
Enquanto a bancada republicana bloqueava no Congresso, há dois anos, o debate da guerra, um relatório oficial do Inspetor Geral (IG) do Departamento da Defesa confirmou o que todo mundo já sabia – que antes da invasão do Iraque o Pentágono manipulou deliberadamente informações de inteligência, na obsessão de ligar Saddam Hussein à al-Qaeda de Osama Bin Laden e às ações terroristas de 11 de setembro de 2001.
Essa ligação inexistente, como lembrou então o senador democrata Carl Levin, à frente da comissão de Serviços Armados, foi o argumento central usado para “vender” a guerra de Bush ao povo americano – em plena histeria patrioteira abraçada pela mídia do país. O que o Pentágono fez, disse Levin, “foi errado, foi uma distorção, foi inapropriado (…) e foi algo altamente perturbador”.
Como se processou aquela manipulação? Os detalhes foram expostos no texto. O relatório deixou claro que os responsáveis maiores tinham sido os dois das fotos acima – o então chefão do Pentágono, Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, e o número dois, Paul Wolfowitz, secretário adjunto. Em seguida vinha o sub-secretário (para programas) Douglas J. Feith, cujo gabinete Colin Powell chamou uma vez de “Gestapo” e “governo paralelo”.
Mas o relatório do IG, estranhamente, alegava ao mesmo tempo que não tinha havido ilegalidade (saiba mais sobre o relatório AQUI). Simplesmente porque aquela gente estava autorizada pelo escalão superior – leia-se, George W. Bush – a fazer o que fizera.
O desastre de US$3 trilhões no Iraque
Ou seja, o IG não considerou crime a manipulação deliberada, ainda que ela tenha fabricado pretextos para uma guerra declarada ilegal com base na Carta das Nações Unidas. Há dois anos Rumsfeld, Wolfowitz e Feith já não estavam no governo. No entanto, Rumsfeld continuava a usar um gabinete no Pentágono, Wolfowitz era presidente do Banco Mundial (demitiu-se em meio a escândalo envolvendo a namorada) e Feith ensinava (o que?) na Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown.
Wolfowitz repetira a proeza de Robert McNamara, secretário da Defesa na fase inicial da guerra do Vietnã, contemplado com a mesma mordomia do Banco Mundial. Mas McNamara ao menos, ao assumir o Banco Mundial estava arrependido de seu papel no banho de sangue (no premiado documentário The Fog of War, do cartaz ao lado, o cineasta Errol Morris apresentou o depoimento dele). Não foi esse o caso dos três executores dos planos bélicos da dupla Bush-Cheney, que primeiro decidiu fazer a guerra e só depois mandou que se achassem pretextos para justificar a invasão.
Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Feith e o resto da turma certamente nunca chegaram a perder o sono por causa da trapaça macabra. Mesmo conscientes de sua participação no processo de decisão ou na manipulação de dados para fazer a guerra de US$3 trilhões (cálculo de Joseph Stiglitz e Linda Bilmes), na qual já morreram 4.252 soldados americanos (por enquanto, até esta semana – confira os dados oficiais AQUI) e 650.000 a 800.000 civis iraqueanos (na estimativa conservadora da Universidade Johns Hopkins, já que outras falam em mais de 1 milhão).
Feith manifestou até certa euforia pelo relatório do IG. Estava convencido de que seu papel não fora ilegal e que tudo o que fizera tinha sido devidamente autorizado. Coube a ele, entre outras coisas, conduzir o OSP (Escritório de Planos Especiais), criado por Rumsfeld para falsificar dados capazes de contestar o ceticismo da CIA, cujos analistas negavam a ligação Saddam-Bin Laden, a existência de armas de destruição em massa, etc.
Um tenente na corte marcial
Agora, passo a outro personagem. Se todos aqueles fabricantes e planejadores da guerra estão tranquilos e nunca sequer perderam o sono, é bem diferente a situação do tenente do Exército Ehren Watada (foto ao lado), considerado modelo de militar. Por tudo o que se sabia na época, muito antes do relatório do IG, ele concluiu ser ilegal a guerra do Iraque. Assim, ofereceu-se para lutar no Afeganistão ou outro lugar. Como insistiram em mandá-lo para o Iraque, preferiu ser julgado por uma corte marcial.
Em 2007, enfrentou um primeiro julgamento. Não chegou ao fim, devido a falhas de procedimento. Houve ainda um impasse. Depois, foi para o segundo. Tratava-se do primeiro e único oficial a se recusar publicamente a lutar no Iraque. Sua unidade, numa brigada de Fort Lewis, estado de Washington, seguiu para a guerra em junho. Ele ficou. Respondia por cinco acusações diferentes (saiba mais AQUI).
Em geral, a grande mídia dos EUA não dá maior atenção a essas coisas. Ao contrário, finge que não aconteceram. Watada está agora com 30 anos. Ele é do Havaí, onde o presidente Barack Obama nasceu e viveu boa parte de sua vida. Quando explicou aos superiores que achava aquela guerra ilegal e imoral, eles lembraram o que já sabia: não cabe a um militar escolher a guerra de que quer participar. E também não podia deixar o Exército – tinha de enfrentar as consequências de sua decisão.
Nem covarde e nem pacifista
O fato ocorre com mais frequência no escalão inferior, entre os soldados. Milhares já desertaram ou se declararam contrários à guerra. No caso de oficial, a máquina militar se mexe, teme a subversão do esforço de guerra. O capítulo mais recente da aventura de Wataba, que continuou a servir (em tarefas burocráticas) em sua brigada de Fort Lewis, foi vivido a 22 de outubro do ano passado.
Um juiz federal, Benjamin Settle, decidiu naquele dia que Watada não terá de enfrentar uma nova Corte Marcial em três das acusações, pois isso equivaleria a ser julgado duas vezes pelos mesmos crimes (leia AQUI). Ficou em aberto se ainda terá de ir a julgamento pelas outras duas acusações, ambas relacionadas a “conduta indigna de um oficial e cavalheiro”. Sem dúvida, uma vitória, mas não o capítulo final. Pois se for julgado, ainda pode receber pena de prisão, embora por apenas dois anos.
Além disso, Wataba agora é cause célèbre. Fotos dele frequentam protestos antiguerra, embora alegue ser apenas “um americano comum” – nem “pacifista” e nem “covarde”, mas um “patriota” que viveu um dilema moral e agiu de acordo com a própria consciência. “Não tenho medo de lutar, (…) se meu país precisar, seria o primeiro a pegar o fuzil. O que não quero é participar de uma guerra que considero criminosa”, declarou ao jornal Los Angeles Times.
A oposição dele à guerra começou quando se revelaram fraudulentos os pretextos invocados pelo governo Bush para a guerra. O pai e a mãe dele passaram a ir a escolas e igrejas, em diferentes pontos do país, para falar do caso. Quanto aos guerreiros Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Feith & Cia, é verdade que já estão fora do governo, mas nunca tiveram por que se preocupar.



De qualquer forma, o governo não parece preocupado com as acusações que já começam – e certamente vão continuar – de que está voltando atrás, para o tempo em que os “democratas gastadores” aumentavam o tamanho do governo. Big government é uma expressão que irritava os democratas (leia 

A retórica do partido de George W. Bush, indiferente ao seu legado de guerras desastrosas, divisão interna, desprestígio internacional e a crise econômica cuja extensão ainda não está suficientemente avaliada, passou a pintar uma ameaçadora marcha do país “para o socialismo”. É o que repetem Rush Limbaugh (veja-o à esquerda, numa capa do Time em 1995), celebridade extremista do rádio, e o império Murdoch de mídia (Fox News, Wall Street Journal, etc).
Obama, que antes elevara Limbaugh à condição de líder dos republicanos (saiba mais
A oposição republicana, atormentada pela suspeita de que grandes bancos premiados com socorro do governo podem ser nacionalizados por algum tempo, talvez tenha ficado aliviada, horas antes, devido à palavra de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, banco central americano (na foto, seguido por Alan Greenspan, à entrada do gabinete Oval da Casa Branca de Bush). Ele negou (saiba mais
Apesar de sensato, Obama ainda parece distante de algo assim – ao menos por enquanto. É que a nacionalização dos bancos tem sido enfaticamente exorcizada a cada dia pelos republicanos e o presidente continua namorando o bipartidarismo. Mas Limbaugh e a Fox News – em especial a nova atração do império Murdoch, o destemperado Glenn Beck (foto ao lado) – redobram as denúncias veementes contra a “marcha para o socialismo” (saiba mais sobre “The Road to Socialism” na estapafúrdia explicação do próprio Beck 
A decisão do governo Obama de reforçar as tropas dos EUA no Afeganistão sugere uma volta ao tema do império americano. Nesse debate alguns chegaram a se referir com escrúpulo, há sete anos, à E-word (palavra E, Empire) ou à I-word (palavra I, Imperialism). Na ocasião alguns livro optaram ostensivamente, no título, pela expressão “Império Americano”. Andrew Bacevich, o autor de American Empire: The Realities & Consequences of U.S. Diplomacy (veja abaixo uma reprodução da capa), observou que cada vez mais a corrente central do pensamento no país reconhecia o papel imperial dos EUA.
No final do século XIX, depois de ter sido adicionado ao território dos EUA o que hoje são os estados do Texas, Novo México, Califórnia e Arizona, Theodore (Ted) Roosevelt defendeu a expansão colonial no Caribe, Ásia e Pacífico, rumo ao status de potência mundial. Jornalistas (Hearst e Pulitzer à frente, na feroz competição do yellow journalism), homens de negócios, banqueiros e políticos apaixonaram-se pela idéia.
“Império era comum no vocabulário dos americanos que fizeram a revolução contra a Grã Bretanha e no daqueles que conceberam e executaram o subsequente levante doméstico”, afirmou Williams. E mais: “Nossos Revolucionários e Pais Fundadores, conheciam as idéias, a linguagem e a realidade do império a partir do estudo deles da literatura clássica sobre a Grécia e Roma (e sobre a política em geral)”.
Na análise de Williams (foto ao lado), “império tornou-se tão intrinsicamente nosso sistema americano de vida que passamos a racionalizar e suprimir a natureza de nossos meios na euforia de nosso usufruto dos fins. Abundância era liberdade, e liberdade era abundância. A democrática Cidade na Colina. Daí projetarmos nosso imperium para o exterior, sobre os outros – declarados amigos ou então antagonistas malignos”.
A propósito das manifestações imperiais de Ted Roosevelt (veja ao lado sua caricatura da época, como cowboy) foi sintomático como historiadores ortodoxos, afinados com o pensamento dominante, distanciaram-se do entusiasmo de Watterson. Pouco condescendentes na crítica, viram aquele período imperialista como aberração na história de um país que oferecera ao mundo o exemplo da guerra da independência contra o domínio colonial britânico.
Blogs progressistas ou que confiam mais nos rumos da economia do país criticaram nos dias seguintes o fato de ter nossa mídia golpista – sempre atenta na busca e diligente na amplificação dos textos de fora com previsões de efeitos catastróficoss da crise internacional que ainda irão golpear o Brasil – ignorado aquela avaliação publicada no Journal de sábado, 7 de fevereiro, que ainda incluía o gráfico ao lado, com dados do FMI, explicando porque o Brasil ficará melhor do que os outros.
Nesse quadro, como deixar de admirar a competência da diplomacia brasileira, sob a liderança do chanceler Celso Amorim (foto ao lado), ao usar o prestígio e a imagem do presidente Lula e, paralelamente, os êxitos inegáveis de nossa economia? Note-se que aí aparecem os alvos obsessivos da mídia golpista do país, tanto nos destemperados ataques cotidianos (Amorim virou permanente saco de pancada), como na obstinação da escolha daquilo que publica e daquilo que esconde.
O que Shifter disse pode parecer óbvio, até em razão da descoberta recente dos novos campos de petróleo pela Petrobrás num momento em que declinavam na Venezuela os investimentos no setor petrolífero. Mas estará o Departamento de Estado preparado? Permanece no cargo o secretário Assistente para o Hemisfério Ocidental, Thomas A. Shannon Jr. (foto ao lado) agora subordinado ao novo sub-secretário para Assuntos Políticos, William J. Burns – ambos diplomatas de carreira.

Quanto a Uribe (foto ao lado), mantém tropas americanas na Colômbia e sonha torná-la “a Israel da América do Sul”.
Ex-ministros de FHC, Luiz Felipe Lampréia e Celso Lafer parecem, ao contrário, adeptos da submissão a qualquer custo (inclusive tirar os sapatos no aeroporto, ao invés de atirá-los em certo presidente). A ponto de ter o Itamaraty, sob pressão de Washington, tentado forçar José Maurício Bustani (foto ao lado), como embaixador licenciado do Itamaraty, a deixar a direção da OPAQ, a organização da ONU dedicada a fiscalizar a proibição de armas químicas, da qual era diretor em segundo mandato, eleito pela unanimidade dos países-membros (saiba mais
Conservadores britânicos e europeus em geral costumam ser mais realistas, apesar da “Nova Europa” – a dos ex-satélites da Rússia, que encantavam Donald Rumsfeld (foto). Coube a este criar a expressão, quando ainda era o chefão do Pentágono, num eforço para diminuir França e Alemanha, que ousavam resistir na ONU à guerra de Bush. Mas Rumsfeld foi dos primeiros a cair do cavalo – por causa da guerra.
Durante a guerra do Vietnã, acrescentou, o trabalhista Harold Wilson (foto ao lado) soube como fazer, “foi mais inteligente do que Blair, procurando nos enganar”.
O Iraque tornou-se estado-nação em 1920, depois de extraído do império otomano por franceses e ingleses, e de virar uma sangrenta “lambança mesopotâmica” -