
A foto acima é do momento em que o presidente Barack Obama assinou a ordem de fechamento da prisão de Guantánamo. Por enquanto, só o que o governo dele ousou dizer a respeito da extensa área de território cubano sob controle indecente dos EUA há 110 anos, foi essa referência à mudança do status dado pelo antecessor George W. Bush, ao transformá-la em infame centro de tortura, chamado há três anos pela Anistia Internacional de “Gulag do nosso tempo” (veja abaixo a cartaz do filme The Road to Guantanamo, premiado no festival de Berlim).
Em cumprimento a promessas de campanha, o governo Obama decidiu pela proibição da tortura e pelo fechamento da prisão – como também das demais prisões secretas da CIA (Agência Central de Espionagem) espalhadas pelo mundo, nas quais se terceirizava a prática da tortura. Mas Guantánamo é uma indecência jurídica e uma relíquia colonial do império sonhado pelos EUA no século 19.
Ocupada pela força das armas, Guantánamo já então era intolerável. Ainda o é hoje. Os próprios americanos, por uma questão de dignidade e bom senso, há muito deviam tê-la devolvido como excrescência ofensiva não só ao povo cubano, cuja liberdade os EUA alegam defender, mas a toda a América Latina – já que impingida a partir de lei americana abusiva que tratava de destinação de verbas do Exército.

De olho em Cuba, desde 1824
A ocupação de Guantánamo data de 1898. Resultou de pacote intervencionista em meio à luta dos cubanos pela independência da Espanha, então potência colonial. Concebida em 1823, a Doutrina Monroe (“a América para os Americanos”, na formulação duvidosa do presidente James Monroe, o do retrato ao lado) pareceu a alguns oferecer uma face “virtuosa” dos EUA, por advertir nações de fora do hemisfério de que não deviam se imiscuir nas questões do continente.
Os latino-americanos logo perceberiam que se buscava apenas atender às próprias ambições dos EUA, cuja atenção voltava-se para Cuba e Porto Rico já em 1824. O então secretário de Estado John Quincy Adams, depois presidente (1825-1829), avisou Simón Bolívar de que a doutrina não autorizava “os fracos a serem insolentes com os fortes”, motivo pelo qual devia ficar longe de Cuba e Porto Rico.
Ao preparar a I Conferência Pan-Americana, boicotada por Washington, Bolívar já não tinha ilusões: “Os EUA parecem destinados pela Providência a espalhar a miséria em nome da liberdade”, disse em 1829. De fato, a truculência britânica nas Malvinas, Honduras, Guatemala foi ignorada, enquanto os EUA tomavam o Texas e a Califórnia do México, depois invadido, e separavam o Panamá da Colômbia, além de mais intervenções.
Cobiçada desde 1824, quase comprada por US$100 milhões em 1848, Cuba entrava ainda no contexto dos 10 anos de oposição dos EUA à federação centro-americana. Ante a iminente vitória de Cuba sobre a Espanha (e a esperada conquista da independência), as cadeias de jornais Hearst e Pulitzer inventaram a “esplêndida guerrinha” de Ted Roosevelt e seus Rough Riders, retratados como heróis.
A fala macia e o porrete de Ted
Porto Rico foi anexada como o Texas. Cuba resistiu. Acabou sob controle, com a alegação dos EUA de que tinham ajudado a guerra da independência. De 1898 em diante o Caribe virou mar territorial americano. Nascia o império colonial, que tinha ainda Filipinas e Guam, do outro lado do mundo. Festejado como herói, Ted Roosevelt elegeu-se vice do presidente William McKinley no ano seguinte, 1900.
A Emenda Teller, de 1898, negava expressamente qualquer intenção dos EUA de anexar Cuba. E em 1901 o senador Orville H. Platt (foto ao lado), a pretexto de prevenir desejos imperiais da Alemanha sobre a ilha, apresentou a emenda (originalmente redigida pelo secretário da Guerra Elihu Root) à lei de verbas do Exército: proibia Cuba de assinar tratado dando poderes a outro país sobre seus negócios internos, endividar-se ou impedir ali um programa sanitário americano. E mais.
Na emenda (saiba mais sobre ela AQUI) os EUA arrogavam-se o direito de intervir nos assuntos internos de Cuba, a pretexto de “manter a ordem e a independência”, podendo comprar ou arrendar áreas para instalar estações navais ou carboníferas. A principal delas era a baía de Guantánamo. No mesmo ano, Cuba foi forçada a incluir a emenda na sua Constituição e a assinar tratado assegurando o poder dos EUA sobre a área (leia o tratado AQUI).
Obviamente os EUA – já sob Roosevelt, presidente a partir de 1901 devido ao assassinato de McKinley – deitaram e rolaram. Em 1906, mandaram-se tropas, “a convite”, para sufocar revolta e “restaurar a ordem”. Enviavam navios de guerra, negavam reconhecimento de regimes, instalavam e tiravam governos. Só em 1934 revogou-se a Emenda Platt, graças à política da Boa Vizinhança. Mas não o arrendamento de Guantánamo.
Caloteiro e péssimo inquilino
A manutenção de Guantánamo, antes de virar prisão, já se elevava, por ano, a US$ 36 milhões. Servia para provocar Cuba, que repudia a transação ilegítima e imoral. O aluguel é o sonho de todo inquilino: fixado pelo próprio, em 90 anos (de 1903 a 1993) subiu de US$ 2 mil para US$ 4.085. Nessa proporção, deve estar hoje nuns US$ 4.200, o que mal paga aluguel mensal de apartamento de dois quartos em Manhattan.
Arrogante e prepotente, o inquilino sempre impôs sua vontade como valentão de rua. Caloteiro, já que só paga o que quer, ainda controla a área e hostiliza o dono légitimo da propriedade. Cuba, ao contrário, comporta-se como o senhorio ideal: desde que Fidel Castro chegou ao poder, sequer desconta os cheques do aluguel. Teme que isso possa legitimar a indecência histórica imposta pelos EUA.
Há 16 anos, quando Bill Clinton chegou à Casa Branca, o escritor Tom Miller, autor do livro Trading With the Enemy: A Yankee Travels through Castro’s Cuba (capa ao lado), recordou no New York Times a história vergonhosa de Guantánamo – rebatizada no Pentágono, adepto das sopas de letras, como Gitmo (leia o texto na íntegra AQUI e saiba mais AQUI sobre Guantánamo como símbolo da gunboat diplomacy). Não se imaginava então a vergonha maior que viria – o centro de torturas, obra de Bush II em 2001.
Antes de Fidel, a área pode ter sido a base ideal para o lazer de militares amantes de prostíbulos, cassinos e consumo de drogas – cortesia de gangsters como Meyer Lansky, à sombra de ditadores apadrinhados em Washington. Talvez haja em Miami quem sonhe com a volta aos velhos tempos. Mas Obama, mesmo vencedor da Flórida, pode fazer a coisa certa. Acabar com essa indecência de 110 anos.


Já é uma diferença entre Obama e Bush. Mas neutralidade parece desagradar Israel. O presidente Jimmy Carter, por exemplo, mediou os acordos de Camp David (foto), entre Israel (à época, Menahem Begin) e Egito (então, Anwar Sadat). Hoje é sabido o horror dos israelenses a ele, difamado até como anti-semita. A reação israelense costuma ser ambígua: primeiro, o governo é discreto: deixa para outras vozes o início da sabotagem.
Paralelamente, teve início o período de oito anos de apoio automático e explícito dos EUA, no governo Bush, às posições israelenses. Nos oito anos anteriores Bill Clinton reunira em Washington líderes de Israel (Rabin, à esquerda na foto ao lado), Shimon Peres, Ehud Barak) e o palestino Yasser Arafat. Bush não admitiu receber Arafat. Ao invés disso, encorajaria o cerco a ele em Ramallah – até sua morte em novembro de 2004.
Há outros, negativos. O mundo inteiro, talvez até os EUA, está chocado com o massacre de Gaza e a desproporção perversa do número de vítimas. Tzipi Livni (foto), ministra israelense de Relações Exteriores e líder do partido governista Kadima, tenta provar ao eleitor que, apesar de atraente, pode ser implacável como Sharon – ou a trabalhista Golda Meir, que negava até a existência de um povo palestino.


E a subestimar a ameaça do extremista religioso Osama Bin Laden, treinado em ações terroristas pela própria CIA, que o financiara e armara no esforço para expulsar os russos do Afeganistão.

Ao proclamar sua discordância saudável, convencido de que tais ideais ainda iluminam o mundo e de que não se pode trocá-los por expedientes enganosos, Obama deixou claro ainda que no resultado da eleição deste ano – como na do Brasil em 2002 – a esperança venceu o medo. “Estamos reunidos aqui hoje porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia” (leia
O título The Tall Target
Mas a história do filme, ainda que atribuída à imaginação de Mainwaring, teve como base a especulação de que houve de fato a trama assassina. Lincoln seria alvejado durante sua viagem pela ferrovia The Baltimore & Ohio Railroad, atravessando Indiana, Ohio, Nova York, Pensilvânia, Delaware e Maryland até à capital – para a posse do 16º presidente. Viagem repetida agora pelo 44º, Barack Obama.
O personagem-chave do complô relatado em 1868 era um cabelereiro corso que emigrara para os EUA e se instalara em Baltimore: Cipriano Ferrandini (citado ainda como Siprono Fernandini e outras variantes) chegou a ser acusado mas nunca indiciado por conspirar contra Lincoln em 1861. Mas será Pinkerton confiável? Ou será suspeito, por seu interesse em superestimar feitos de sua agência?
O Sun
No livro Fiasco: The American Military Adventure in Iraq (veja-o ao lado, na mão de seu autor), o jornalista Thomas E. Ricks, encarregado da cobertura militar no Washington Post, fez o que o New York Times considerou um retrato devastador da guerra do Iraque como “um exercício desgovernado de arrogância, loucura e incompetência”, da decisão unilateral do governo Bush de invadir o país sob falso pretexto à ocupação desastrada, passando pelos erros na condução da guerra (leia
“Todos nós temos de evitar o Tom (Ricks) como uma praga”, dizia o email assinado por Steven Metz. O jornalista explicou: “Fiquei especialmente surpreso pelo texto porque a última vez que tinha falado com o professor Metz, em 2008, ele me pedira para escrever algo que a editora pudesse usar para promover o livro que acabara de fazer, também sobre a guerra do Iraque. Eu escrevi e a frase foi usada”. (Veja acima a capa o livro de Metz, Iraq & the Evolution of American Strategy)
O episódio do professor do SSI, revelado agora por Ricks, ajuda a avaliar melhor a extensão dos estragos causados pelo governo Bush em diferentes áreas – e o caso específico da liberdade acadêmica no Army War College. De posse do email, o jornalista do Post perguntou ao professor porque tinha conclamado colegas a fugir dele. Metz (foto ao lado) alegou que aquilo teve a ver com o clima político que a instituição vivia na época.
“Gente do SSI tinha sido verbalmente castigada depois de entrevistas dadas a você. Eles viram as reportagens e nelas havia mais críticas ao governo do que esperavam. Nós nos preocupávamos com o que podia vir a acontecer ao SSI. Estávamos amedrontados por causa da instituição. Muitos de nós, inclusive eu, simplesmente paramos de dar entrevistas”, desculpou-se o professor.
Lançada na Comissão de Atividades Americanas da Câmara (HUAC), no início da guerra fria, ela disseminou o medo no país e celebrou o falso patriotismo do senador Joe McCarthy (foto ao lado, numa sessão de seu comitê). O governo Truman aproveitou a histeria para aprovar a ajuda externa à Grécia e Turquia e na política interna para criar “juramentos de lealdade”.
Desde o fim da guerra fria eles pregam um mundo unipolar – os EUA como superpotência única. No final da guerra do Golfo de 1991, tentaram forçar a marcha sobre Bagdá, barrada pelo apoio de Bush I a James Baker (secretário de Estado) e Colin Powell (chefe do estado-maior conjunto). Atropelados pelo 11/9, usaram o pretexto para impingir a Bush II a guerra do Iraque e ítens de seu Projeto do Novo Século Americano, incorporados à Estratégia de Segurança Nacional (NSS).
Como o presidente eleito Barack Obama (na foto, em visita ao AIPAC, o lobby de Israel) vai receber, com a herança desastrosa de George W. Bush, déficit orçamentário acima de US$1,3 trilhão, e como seu pacote de estímulo maciço à economia eleva-se a quase US$ 800 bilhões (para criar empregos e tirar o pais da recessão), supõe-se que gastos perdulários no atual quadro de dificuldades do país terão de ser revistos – ou repensados.
Por trás de tudo, o lobby de Israel
Minha conclusão é de que a opção do apoio a Israel, adotada pelos governantes do país desde Harry Truman, resulta menos da tendência geral da população do que do trabalho liderado pelo milionário lobby israelense – o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC – saiba mais sobre ele
Mas Steven J. Rosen (foto ao lado), que em 23 anos transformou o AIPAC no que é hoje, uma organização dedicada a corromper políticos para servir aos interesses de Israel, está indiciado na justiça por espionagem, junto com Keith Weissman, outro operador lobista. E a testemunha é Larry Franklin, aliciado no Pentágono para espionar.
Chamo atenção para os que não o notaram: no post anterior, sobre a tragédia criada por Israel em Gaza, acrescentei um remendo para dar crédito (omitido na versão original) a uma história e à foto que a ilustrava. Em comentário, um leitor cobrou a informação e respondi. Não fiz a mesma coisa em relação a outra foto excelente (espero fazer ainda, com a ajuda de alguém), limitando-me a explicar como a recebi.
A variante disso é algo como o blog de Ricardo Noblat (a foto ao lado saiu no
Para mim, é um o equívoco brutal de O Globo, mas há razão forte. O império dos Marinho nunca reconhecerá que se fez à sombra da ditadura, aplaudindo seus crimes – como El Mercurio no Chile, cujo Roberto Marinho era Agustín Edwards, que se reuniu pessoalmente com o diretor da CIA e recebeu dinheiro (cash) para escapar da falência. Edwards apoiou o golpe contra Allende, virou porta-voz da ditadura e hoje a família Edwards é dona de um império – jornal, rádio, TV, etc. Soa familiar?
A “banalização do mal”, sobre a qual escreveu Hanna Arendt no estudo sugerido pela presença dela em 1961 ao julgamento do carrasco nazista Adolf Eichman (Eichman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – veja a capa ao lado e saiba mais sobre Arendt
Israel festeja tudo isso como “golpe imposto ao terrorismo do Hamas”. Confia na força de suas armas – e no arsenal nuclear, acobertado pelos EUA, padrinho e protetor obcecado antes pelas armas atômicas inexistentes do Iraque e agora pelas do Irã e Coréia do Norte. A máquina da propaganda busca esconder essas coisas: espalha sua própria informação falsa e impede a mídia estrangeira de entrar em Gaza.
No passado, nem o governo conservador de Ronald Reagan adotou posição tão a reboque de Israel como faz a atual administração Bush-Cheney. Richard Murphy (foto ao lado – saiba mais sobre ele
Apesar das previsões de que o espetáculo de morte e destruição não trará vitória estratégica para Israel sobre o Hamas, como não trouxe sobre o Hizbollah em 2006 no Líbano, um sacerdote do neoconservadorismo nos EUA, William Kristol (foto acima), prometeu em sua coluna do New York Times que desta vez será diferente. Para ele, Israel vai acabar com o Hamas – “fará um favor aos EUA”.