhos, não necessariamente sobre a tortura. O colunista citou artigo publicado no domingo anterior pelo website da revista GQ, assinado por personagem insuspeito, um biógrafo de Bush (leia AQUI).

A manipulação de Rumsfeld

Quando fazia, em 2007, seu livro Dead Certain: The Presidency of George W. Bush (capa à direta), o autor  - jornalista texano Robert Draper – conversou uma dezena de vezes com o Bush_DeadCertainentão presidente. Mas no artigo de agora acrescentou detalhes novos para um dossiê futuro “sobre como a fase corrupta e incompetente de Donald Rumsfeld no Pentágono custou vidas de americanos e comprometeu a segurança nacional”.

Por ter falado com Bush e mais de uma dúzia de seus auxiliares mais leais de nível elevado, ele retratou na GQ como a obsessão meio maníaca de Rumsfeld levou o então secretário da Defesa a antagonizar no Iraque aliados voluntários dos EUA na guerra, como a Grã Bretanha e a Austrália, e até a sabotar os próprios soldados americanos. A receita para ter o apoio de Bush, acha ele, foi no mínimo insólita.

Rumsfeld produzia informes diários ultra-secretos do Pentágono (os WIU, Worldwide Intelligence Update), de cuja coleção Draper obteve recentemente nada menos de 11. A cada dia as páginas do WIU eram entregues em mãos a grupo muito restrito de autoridades (entre elas, Bush), às vezes pelo próprio Rumsfeld. Na folha da capa, sempre fotos triunfais e coloridas da guerra, sob citações literais da Bíblia.

No de 3 de abril de 2003, duas semanas depois do início da invasão (com “choque e horror”), as tropas esbarravam nos tropeços iniciais. Em pânico, o Pentágono lançara dois dias antes a ficção mentirosa sobre a soldadinha Jessica Lynch, a fim de desviar a atenção dos problemas. E no dia 2 o general Joseph Hoar, ex-chefe do Comando Central dos EUA, afirmara que o número de soldados era insuficiente.

CIA tortura, culpa de Pelosi

US-RUMSFELD-BRIEFINGA citação bíblica da foto na capa do dia 3, com a clara intenção de apertar o botão vermelho da emoção religiosa de Bush, era de Josué (1:9). Esta: “Eu já não o ordenei antes? Seja forte e corajoso. Não se deixe intimidar. Não se deixe desencorajar, pois o Senhor seu Deus estará em sua companhia onde quer que vá”. (Inclusive, para atolar no pântano – ironizou o relato de Rich).

Indiferente à segurança nacional, segundo Draper e Rich, o então secretário da Defesa, que nunca se notabilizara pela fé ou religiosidade, buscava cinicamente manipular Bush, amante frequente de citações da Bíblia. Rumsfeld (foto à esquerda) incluia ao mesmo tempo, nos WIU, colagens diárias, com mensagens na linha das Cruzadas e imagens de guerra – um reforço ao temor apocalíptico islâmico à guerra religiosa.

Rich estendeu-se mais sobre o horror que revelações ainda tendem a documentar do pesadelo bushista. Mais corrupção, negociatas e relações promíscuas com fornecedores, entre elas. E outro detalhe já aflorado: a cúpula civil do Pentágono, em conluio com o vice Dick Cheney, forçava o uso da tortura principalmente pela obsessão de provar a tese, amplamente desmentida depois da invasão, da ligação fantasiosa de Saddam Hussein com Bin Laden.pelosi1

A oposição que antes bloqueava o debate parlamentar da tortura agora aceita falar – mas só sobre Nancy Pelosi, presidente da Câmara, criticada por acusar a CIA de enganar o Congresso. A mágica republicana consiste em culpar Pelosi, que integrou (sem poderes) a comissão de Inteligência, onde tinha acesso a relatórios e diz ter sido enganada. Já os vilões – a CIA e os que autorizaram, executaram e ocultaram a tortura – podem continuar na impunidade. (E leia AQUI a primeira reportagem, de Seymour Hersh para The New Yorker, que revelou ao mundo em 2004 a extensão do escândalo das torturas de Abu Ghrabi)

Published in: on maio 18, 2009 at 6:49 pm  Comentários (2)  

Nasce mais uma estrela da política

MissCalifornia(2x)Cada um tem o paladino da moralidade pública que merece. O da Veja, como todo mundo sabe (até por ter sido exaltado numa capa histórica da revista em plena campanha eleitoral – veja a foto abaixo, à esquerda), é o deputado Fernando Gabeira, apoiado em 2008 por tucanos e demo-pefelês. Mais sugestivo é o que faz nos EUA a direita republicana. Zelosa na defesa de seus princípios religiosos, adotou como mascote a bem dotada jovem da foto à direita, que alia às curvas uma sólida formação cristã.

O nome dela é Carrie Prejean. Como Miss California, no concurso Miss USA, ela foi perguntada por um jurado – Perez Hilton, uma celebridade gay da Internet - se os demais estados deviam imitar Vermont e mais três que legalizaram o casamento de pessoas do mesmo sexo. “É bom que nós, americanos, podemos escolher uma coisa ou outra”, respondeu a virtuosa candidata. “No meu país, na minha família, acho que o casamento devia ser entre um homem e uma mulher. Sem ofender ninguém, mas é como fui criada. Acho que devia ser entre um homem e uma mulher”.

As versões sobre o que aconteceu depois variam. Segundo uma delas, a veiculada pela Fox News do império Murdoch e abraçada pela piedosa direita cristã republicana, Miss Califórnia foi humilhada pelo público com uma vaia maior do que qualquer candidata já ouviu em toda a história do concurso (o video no final deste post me deixou a impressão de que ela foi aplaudida). E o jurado gay, além de chamá-la depois de dumb b*tch (p*ta idiota), ainda disse que ela perdeu por causa do voto dele.

Depois dos paladinos, a vigarice

Gabeira_Veja_06No desdobramento, a própria Carrie resolveu prolongar ao máximo seus 15 minutos de fama (conheça mais detalhes AQUI). Primeiro argumentou que sua posição era exatamente igual à do presidente Barack Obama: respeita a união civil de gays que optem por esse caminho a fim de assegurar certos direitos, mas acha que casamento é só entre um homem e uma mulher. Depois, repentinamente, passou a fazer pose de mártir da causa conservadora – e vítima de fantasioso complô comuno-homossexual que ameaça o país e o mundo por causa do governo Obama.

São sempre exemplares essas histórias de personalidades exibicionistas, em especial quando elas se arvoram em paladinos da ética e da moralidade pública. O promoter semi-falido Donald Trump, proprietário do concurso Miss USA, é outro conspícuo detentor do mesmo desvio. Ao perceber o apadrinhamento de sua Miss pelos talk shows de extrema direita, em especial na Fox News e demais veículos do império Murdoch, resolveu entrar em cena. Obviamente não tinha o direito de deixar de faturar a revelação, pelos tablóides de escândalo, de fotos sexuais dela, até então desconhecidas.

Trump_CarrieDetalhe: Trump estava meio foragido havia três meses. Reapresentava-se à mídia pela primeira vez desde que tinha estourado seu mais recente caso de vigarice explícita, o Ocean Resort Baja. Embolsara dezenas de milhões de dólares de 69 incautos – gente que tinha comprado unidades desse condomínio de luxo, cuja construção, na cidade de Tijuana, na fronteira do México, nunca chegara sequer a ser iniciada (saiba mais AQUI). Já no caso da Miss, o espetáculo que Trump encenou às pressas foi um “julgamento” – para decidir se ela mentira ao jurar que nunca posara nua ou seminua para fotos (saiba mais AQUI). Como único juiz, ele resolveu que Carrie não violou o juramento, pois eram fotos soft core e não hard core. Ela manteve sua preciosa faixa de Miss California (foto acima).

“Vou usar estas duas armas”

CarrieA encenação de Trump (na Trump Tower de Nova York) cuidou de cada detalhe. Como um sacerdote da moralidade pública ele absolveu os pecados da doce Carrie, sem impor sequer a penitência de uma Ave Maria. Abraçaram-se os dois diante das câmeras da Fox News e ela conservou a coroa de rainha da beleza do glorioso estado da Califórnia (saiba mais AQUI, onde pode ser visto um video da cena). Ao mesmo tempo, perante os repórteres que cobriam o evento, renovou o compromisso da nobre missão. “Deste dia em diante, prometo usar meus seios nus sempre para o bem”. Seios esses, é bom acrescentar, que pouco tempo antes tinham sido adequadamente siliconizados para atender à demanda habitual do mercado americano, ditada pelo modelo Playboy.

Bem mais relevante do que esse detalhe frugal é a profundidade do pensamento político dela. Carrie também investiu, naquele momento solene, contra o que chamou de “críticos que tentam silenciar minhas opiniões contrárias ao casamento gay“. Disse ainda: “Pretendo lutar. Responderei à altura com as duas maiores armas que tenho: meus seios nus”. Recolhi esses dados na Internet, daí não estar certo de serem confiáveis. Mas a peregrinação dela aos talk shows da Fox News, onde é apresentada quase como uma nova Sarah Palin, sugere que podem ser (veja mais AQUI).

A dúvida maior, então, é se a governadora Palin está destronada. Em princípio não é essa minha impressão. Na quarta-feira Palin convocou a imprensa para declarar solidariedade a Miss California, a pretexto de que está sendo vítima do mesmo tratamento “desprezível” de que a própria governadora diz ter sido alvo como candidata a vice-presidente na chapa republicana. “As duas fomos alvos dos liberais”, denunciou. Contou ainda ter falado com ela tão logo começaram os “ataques”. E terminou com esta pérola: “A Constituição protege todos nós e não apenas aqueles que se sujeitam à extrema esquerda”. (Confira AQUI)

Hipocrisia e exibicionismo, a receita

Bristol_LevinSerá a combinação de hipocrisia e exibicionismo a receita ideal para as estrelas da política? A pergunta é válida para os irmãos do norte e também para nós. Afinal, hipocrisia e exibicionismo são matéria prima abundante em toda parte. Desconfio de um paladino da ética que compra passagens com dinheiro do contribuinte para os filhos irem à DisneyWorld. Ou que se apresenta à opinião pública como herói que derrubou suposto corrupto – sem explicar porque um ano antes dera seu voto para eleger o mesmíssimo personagem.

E considerem o caso da governadora do Alasca. Apresentou-se ao público como opositora do projeto da “ponte para lugar-nenhum” apesar de ter feito lobby a favor da obra. Contrária à educação sexual nas escolas e a qualquer aula para prevenir adolescentes contra o risco de gravidez, viu a filha sofrer os efeitos negativos disso e continuou agarrada às obsessões irracionais e puritanas do evangelismo retrógrado. Como mãe assistiu ao fim do caso de Bristol (saiba mais AQUI) com o namorado Levi Johnston depois de exibir o casal na convenção republicana (foto do alto). Como autoridade demitiu um cunhado por ter se divorciado da irmã.

Pior ainda é ver essa gente virar bandeira da Fox News e outros veículos do império Murdoch – cujo comportamento em nada difere do da mídia golpista do Brasil, como O Globo e Veja, inventores de falsos paladinos da ética. Depois de fracassar na produção de Joe the Plumber, o falso bombeiro exposto como sonegador de imposto, a Fox agora aposta na Miss California, Carrie Prejean. Ela se juntará, como apresentadora e comentarista do programa “Fox & Friends” (leia AQUI), ao mais prodigioso exército de louras já reunido numa rede de TV.

(Clique na imagem abaixo para ver o momento de glória da Miss California, ao responder à pergunta do jurado gay Perez Hilton
Published in: on maio 16, 2009 at 3:21 pm  Comentários (1)  

A volta da “Tribuna” de Helio Fernandes

fernandes_helioAos que têm reclamado – pessoalmente, por emails e em comentários ao blog – contra a ausência da Tribuna da Imprensa, cujo website desapareceu, creio que a 31 de março, mais de três meses depois da suspensão da edição impressa, aqui vai a esperada notícia. A Tribuna online está de volta desde ontem, respondendo no mesmo endereço eletrônico antigo (AQUI), como também num endereço novo (AQUI). Depois de clicar, basta incluir nos favoritos de seu navegador. Para tanto só me resta repetir, agora também por extenso: heliofernandes.blogspot.com  ou   www.tribunadaimprensa.com.br

Infelizmente, essa volta ainda é uma operação mais ou menos improvisada, de emergência, limitada a um artigo maior de Helio Fernandes e à sua coluna, atualizada várias vezes por dia (foram incluídos ainda links para este blog e o de Sebastião Nery, aparente homenagem dele a dois dos mais antigos colunistas do jornal). Mas ontem ouvi de Helio que a versão online completa da Tribuna, como era antes, com as notícias, as colunas, as cartas dos leitores e as respostas dele, pode ser o passo seguinte. Não está descartado o retorno da edição impressa, tão logo seja recebida a indenização já decidida pelo Supremo Tribunal Federal.

Seria então a vitória completa para o jornal que foi um alvo conspícuo da ditadura ao tempo em que a imprensa golpista dos jornalões, premiados na época com prédios suntuosos  (em troca da submissão aos donos do poder, claro), hoje prefere chamar de “ditabranda” (saiba mais AQUI, AQUI e AQUI, posts anteriores que escrevi neste blog sobre o assunto). Por enquanto  a única explicação para o repentino desaparecimento da versão online é um mal-entendido da parte do hospedeiro do site. Agora há um novo hospedeiro.

Presença também no Jornal da ABI

JornalABI_fevereiro2009

Com 88 anos de idade, Helio Fernandes não parece ter descansado nesse período de ausência da Tribuna nas bancas e na Internet. Pelo menos é essa a minha conclusão, pois mais de duas páginas do Jornal da ABI que recebi ontem são ocupadas por uma longa reportagem histórica dele, “Os bastidores, antes e depois, da famosa entrevista de José Américo a Lacerda”. E tão surpreendente como esse texto, a propósito de outro saído antes sobre o episódio, é esta afirmação de Helio: “Há muito a contar e por coincidência eu estava no lugar certo e na hora certa; conheço episódios até hoje não contados”.

Chamo de reportagem porque o autor sempre se considerou um repórter. Uma das expressões mais repetidas no seu jornalismo é a referência a si mesmo como “este repórter”. Mas originalmente o texto de agora era, na verdade, um longo email enviado ao presidente da ABI. Maurício Azedo, também um repórter com muita estrada, identificou prontamente a reportagem, limitando-se a explicar aos leitores que mantinha o tom coloquial, até mesmo a despedida “com o abraço”, no final, seguida de um PS.

jaguar_sigOs leitores que decidirem procurar o Jornal da ABI (é a edição de março de 2009) vão encontrar ainda muito mais coisas, inclusive um destaque especial para os melhores tempos do Pasquim. Primeiro com uma entrevista de Jaguar exatamente naquele padrão que consagrou o jornal – até porque conduzida por Rick Goodwin, que era quase criança quando começou a gravar e, de certa forma, organizar, as entrevistas caóticas do passado, regadas a uísque. E, depois, por uma “lembrança” de HenfilHenfil_Grauna, com depoimento do filho Ivan Consenza de Souza, alguns de seus melhores cartuns e uma excelente foto na capa, com o título “Henfil para sempre”. Para o acesso à edição em PDF, clique AQUI.

Published in: on maio 14, 2009 at 12:41 pm  Comentários (4)  

Wall Street e os porcos do México

Swine_Flu_Edgar-Hernandez

Na linguagem médica, Edgar Hernández Hernández, o garoto mexicano da foto acima, de apenas quatro anos, é o paciente zero da gripe suína – o primeiro a contrair a doença. Como já foi dito, provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Mas ele conseguiu sobreviver, depois de medicado. A gripe tinha sido constatada na cidade de La Glória em dezembro de 2008. Em março passou a disseminar-se rapidamente.

Volto à doença hoje para falar do que li no website Global Research (conheça-o AQUI), do Centro para Pesquisas sobre a Globalização (CRG). Esta é uma organização independente, sem fins lucrativos, que reúne escritores, acadêmicos, jornalistas e ativistas. Registrada na província canadense de Quebec, também publica livros, apóia projetos humanitários e realiza atividades na área educacional.

Além disso e de ter o seu site, o CRG atua ainda como think tank, instituto de reflexão, sobre temas econômicos e geopolíticos. No final do mês passado o Global Research publicou sugestiva comparação a propósito da gripe suína, algo que não cheguei a fazer ao abordar o assunto antes.SwineFlu_pigs “As fazendas industriais de porcos são exatamente como a Wall Street”, dizia o título insólito.

Os agronegociantes e os banqueiros 

Embora o site do Global Research tenha versão em português, o artigo a que me refiro não foi traduzido – o que me leva a fazê-lo para o leitor. (A íntegra do original em inglês pode ser lida AQUI). Segue-se a tradução:

Uma teoria sobre a gripe suína que está ganhando força rapidamente é que ela se espalhou através de moscas que se concentram sobre as lagoas fecais nas fazendas industriais de porcos da Granjas Carroll no estado mexicano de Vera Cruz (saiba mais AQUI). A Carroll é propriedade, em parte, da Smithfield Foods – a maior companhia de porcos do mundo, que cria 950 mil por ano naquelas instalações (do México).

Em fazendas de porcos naquela escala industrial, os animais ficam amontoados em espaços tão pequenos, tão apertados, que mal conseguem se movimentar. Existem tantos que eles produzem muitas toneladas de excrementos, que são simplesmente lançados em gigantescas lagoas a céu aberto. É a Wall Street das fazendas de porcos. Tanto em Wall Street como naquelas fazendas de produção de carne, os porcos alimentam-se em instalações públicas.

E mais. Nas fazendas de porcos, como em Wall Street:

  1. Um par de companhias gigantes dominaram a paisagem;
  2.  Agências reguladoras permitiram que elas ficassem ali fora de controle, fazendo o que bem entendem;
  3.  As companhias fizeram sua lambança sabendo que os governos viriam para juntar os cacos e consertar as coisas, caso isso se tornasse necessário;
  4. Os lucros foram privatizados e as perdas socializadas.

No caso dos porcos, os lucros das megafazendas foram embolsados pelas companhias, mas a conta dos custos da epidemia de gripe suína vai para os contribuintes. As fazendas de porcos jogaram quantidades colossais de excrementos naquelas comunidades locais – o que não só espalhou doenças na área como causou um problema global de saúde. Da mesma forma, gigantes de Wall Street produziram sistematicamente trilhões de dólares em “ativos tóxicos” que as nações do mundo inteiro, como seus contribuintes, pedem agora que sejam “desintoxicados”.

Ou, como escreveu um blog: Os agronegócios têm de ser responsabilizados. Eles estão seguindo as mesmas regras adotadas para os banqueiros; embolsam lucros e jogam as perdas (na forma da doença da vaca louca ou, agora, da gripe suína) em cima do público. Afinal de contas, não é tão alto o preço. Só uns poucos milhões de mortos e o abandono da produção local em pequenas fazendas.

GlobalResearch_x

Até aí, a tradução (acima, o banner do Global Research). Você pode saber mais sobre o menino Edgar e a gripe suína na ampla reportagem publicada pelo Guardian de Londres dia 27 de abril (leia AQUI). Ela foi citada no Global Research, cujo texto (o reproduzido acima) tinha saido originalmente, conforme revelava outra informação, com a assinatura (um pseudônimo) “George Washington”, no progressista e liberal OpEdNews, OEN (leia AQUI).

…E uma receita para saquear o Tesouro

A comparação com Wall Street e seus banqueiros também foi feita por outros – como David Sirota, do Blog for Our Future, no dia 8 de maio. Ele foi ainda mais agressivo, inclusive no título: “Capitalismo emporcalhado: A conexão entre a epidemia de gripe suína e a desintegração de Wall Street” (leia AQUI). Quanto ao Global Research, também deu a entender que teve como base um artigo assinado na seção de Economia do New York Times, a 11 de março deste ano, por David Leonhardt, sob um título que eu traduziria como “O assalto aos cofres do Tesouro na América” (leia o texto em inglês AQUI).

Leonhardt inspirou-se em outro texto, publicado 16 anos antes por George Akerlof (que depois ganharia o prêmio Nobel) e Paul Romer, um renomado especialista em crescimento econômico. É imperdível. Eles diziam que a causa de várias crises financeiras da década de 1980 fora o fato de investidores privados terem saqueado o governo. Tomaram emprestado somas enormes e embolsaram lucros gigantescos enquanto a situação era boa. Depois transferiram a perda final, previsível, para o governo.

Times condenava enfaticamente a conduta agora de Ben Bernanke e do Fed, o banco central americano. Leonhardt observou que Akerlof e Romer tinham concluído o paper deles no início da década de 1990, ainda na ressaca dos excessos dos anos 1980. “Mas o sr. Akerlof disse ao sr. Romer – um cético sr. Romer, como ele reconheceu rindo há poucos dias – que o próximo candidato a saquear o Tesouro já parecia ter tomado forma. Era um obscuro mercadozinho chamado derivativos de crédito”.

Published in: on maio 14, 2009 at 1:21 am  Comentários (1)  

Só Bin Laden pode salvar Dick Cheney

Cheney_CNN

No passado recente Dick Cheney, como um vice-presidente obcecado pelo sigilo e aparente “gênio do mal” do governo Bush, fugia de entrevistas como o diabo da cruz. Negava-se a falar mesmo a estrelas da Fox News, o templo da direita e do conservadorismo republicano. Agora, ao contrário, parece ter menos coisas a esconder e mais a dizer. Assim, persegue  jornalistas até na mídia que mais evitava.

Foi o caso de suas duas últimas entrevistas à televisão. Uma à rede de cabo CNN (foto do alto – saiba mais AQUI), escolhida por ele para o primeiro desabafo depois de sair com Bush da Casa Branca. Escolha estranha: além de liberal, ao contrário da conservadora Fox, aquela rede é sua rival mais próxima na disputa pela audiência. A outra entrevista, domingo, foi à CBS, rede aberta hostilizada pelo bushismo desde que Dan Rather investigou para o “60 Minutes” o tema sensível da fuga de Bush ao serviço militar .

Nas duas entrevistas de agora o ex-vice deixou passar corrosivo ressentimento ante o desprezo do eleitorado americano e da opinião pública mundial pela herança desastrosa do governo Bush-Cheney – guerras sem fim, desintegração econômico-financeira, abandono dos valores que o país dizia defender no passado e violação dos direitos humanos, com a prática da tortura e a espionagem interna.

Uma receita para recriar a histeria

Na recém descoberta paixão de Cheney pela mídia fica claro que a nova batalha dele é para manter o rumo equivocado do Partido Republicano nos últimos oito anos. O resultado eleitoral de 2008 sugeria correção de curso para abrir e ampliar o partido. McCarthy_1954_xCheney obstina-se, ao contrário, em estreitá-lo com o expurgo de infiéis. Aposta numa purificação duvidosa. Sonha com uma espécie de volta ao extremismo macarthista.

O pesadelo da caça às bruxas em seguida à II Guerra Mundial, quando um senador republicano demagogo, Joseph McCarthy (foto ao lado), faturou o medo e ajudou a fabricar a histeria obscurantista, só pode ser entendido à luz das condições que o favoreceram. A redução dos problemas mundiais à equação da guerra fria, EUA v. URSS, com uma corrida armamentista nuclear, fundamentava a retórica oportunista de que se valeu McCarthy, suficientemente audacioso para investir até contra o presidente republicano Dwight Eisenhower.

Acusações levianas de “deslealdade” e “traição” podiam até fazer sentido num tempo em que as crianças eram ensinadas na escola a se esconder debaixo da mesa para fugir de bombas atômicas. Hoje, com apenas uma superpotência a reinar no mundo, com uma máquina de guerra sem paralelo na História, teria de haver outro 11/9 para Cheney conseguir recriar o medo que gerou a histeria dos anos McCarthy e dos anos Bush.

Pedindo socorro aos terroristas

Esse é o drama dele. Só Osama Bin Laden e a al-Qaeda poderiam salvar a credibilidade de Cheney. Como mercador do medo o ex-presidente aposta nessa hipótese. Mais do que isso: precisa desesperadamente de que aconteça devastadora ação terrorista nos EUA, se possível com mais vítimas do que no World Trade Center. Seria, supostamente, a prova de que torturas e espionagem interna funcionam – e garantem segurança.

Basta um mínimo de bom senso, claro, para repudiar a suposta prova. Mas em meio à histeria, sonho de Cheney, razão e sensatez não prosperam. Daí o macarthismo explícito dos atuais sermões dele nas entrevistas. Na CNN, afirmou que “é maior agora o risco de novo ataque ao povo americano” porque Obama sustou a vigilância interna ilegal e os interrogatórios sob tortura (saiba mais na análise de Paul Begala AQUI).Bush_MissionAccomplished

Na entrevista à CNN sobrou até para George W. Bush, que o deixara tão à vontade como o mais poderoso vice da história dos EUA. Ele se queixou de que Bush, além de não ter ajudado Lewis “Scooter” Libby (ex-chefe de gabinete de Cheney, condenado por mentir sob juramento) ainda se negou a dar a ele o perdão presidencial. Criticou Bush ainda por causa do acordo com a Coréia do Norte (a oposição do vice fora verbalizada na época pelo infame John Bolton, seu cão de ataque defenestrado na ONU).

Diante do entrevistador John King, na CNN, ele só passou à defensiva ao ser lembrado que o governo Bush recebera de Bill Clinton um orçamento com superávit e ao passar o cargo a Obama em 2009 o déficit superava US$1 trilhão. Mas Cheney justificou com as guerras – como se a invasão do Iraque, que tanto contribuiu para afundar a economia, tivesse sido inevitável e não a pretexto de armas proibidas que não existiam.

Hora de expurgar os moderados?

Powell_Limbaugh

O neomacarthismo de Cheney ficou ainda mais explícito na entrevista do último domingo ao “Face the Nation” da CBS. Ali o ex-vice fez uma declaração de amor (leia AQUI) ao destemperado e obeso Rush Limbaugh (acima na foto da direita, com Colin Powell à esquerda), apresentador de rádio que, com sua força de rei do talk show, faz um patrulhamento diário contra republicanos insuficientemente duros na oposição.

Chamado pelo veterano entrevistador Bob Schieffler a se pronunciar sobre o ataque do radialista a Colin Powell, que Limbaugh intimara a abandonar o Partido Republicano, Cheney só faltou rotular de traidor o ex-secretário de Estado (com o qual disputava espaço no governo) e ex-chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas (do qual teve divergências como secretário da Defesa). O que não faltou: a acusação de “deslealdade”, cacoete de caçadores de bruxas (saiba mais AQUI e veja a entrevista na íntegra AQUI).Cheney_CBS

Foi como se Cheney estivesse tentando afirmar-se como o novo Joe McCarthy – ou, pelo menos, o guardião da doutrina da fé a promover expurgos e queimar bruxas, zeloso à frente da cruzada no Santo Ofício. Pode ser que tenha sucesso, mas o policiamento implacável dos desvios corre o risco de enfraquecer mais o partido de Lincoln – no qual conservadores e moderados, antes do assalto da direita radical, conviviam civilizadamente.

(Clique abaixo para ouvir a declaração sobre Rush Limbaugh)
Published in: on maio 12, 2009 at 5:17 pm  Deixe um comentário  

A outra tragédia por trás da gripe suína

Gripe_Wired

Quando da mudança do nome da gripe suína para Gripe-A, há mais de 10 dias, o jornalista Mauro Santayana, em sua coluna do Jornal do Brasil, divulgou dados relevantes e suspeitas graves que, por alguma razão, não eram citados nas notícias de nossa mídia. No último domingo os dados e suspeitas afinal chegaram também à primeira página do jornal Washington Post, destacados em três colunas (veja a página abaixo, à esquerda, e depois a ampliação da reportagem, à direita).

WPost_090510Enviada da cidade de La Gloria, no México, onde fica uma grande fazenda industrial de criação de porcos, a reportagem de Steve Fainaru, da editoria internacional do Post, referiu-se às denúncias feitas há anos por comunidades afetadas por unidades como aquela, sobre os efeitos das “lagoas” de excremento e urina, de mais de um milhão de porcos, que contaminam os lençóis freáticos da região (leia a íntegra AQUI).

No segundo parágrafo da reportagem o jornal ressalvou que “as autoridades de saúde não encontraram conexão entre as granjas de criação de porcos e a gripe suína” (leia informação diferente AQUI). E as autoridades da Organização Mundial da Saúde (OMS) fizeram mais do que isso, como Santayana tinha registrado (leia AQUI a íntegra da coluna do JB). Aparentemente sob pressão das multinacionais de porcos,Gripe_WPost_090510inventaram para a gripe um nome novo – e neutro – para distanciá-la dos porcos.

Desde o primeiro momento o artifício lembra o complô da indústria de cigarro, durante mais de meio século, para negar a conexão entre seu produto e o câncer. A indústria, que nos EUA prefere inspecionar-se a si mesma, ao invés de sofrer inspeções do governo – leia AQUI) negava haver “prova conclusiva”. É o se faz agora, segundo o Post. Atribuiu-se ao prefeito de Perote, sede do condado onde fica La Gloria, esta afirmação: “Para desfazer o mito, ou mesmo para reconhecê-lo como realidade, precisamos de mais estudos”.

Como o NAFTA abriu o caminho

Segundo o prefeito Guillermo Franco Vázquez, na jurisdição do condado, no estado de Veracruz, sudeste do país, há 22 comunidades afetadas por tais fazendas. “Desde o final de março, quando misteriosa doença respiratória infectou 616 residentes, La Gloria tornou-se o centro da crise da gripe suína”. O primeiro caso do novo vírus, tinha relatado Santayana, foi Edgar Hernández, de 4 anos.

Como boa parte dos dados da reportagem do jornal dos EUA já estava no dia 1° de maio na coluna do Jornal do Brasil, Smithfield_GranjasCarrollé estranho ter ficado fora da maioria da mídia. Em especial aquilo que já era sabido sobre a companhia Granjas Carroll de Mexico, dona das fazendas de porcos – e subsidiária da transnacional americana Smithfield Foods (saiba mais sobre ela AQUI), sediada no estado da Virgínia e cujos dirigentes negaram-se a falar ao Post.

Smithfield_logoSantayana citou declaração do deputado mexicano Atanasio Durán, segundo a qual as Granjas Carroll foram expulsas de dois estados americanos, Virginia e Carolina do Norte, devido aos danos ambientais que causavam. A salvação para elas foi o NAFTA, Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Graças ao tratado, as Carroll transferiram-se em 1994 para o México, com apoio do governo local.

O NAFTA permitia à gigante transnacional dos EUA ficar isenta do controle das autoridades mexicanas – detalhe que motivara a decisão. O jornalista destacou: “É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a padridão que mata”. Mesmo assim, a reportagem do Post destaca que as relações agora entre a Smithfield e os residentes das comunidades próximas tornaram-se insustentáveis.

Os protestos da população afetada repetem-se desde 2007. Manifestações às vezes até bloqueiam uma rodovia federal na região. E a resposta da Smithfield/Carroll tem consistido em mobilizar a própria polícia local contra os manifestantes, alguns dos quais são alvos de processos criminais instigados pela transnacional. Um pequeno fazendeiro de 66 anos contou ao Post ter sido obrigado a vender sua plantação de milho para pagar sua defesa.

Prisão para punir as vítimas

Bertha Crisóstomo, autoridade municipal de La Gloria citada no Post e na coluna de Santayana, foi acusada pela Smithfield. Atualmente está em liberdade sob fiança. Em fevereiro ela denunciara a contaminação do subsolo pelos tanques de urina e excrementos da Carroll. Hoje ela acha que a companhia escolhe certos alvos deliberadamente – parte do processo de intimidação para silenciar os descontentes.

Assim, a gravidade da gripe suína – ou Gripe-A, Influenza-A, ou que nome tenha – está servindo para amplificar problema, que já era sério para os residentes da área e continua a se agravar devido à expansão da atividade da transnacional, ameaçando ainda mais a saúde dos residentes e o meio-ambiente. Apesar de favorável a investimentos na região,Hog_farms_WPost090509 Crisóstomo acha que “não se pode negociar com a saúde das pessoas”.

A julgar pelo que relatou o Post, a posição das autoridades do governo do México é ambígua. Originalmente a Smithfield chegou como uma joint venture com a mexicana Agroindustrias Unidas, trazendo o método da “integração vertical” – que amontoa milhares de porcos em estábulos idênticos, cobertos por telhados de metal (foto acima). Ali os porcos comem, crescem, urinam e defecam – até a hora de serem mortos.

Excrementos e urina caem sobre plataforma de madeira e seguem em condutos para depósitos-tanques a céu aberto do tamanho de dois campos de futebol – chamados pela companhia de “lagoas”. Alega-se que são à prova de vazamento, mas os residentes contestam. Instalações agroindustriais desse tipo, em larga escala, são riscos graves para a saúde da população. Podem contaminar os lençóis freáticos e transmitir vírus, inclusive novos.

Uma batalha sempre desigual

Gente da região queixa-se há anos de doenças de pele, garganta inflamada e outros efeitos. As “lagoas”, de cor avermelhada e opacas, são abertas e sem cercas. O mau cheiro é horrível. Faz as pessoas se sentirem tão mal que em certos momentos não conseguem comer. As 16 fazendas da Smithfield na área produzem, segundo a própria companhia, um milhão e 200 mil porcos por ano. Em 2006 a Smithfield – já uma das maiores poluidoras dos EUA – foi celebrizada por revelações assustadoras de uma reportagem de Rolling Stone sobre suas práticas habituais (leia AQUI e veja a foto no final deste post). 

Fazendas podem surgir da noite para o dia, a poucas centenas de metros de casas habitadas por famílias no condado das fazendas industriais de porcos no México. Como contou ao Post o fazendeiro de soja e milho Fausto Limón: “Nunca pensamos que iriam criar uma aqui perto, mas ela veio. Em casa passamos a vomitar, ter dores de cabeça, olhos lacrimejantes. Tivemos de sair à procura de outro lugar, longe daquele mau cheiro”.

Outro efeito é a praga dos cachorros que se alimentam de pedaços de porcos mortos descartados nas proximidades das instalações. Além disso, há mais restos espalhados. Ao saber que se planejava a instalação de outra fazenda perto de sua casa, Limon afinal resolveu unir-se a outros residentes e organizar mais um dos grupos ativistas Pueblos Unidos, atuantes na região.

É principalmente contra os Pueblos Unidos – com sua ação semelhante à dos Sem-Terra do Brasil – que a Smithfield/Carroll atua, mobilizando como pode a polícia e a Justiça, graças a seus largos recursos e um exército de advogados. Estes, com a certeza de que são imbatíveis, movimentam-se com desembaraço também junto às autoridades nos vários níveis – local, estadual e federal.

RollingStone_Smithfield

Published in: on maio 11, 2009 at 3:52 pm  Comentários (8)  
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